DICAS PARA BIKEPACKING

13 de agosto de 2021

Dica 1: Mountain bikes são as bicicletas mais versáteis, têm excelente desempenho em estradas de terra e enfrentam com segunrança qualquer terreno técnico. Gravel bikes, que estão na moda andam muito bem em estradas de terra e mais nada! Bikepacking pressupõe maior liberdade, autonomia e autossuficiência, assim não faz muito sentido escolher um modelo de bicicleta com maiores restrições. Se o ciclista pedala 99% do tempo em estradas de terra e não pretende mudar essa proporção, tudo bem, mas se existe o interesse ou a possibilidade de percorrer terrenos mais técnicos, a mountain bike é a melhor alternativa.

Dica 2: Quadros de alumínio são 100% confiáveis, quadros de cromo podem ser soldados por qualquer um, já quadros de fibra de carbono são delicados e uma vez danificados estão condenados. Opte pela segurança. No passado, lá na década de 1980, quadros de alumínio costumavam trincar. Isso não acontece mais hoje em dia, os bons quadros de alumínio vêm inclusive com garantia vitalícia de fábrica. Quadros de cromo, uma liga de ferro, podem ser soldados mas são mais pesados. O argumento de oferecerem mais conforto, pelo material ser mais maleável, é verdadeiro mas é também relativo. Suspensões ou pneus mais largos resultam em mais conforto no final das contas. No ambiente do bikepacking é comum as bicicletas serem mal tratadas, acabarem na carroceria de um caminhão, sofrerem quedas, etc. Quadros de fibra de carbono não resistem impunemente à essas agressões. Titânio é um material nobre que têm flexibilidade maior do que o cromo, além de ser tão resistente e inoxidável quanto o alumínio, com menos peso. Mas quadros de titânio são raros, caros e, se sofrerem trincas, obrigam um tipo de solda especial e muito difícil de encontrar. Minha opção pessoal, por questões econômicas e práticas, é o alumínio de alta qualidade.

Dica 3: Ainda tem muita gente, pelo menos no Brasil, discutindo a questão do tamanho do aro da bicicleta: 26, 27,5 ou 29? Nos EUA e na Europa essa questão se restringe a aro 27,5 ou 29, aro 26 não existe mais por lá, pelo menos não em bikes novas! Aro 26, hoje em dia, está restrita às fatbikes. Independentemente das vantagens de desempenho, já que, quanto maior o diâmetro da roda, maior a inércia uma vez em movimento, em bikepacking o tamanho do aro tem pouca influência no desempenho do aventureiro. Quando a bicicleta está carregada de equipamento, o tamanho da roda pouco ou quase nada ajuda ou atrapalha. A questão é outra. Está cada vez mais difícil encontrar pneus de qualidade para aro 26 e isso tende a piorar ainda mais. A tendência, eu diria, é de consolidação do aro 29 como universal e, portanto, não faz sentido algum alguém adquirir uma bike nova aro 26. No entanto, existe excelentes bicicletas aros 26, com componentes de primeira qualidade, sendo vendidas por uma fração do preço, quando comparadas com bikes aro 29. Ou seja, é possível conseguir uma pechinca e comprar uma excelente bike aro 26 por um terço do valor da mesma bike se for aro 29. Na aventura, numa expedição, o tamanho da roda não vai fazer grande diferença no desempenho. Na hora de trocar o pneu, os raios ou o aro, a diferença pode se fazer notar com mais força. 

Dica 4: Nada de suspensão! Bikes rígidas, com garfos rígidos, garantem menos chances de falhas mecânicas. Eu uso um garfo de carbono, que é mais resistente que alumínio e muito mais leve. Garfos de alumínio são muito pouco flexíveis, resultando em menos conforto ao ciclista. Garfos de cromo são mais flexíveis e às vezes mais econômicos também, formando uma excelente opção econômica ao carbono. Dou preferência a garfos rígidos que tenham a furação para suportes de canela, onde consigo fixar, se necessário, bolsas ou garrafas em expedições mais longas. O garfo deve ser compatível com o quadro e com as rodas! Preste atenção nisso. 

