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TERMINADO O MAPEAMENTO DO BLUGRAMA!

Kalapalo 26/09/2011 0

Desde o último post aqui no blog, pedalei três dias e aproximadamente 180 quilômetros. O tempo esteve perfeito, se é que existe tal conceito quando a gente pedala… Tudo bem que é mais agradável pedalar com sol e céu azul, mas já repacou que quando o assunto é “pedaladas memoráveis”, vento, frio e chuva são sempre protagonistas importantes…

Do Cachoeirão dos Rodrigues, em São José dos Ausentes (RS), até São Joaquim (SC), o ponto alto (na verdade “ponto baixo” porque tive que descer a serra e depois subir tudo de novo) foi cruzar o Rio Pelotas, divisa de estados entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Engraçado como esses marcos geográficos emprestam peso e valor a grandes deslocamentos em bicicleta como esse que fiz, no mapeamento do Guia de Trilhas Serra Geral (Blugrama), eles parecem confirmar que realmente nos deslocamos.

De São Joaquim fui para Urupema e confesso que sofri. Decidi mudar o roteiro a partir da indicação de moradores locais e me arrependi. O que era para ser um atalho virou uma extensão de 9 quilômetros em um trecho que já tinha 65 km. Cheguei em Urupema já à noite, com frio e bem cansado.

O problema é que o pessoal da roça só pensa em asfalto… Quando digo para onde vou, não importa onde seja, invariavelmente o comentário que ouço é: “mas essa é a estrada ruim, a estrada boa é outra”… A tal “estrada boa”, segundo eles, é sempre asfaltada ou o mais próximo disso. Quando alguém me propõe um atalho, é sempre mais quilômetros em “estradas boas”. A idéia de evitar estradas asfaltadas, muito movimentadas, isoladas e mais “naturais” – meu lema nos livros de roteiros que publico – é um conceito alienígena para quem vive na roça.

Sei que isso é apenas uma reação ao modelo de progresso que vigora nos canais de TV, que praticamente só mostram cidades grandes e áreas urbanizadas. Essa pasteurização do progresso acaba ganhando importância e tomando ares de “valores”. Sem perceber, todos começam a acreditar que “o que é urbano tem valor, o que não é urbano não tem valor”. O “bom” seria se todas as estradas e ruas fossem asfaltadas…

De Urupema até Urubici, onde estou agora e ponto final do meu trabalho de mapeamento, eu desci mais do que subi e tive um incidente que por pouco não virou um acidente…

Pela estrada geral, logo depois da ponte sobre o Rio Gargantilha, para quem conhece a região, existe um grupo de casas. Eu pedalava bem devagar porque queria parar e perguntar o nome do vilarejo a algumas moradoras. O dia estava lindo e senhoras conversavam e tomavam sol na porta de uma casa. Um carro, um Del Rey vinho bem barulhento, vinha na direção oposta em alta velocidade, bateu em um buraco e perdeu o controle, vindo direto para cima de mim. Parei a bike e coloquei um pé no chão, pronto para me jogar no mato do meu lado direito para não ser atropelado. Por sorte o motorista conseguiu frear violentamente, derrapou para uma lado e para o outro, e parou a uns 5 metros de mim, levantando bastante poeira.

Imediatamente ele engaou primeira e passou do meu lado, olhando feio para mim. Eu não me segurei e disse: “Você tá louco?”. O cara parou o carro, desligou o motor e abriu a porta. Pensei: “Pronto, agora vou ter que brigar e me defender desse maluco”. O motorista desceu do carro cambaleando, completamente bêbado. “Pois não?”, acho que foi o que ele disse. Felizmente ele não queria briga. Na verdade ele não sabia o que queria, nem onde estava.

Resumindo a história, eu dei voz de prisão ao bebum. Não sou policial, mas qualquer cidadão pode dar voz de prisão a qualquer pessoa diante de um flagrante delito. Isso é bom que todos saibam. E usem. Fui convincente (ou cara estava tão bêbado que provavelmente confundiu minha roupa de ciclista e capacete com uniforme de polícia) e o motorista foi logo dizendo: “Desculpa, doutor!”.

Fiquei com medo dele estar também armado, já isso não é raro pelo interior. O cara era mais alto que eu e bem forte, olhos azuis de origem alemã e bafo de Oktoberfest. Reforcei a voz de prisão e mandei ele se encostar no capô do carro, mandei ele asfastar as pernas e fiz uma revista completa. Tudo com bastante autoridade e “incentivo físico”, para não correr riscos.

Todo o tempo eu repetia que ele estava preso por dirigir embriagado e expôr outras pessoas ao perigo. Todo o tempo ele balbuciava desculpas. Mandei ele me dar os documentos e as chaves do carro. Ele pedia mais desculpas, dizia que “era trabalhador”, que “estava indo pra casa”, “que era pai de família e gente de bem”, mas atendeu a todos meus pedidos. Decorei seu nome.

Mas eu não tinha como efetivamente “prendê-lo”, a não ser que eu o arrastasse com minha bike até Urubici, quinze quilômetros adiante. Mas não podia simplesmente virar as costas e seguir meu caminho, como se nada tivesse acontecido. O motorista estava absolutamente errado e podia ter me matado ou me machucado bastante. De repente fiquei cheio de viver em um país sem justiça e punição. Guardei as chaves do carro no bolso, disse a ele que fosse buscar as chaves na delegacia e fui embora pedalando.

Quando cheguei a Urubici e terminei minhas anotações de viagem, pedalaei até a delegacia de polícia e entreguei as chaves a um atendente. Uma rápida pesquisa no computador indicou que o carro estava com os documentos vencidos desde 2008 e tinha mais de R$ 1.800 em multas.

Esse é um bom exemplo de como funcionam as estradas rurais brasileiras… As mesmas estradas que a população local gostaria de ver asfaltadas… Assim eles poderiam de deslocar mais rápido e chegar mais fácil aos seus destinos.

Fim do mapeamento do Blugrama. Agora é só escrever, editar, revisar e publicar.