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TREKKING NA ILHABELA

Kalapalo 03/08/2011 0

Relato escrito por mim em 2005 e publicado na revista Aventura e Ação, na sessão Vida Dura. Revisado e atualizado para esse blog.

História

1998 foi um ano importante para a aventura no Brasil. Rolou a primeira edição da Adventure Sports Fair e a primeira corrida de aventura do país: a EMA (Expedição Mata Atlântica). Quem correu a prova e foi na feira, como eu, ficou surpreso. Antes, éramos membros de tribos isoladas – mountain bikers, montanhistas, remadores, mateiros, etc. – depois, descobrimos que éramos todos primos em primeiro grau, amantes daquilo que o criador da EMA, o Alexandre Freitas, gosta de chamar de “roubada”. A EMA 98 colocou um monte de gente na estrada. Gente que, como eu, decidiu tentar fazer das “roubadas” sua vida. Então moçada – Said (Ecomotion), Julio (Brasil Wild), Zolino (Adventure Camp), Fábio (Caiaques Opium), Marcelo (Pedal Power) e outros tantos –, lembrando de vocês eu refiz o trekking da EMA 98. Tá aqui, divirtam-se. Alô, Alexandre! Esse texto eu escrevi pensando em você, cara!

A ilha

Descoberta em 1502 por Américo Vespúcio e povoada nos tempos das sesmarias, em 1532 ganhou nome próprio com o povoado de Villa Bella. Em 2005 lá estava eu, descendo da balsa. Mochilão, botas de trekking, bastões de caminhada, barraca, saco de dormir e bastante repelente de insetos. Os borrachudos da ilha são tão temidos hoje quanto os corsários e piratas no tempo do império. Piso na ilha e sou picado por Francis Drake e Edward Fonton, um em cada mão. Batizo os dois com nomes de famosos piratas do passado. Esmigalho um, o outro foge e fico de olho num Thomas Cavendish que sobrevoa minha (a quem diga, vasta) região nasal.

O guia

Minha primeira idéia era fazer o percurso todo sozinho, navegando por carta topográfica, bússola, altímetro e vaga lembrança. Depois pensei melhor e decidi buscar companhia. É sempre mais divertido e ajuda muito na hora de fazer fotos. Conheci o Marcelo, dono da agência de ecoturismo Caiçara Ilhabela e grande expert em trilhas na ilha. Gente boa, caiçara nativo, comeu pirão de peixe com banana verde na mamadeira, inteligente e grande ativista ambiental. Difícil era acompanhar o ritmo do cara!

Primeiro dia

Mal desci da balsa, garoando forte, conheci o Marcelo e começamos a caminhada. Da Praia de Perequê saímos para a Praia dos Castelhanos. Eu queria passar na frente do antigo Albergue da Juventude, de onde começamos o trecho de trekking da EMA 98. Fiquei besta. A cidade cresceu muito em 7 anos. Surgiram bairros novos, ruas asfaltadas, desmatamentos e problemas sociais. Inevitável? Sei lá. Fico sempre com a impressão que tudo podia ser diferente. Melhor.

O Albergue hoje se chama Recanto das Bromélias. Até a entrada do Parque Estadual de Ilhabela o negócio é baixar a cabeça e caminhar rápido. Tem mais degradação do que beleza natural para se ver. Entrou no parque e tudo muda. Ao invés de seguir pela estrada, por onde caminhei no escuro de uma noite sem lua em 98, optamos por entrar na Trilha da Água Branca – um percurso de 2,2 km todo sinalizado, com degraus cavados na terra, observatório de pássaros, uma figueira de 300 anos e um monte de piscinas naturais. Coisas que eu nem imaginava que existiam quando passei por ali correndo.

Garoa, neblina, um pouco de frio ajudaram a manter um ritmo mais puxado. Cruzamos alguns veículos 4×4 que transportavam turistas até Castelhanos. Não tem como negar, dá orgulho olhar as botas enlameadas, sentir o cansaço nas pernas e saber que você vai chegar lá com suas próprias forças.

Números do dia: 25 km percorridos em 5 horas.

Acampamento

Em Castelhanos só se pode acampar. As opções são muitas, além do camping oficial e outros pontos, o Bar do Alemão tem um gramado plano com banheiro limpo e ducha de água fria por R$ 5,00 por pessoa. Chegamos com o sol (que sol?) se pondo. Nain e Mutley, que ajudam a tocar o bar, ofereceram uma área coberta para armar as barracas. Melhor assim, barraca molhada dentro da mochila deixa tudo com cheiro de cachorro sarnento.

Não demorou nada e rolou uma pescada à milanesa com arroz, feijão e uma super salada mista. Minhas lombrigas não puderam reclamar. Descobri que tudo quanto é morro, curva e riacho no caminho tinha nome: Morro do Embiruçu, Morro das Canas, Volta Grande, Morro do Sabão, Mãe DÁgua. Engraçado como, numa corrida, essas coisas todas não passam de obstáculos a serem vencidos. Nomes? Em 98 tudo se chamava “pressa”.

