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VENTUS – VINHO TINTO DA PATAGÔNIA

Kalapalo 18/07/2011 1
Todo mundo conhece o ditado “nunca julgue um livro pela capa”, mas eu não conheço ninguém que siga essa sabedoria popular. Nem eu mesmo.
Quando vi esse vinho pela primeira vez, em 2008, em El Calafate, na Patagônia Argentina, depois de ter percorrido pela segunda vez o Circuito Paine no Parque Nacinal Torres del Paine, no Chile, comprei logo duas garrafas. Eu estava mapeando o roteiro de trekking para o Guia de Trilhas Trekking (Vol. 1), que lancei no mesmo ano. (Clique no link para ver a resenha do livro aqui no blog).
Como resistir à “árvore bandeira” desenhada no rótulo, depois de ter experimentado o vento patagônico no corpo, depois de ter fotografado várias dessas árvores deformadas pela força do ar?


Apostei no rótulo e o ditado estava errado!

O problema do ditado está na palavra “nunca”… Concordo que não devemos ser superficiais e aceitar cegamente que nossos olhos são nossos melhores conselheiros. Eles não são. Os olhos simplesmente enxergam, mas nosso cérebro está tão treinado para julgar e acreditar que “isso é bonito” e “isso é feio” que não importa muito o que nossos olhos enxergam e sim o que o cérebro julga… Aprendemos por repetição constante que “bonito é bom” e “feio é ruim”. Mas, de verdade, nem feio nem bonito existem. O tempo se encarrega de equalizar essas pseudo-diferenças, o que é bonito fica feio amanhã e vice versa… No final tudo simplesmente se mescla e desaparecem as diferenças… Mas isso é assunto para outro texto, outro dia.

Confiei nos meus olhos, apostei no rótulo e não me decepcionei. O vinho tinto seco Ventus, da Bodega del Fin del Mundo, além de mostrar a Patagônia no rótulo, traz um pouco da Patagônia em suas garrafas… Não sou enólogo, não conheço profundamente vinhos, mas essa é minha bebida favorita (depois de água pura e limpa) e anoto os vinhos que gostei mais. Normalmente prefiro vinhos de um só tipo de uva, para tentar sentir o gosto íntegro da fruta e tentar identificá-lo, mas a assemblage (termo francês para identificar misturas de distintas uvas para equilibrar um determinado vinho) do Ventus deu certo (Merlot, Malbec e Cabernet Sauvignon).
Na linguagem cheia de ares, redemoinhos, brisas e outras frescuras dos enólogos e sommeliers… Esse vinho é frutado (termo usado por entendidos de vinho para dizer que tem gostomais acentuado de fruta), de taninos aveludados (o tanino é um veneno, uma ferramenta química utilizada pela planta para afastar seus predadores, que podem ser insetos ou até microorganismos, causando amargor e adstringência, mas com o amadurecimento da planta os taninos perdem toxidade e ficam mais suaves), com notas de baunilha e chocolate (um toque muito suave de um ingrediente que obviamente não existe de verdade no vinho, mas que tem um sabor parecido), de corpo denso mas delicado (claro que líquidos não podem ter corpo próprio, mas esse arroubo poético é para dizer que o vinho é pesado mas também é leve, ou o contrário, tanto faz)… Pelo menos essa é minha análise amadora degustativa.

Mas, soprando as frescuras para longe, vinho e aventura têm muito em comum… É possível beber vinho para ficar alegre ou bêbado e tentar mudar artificialmente nossa percepção da realidade, ou degustar um copo apenas com os sentidos alertas, separarando sabores e aromas, estudando e apreciando o que o vinho realmente nos oferece, sem julgamento ou preconceito. O mesmo acontece com as trilhas, seja em cima de nossas bicicletas ou em treking. Podemos qualificar e criticar, consumir lugares e experiências por hábito ou compulsão, filtrar tudo a partir dos nossos valores pré-estabelecidos de “bom” e “ruim”, ou podemos permanecer alertas e simplesmene sentir e observar tudo o que a natureza esparrama diante de nós.

Aos curiosos, agora é possível encontrar esse vinho com alguma facilidade aqui em São Paulo. Eu recomendo! Minha teoria é… Se não conseguimos ir à Patagônia sempre que queremos, depemos pelo menos sentir um pouco de seu gosto de vez em quando por aqui mesmo…
Beba com moderação, aventure-se desbragadamente!
  1. israel bianchet [email protected] 19/07/2011 at 13:38 - Responder

    Comentário: OOO beleza, voltaram as postagens, rsrsrs. E como sempre um excelente assunto, eu como um bom descendente de italianos sou um aficcionado por vinhos, estou extremamente longe de ser um enólogo, mas não vivo sem uma taça de um bom vinho. Acho que o vinho e o chimarrão tem muito em comun, são bebidas que quando estamos em amigos aproxima uns aos outros e quando estamos a sós nós aproxima de nós mesmos. São bebidas que nós fazem pensar, refletir, que nos trazem satisfação e uma paz interior indescritiveis. Alias, vai ai uma dica, Vale dos Vinhedos e Caminhos de pedra aqui no RS, região dedicada a vinicultura. Grande abraço!