Blog »

PROMESSAS E DESEJOS PARA O ANO NOVO

Kalapalo 12/12/2011 1

Duas semanas para o Natal, três semanas para o Ano Novo… Chegamos mais uma vez naquela época do ano de passar a régua e fazer o balanço…

Pra muita gente esse é um tempo de ansiedade quase inexplicável. Bate culpa por não ter cumprido promessas. Então, pra compensar, novas promessas entram para a infindável lista, velhas promessas são refeitas, conquistas e derrotas são contabilizadas… Tudo bobagem!
Digo isso com a boca cheia, como se estivesse atacando um panetone!
Nem preciso dizer que também caio regularmente nessa armadilha… Tenho minhas listas, claro… Tem uma, em especial, que me envergonho todo ano de fazer, mas que ainda não consegui me livrar do vício… Chama-se WISHLIST e nela enumero cuidadosamente os “brinquedinhos” que gostaria de ter. Depois vou riscando conforme “cumpro minha missão”…
Nessa lista sempre tem alguma nova bike, várias parafernálias eletrônicas, muitas viagens exóticas, equipamento de aventura de monte! Mas, pra “amenizar” a culpa que sinto por me assumir tão consumista e fútil, sempre começo a listagem com desejos menos “materialistas”. Escrevo e prometo para mim mesmo… Praticar yoga regularmente, pedalar pelo menos 500 km por mês, frequentar a academia três vezes por semana, meditar todos os dias, voltar a estudar alemão, comer menos açúcar, me envolver com algum trabalho social voluntário, ler pelo menos dois livros por mês, etc.
Patética tendência de transformar atividades que me dão prazer e bem-estar em conquistas contabilizáveis, em bens de consumo. Não basta fazer yoga, tenho que acumular uma frequência, um volume, números que sugiram “avanço”, “progresso”, “desempenho” e outras cretinices. Não basta meditar, tenho que quantificar e acumular. Sempre acumular. Como se a quantidade gerasse um “benefício em longo prazo”.
Outro dia, almoçando com um amigo, eu explicava a ele a diferença entre “turismo convencional” e “turismo aventura”. Na verdade eu explicava para mim mesmo o conceito do trabalho que faço. Eu dizia: “no turismo convencional as pessoas saem de casa para consumir mais daquilo que elas consomem regularmente em casa, ou gostariam de consumir”. Eu falava de compras, restaurantes, luxo, conforto, poder, etc.
A contrapartida, que é o turismo aventura e a base conceitual dos guias e manuais que escrevo e publico, oferece aos interessados não a possibilidade do consumo mas a possibilidade da experiência. Pedalar durante um feriado, conhecer cidades pequenas e originais, dormir em pousadas simples e às vezes improvisadas ou mesmo acampar, ter contato com gente vivendo suas realidades diferentes das nossas, percorrer cada centímetro do percurso com as forças do seu próprio corpo – essas coisas têm potencial de mudar o indivíduo, podem fazê-lo questionar a vida que leva, o futuro que deseja, o passado que o compõe.
Quando estou mapeando um roteiro de aventua para meus livros, quando estou em campo pedalando, caminhando, acampando por uma, duas, três semanas, ou eventualmente até dois meses, lembro todo os dias que “só existe o agora“, que não tenho controle sobre o futuro e que o passado passou. Aceito com espanto e resignação a realidade que me cerca. Consigo entender que não existe ação sem consequência. Percebo que todo gesto tem sua justificativa. Sinto maior responsabilidade sobre meus atos, palavras e pensamentos.
Mas basta voltar pra casa, pra São Paulo, que rapidinho esqueço de tudo isso para me tornar aquilo que a TV espera de mim: um consumidor!
E faço listas para consumir mais e mais aquilo que traz paz e alegria para meu dia a dia, enquanto que, na verdade, sei que quem vive para trabalhar e trabalha para consumir não vive de verdade… Dá expediente na Terra!
Por isso vou simplificar minha WISHLIST de 2012… Vou escrever apenas um item:
SER VERDADEIRO COMIGO MESMO.
Parace pouco? Parece fácil? Para realizar essa promessa, tenho que, primeiro, saber quem eu sou… Isso implica em muito questionamento, pesquisa e meditação. Depois, se eu conseguir chegar a alguma conclusão, vou precisar muita disciplina e autocontrole, perseverança e visão clara, alegria e leveza (porque ninguém vai querer viver sua verdade como quem paga prestações sem fim), para simplesmente não esquecer o que descobri.
Uma pista eu já tenho… Esse ano, por exemplo, mapeando o Blugrama (meu próximo livro, com uma trilha de 1.611 km de extensão conectando Blumenau a Gramado, ida e volta por caminhos diferentes, em 32 dias de viagem) novamente confirmei para mim mesmo que me sinto inteiro, verdadeiro, leal a mim mesmo, em cima de uma bicicleta em contato com a natureza.
Já é um começo… Agora é analisar isso com humildade e profundidade e tentar descobrir o que isso significa de verdade.
  1. Luciano Lira 31/12/2011 at 20:30 - Responder

    Comentário: Prezado Guilherme, concordo com suas reflexões. Essas viagens não convencionais que o turismo aventura proporciona nos enriquece muito, psicológica e espiritualmente. Aqueles pacotes fechados das agências para turistas comuns são verdadeiras tristezas...

    Transcrevo aqui um dos clássicos pensamentos de Søren Kierkegaard, que acho que se aplica tanto à aventura da busca de si mesmo (a interior) quanto às atividade outdoor que praticamos: "Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. E aventurar-se no sentido mais elevado é precisamente tomar consciência de si próprio".

    Na minha opinião, as atividades outdoor, praticadas com bom senso, sem aquela pretensão em voga de superar limites estabelecidos pelo império do ego, são uma saudável forma de nos aprofundarmos em nós mesmos, porque, no final, a maior aventura é o entendimento do funcionamento do nosso psiquismo, nos proporcionando sabedoria, maturidade, itens tão caros e essenciais na atual transição planetária.

    Agradeço pelo seu trabalho, através de seus livros e cursos, pois incentiva muita gente a praticar esse nosso modo de vida boa de lascar...

    Abração.

    Luciano Lira.