Segundo dia

Chovia fraco. A Praia dos Castelhanos estava praticamente deserta. Embaçamos um pouco para zarpar. Já com a mochila nas costas sinto meus pés doloridos. Nada muito diferente de 98. Olho para meus pés e vem a surpresa: estou usando o mesmo par de botas que usei na EMA! Caramba! Ou os sapatos são bons ou estou ficando cada vez mais pobre!

Na ponta da praia Marcelo encontra uns parentes, primos em terceiro grau, pescadores humildes e simpáticos – Seu Zé e Dona Nica. Faço fotos e constato que a vida deles não é muito diferente dos primeiros colonizadores. Muda a roupa, a embarcação, o destino do peixe, mas a essência continua a mesma.

A trilha larga sobe um morro íngreme, erodido, para chegar na Praia Mansa 2 km depois. Marcelo me conta que sua tataravô foi desembarcada ali como escrava, trazida de Cabo Verde. O lugar chamava-se Porto da Praia Mansa e com um pouco de imaginação dá até para imaginar a cena do desembarque. Nada muito alegre de se imaginar. Mais 2 km e chegamos à Praia Vermelha, a mais bonita na minha opinião. Um paulistano endinheirado comprou tudo o que podia na região, deslocou os caiçaras para o fundão da praia e tentou vetar o acesso às areias. Marcelo foi um dos que peitou o cara, denunciou a falcatrua e ajudou a manter público o que a ganância quis privatizar.

Entramos na mata. Mais de duas horas caminhando rápido por uma trilha sutil que vira e mexe estava bloqueada por árvores caídas e chegamos à Praia da Indaiuba. A mata pluvial atlântica é assim mesmo: metamorfose constante. A lição prática do conceito budista da impermanência. Em Indaiuba outra surpresa, um milionário construiu uma rua de pedras onde antes era a trilha. Diferente do endinheirado arrogante da praia anterior, este não tentou restringir acesso algum, mas investiu pesado em saneamento básico, construiu e mantém uma escola reconhecida pelo MEC e beneficia diretamente muitas famílias locais. Descontados os exageros – a estrada “pavimentada” é um choque -, se a urbanização é inevitável, que ela seja planejada e privilegie o maior número possível de pessoas.

Bonete, finalmente!

A chuvinha até deu uma trégua, para comemorar. Decididamente, sou mesmo um cavalo pangaré! No Bonete a programação estava mais para Beverly Hills do que para Belford Roxo. Ficaríamos hospedados na Pousada Canto Bravo, com direito a lençóis limpos numa cama de verdade, banho quente e comidinha na mesa com direito a replay. Eu lembrava disso e minhas forças aumentavam. Cheguei na Praia do Bonete quase correndo.

Agora, sacanagem foi o escalda-pé! A Pousada, cujo acesso se dá 95% dos casos apenas a pé, oferece ao hóspede recém-chegado uma bacia de água quente, ervas e sal grosso. Tirar as botas pesadas de barro, encharcadas, as meias pútridas e mergulhar os pés naquela bênção líquida era de fazer qualquer marmanjo chorar. Dez minutos ali e eu reavaliei muitos dos meus conceitos de aventura. Um pouco de mordomia e canja de galinha não faz mal a ninguém.

Números do segundo dia: 17 km em 6 horas.

Terceiro dia

Dia de cachoeiras. O tempo abriu na metade do caminho e foi a festa. Rolou mergulho em poço natural e desfile de sunga. Até os borrachudos tiraram férias. O trecho do Bonete até a Ponta do Sepituba – ponto final da estrada permitida a veículos motorizados – é o mais curto e tranqüilo do percurso. Mamão com açúcar. Papagaios histéricos faziam o carnaval, turistas de havaianas rumo às cachoeiras olhavam a gente como quem olha bicho raro – dois botocudos de mochila e barro até o pescoço. Nenhuma surpresa, afinal eu usei a mesma roupa de briga os 3 dias.

Números do dia: 14 km em 4:30 horas.

Conclusão

Ô vida dura! 56 km percorridos em 15:30 horas. Duas picadas de borrachudo (Francis e Edward, só), uns 5 kg extras de barro nas botas e roupas, pés historicamente doloridos e zero estresse.

Então, tá esperando o que para fazer a mochila? Convite do governador?

Minhas observações são: 1) esse trajeto está minuciosamente mapeado no Guia de Trilhas Trekking (Vol. 2) (Link para resenha do livro aqui no blog), de minha autoria e publicado pela Kalapalo Editora; 2) faça o percurso no sentido horário, deixando a parte mais árdua para o começo; 3) viaje leve; 4) chuva, frio e lama não servem como desculpas para ficar em casa (aliás, nada serve como desculpa. Leia meu texto 10 Desculpas Esfarrapadas Para Não Se Aventurar aqui no blog); 5) não tenha medo dos borrachudos, eles não andam tão ferozes ultimamente.

Quer ver mais fotos? Clique no LINK para algumas fotos publicadas no Guia de Trilhas Trekking (Vol. 2)