Dica 5: Pneus mais largos oferecem mais conforto, mais aderência e mais segurança ao ciclista, substituindo suspensões. Pneus sem câmara, com líquido selante, evitam furos e podem ser usados com menos pressão, acrescentando ainda mais conforto e aderência. Ou seja, se a proposta for o minimalismo, a redução de peso e a diminuição de possibilidades de panes, a dica é: nada de suspensão! Quem pilota uma mountain bike sem suspensão alguma adquire mais técnica do que alguém que pilote, desde sempre, uma bike com suspensão na frente e atrás, as bikes full-suspension. O inverso também vale: quem está acostumado com bikes full-suspension terá maior dificuldade técnica em pilotar uma bike seca, sem suspensão alguma. 

Dica 6: Freios mecânicos a disco são fáceis de dar manutenção. Qualquer um consegue trocar um cabo e as pastilhas em campo. Freios V-Brake, que atuam no aro da roda, são tecnologia obsoleta pois gastam os aros e perdem poder de frenagem quando a superfície da roda estiver molhada. Freios a disco hidráulicos são, inegavelmente, os mais tecnológicos e eficientes, mas exigem ferramentas apropriadas e fluído extra em caso de pane ou acidente. E acidentes acontecem! Às vezes no transporte, no avião ou ônibus, a caminho do início da expedição. Já vi cabos de freio hidráulico romper ou soltar em tombo bobo. Então, se a proposta do bikepacking for expedicionário e exploratório, algo épico, manter o sistema confiável, simples e de manutenção viável em campo, os freios a disco mecânicos são a melhor alternativa. Bons freios mecânicos são mais leves do que freios hidráulicos de baixa qualidade. Essa foi minha escolha pra cruzar, sozinho e autossuficiente, toda a Mongólia em 2019. Já no projeto de pedalar toda a extensão do Equador, do Peru e da Bolívia em 2022, escolhi freios a disco hidráulicos porque as descidas serão extremamente longas e íngremes, exigindo maior poder de frenagem. Existe ainda a opção de freios de pinça hidráulica num sistema de acionamento via cabo, que teoricamente seriam perfeitos para expedições. Ainda não testei isso para opinar. Assim, diferentes expedições podem pedir diferentes sistemas de freio. 

Dica 7: Discos de freio de mesmo tamanho na frente e atrás, com fixação por parafusos e não por sistemas de rosca central, simplificam o conjunto. Se um disco quebrar é possível trocar havendo a peça sobressalente. Basta levar um disco reserva para expedições muito longas e a garantia é total. Já tive problemas com o sistema de fixação central (center lock) quando pedalava nas Highlands da Escócia e não encontrei um bike shop que tivesse a ferramenta apropriada. Já ouvi histórias de cicloviajantes que quebraram o disco de freio em acidentes, ou no transporte da bike em avião, e tiveram imensa dificuldade para resolver a questão. Eu descobri essa solução tecnológica a partir da necessidade e fiquei bem satisfeito com ela. Minha bike de expedição têm essa configuração hoje: os dois discos do mesmo tamanho, o diâmetro maior, geralmente usado na roda de trás.

Dica 8: Em expedições multiesporte, quando pedalamos mas também fazemos trekking, montanhismo ou outros esportes de aventura, usar pedais plataforma, em vez de pedais de clipe, evita a necessidade de calçados extras. Botas de trekking, por exemplo, tendem a ser volumosas e às vezes pesadas, difíceis de transportar numa bike com configuração de bikepacking. Em expedições só de bike, no entanto, prefiro usar pedais de clipe, que aumentam muito o desempenho do pedal. Outra situação em que prefiro pedais plataforma é em terreno barreado, em expedições onde sei que vou empurrar muito a bike e atolar na lama. Pedais de encaixe e taquinhos, fixos nas solas das sapatilhas, juntam muito barro e exigem limpeza constante, no meio da pedalada. Minha opção de sapatilhas de expedição são botinhas de trekking com taquinhos, comuns na Europa e nos EUA como calçados de inverno. Essas botinhas, que são sapatilhas, oferecem proteção, conforto, isolamento térmico no frio e possibilitam empurrar a bike por quilômetros todos os dias sem desconforto ou risco de escorregões.

Dica 9: Faça um bike fit. O investimento pode parecer alto, mas fica mais barato do que tratar lesões depois, ou sentir desconforto em expedições. A bicicleta deve ser uma extensão natural do corpo do ciclista, deixá-lo confortável e seguro. Expedições ou viagens simples de bikepacking, independente e autossuficiente, são exigentes pelo peso extra do equipamento na bike, isso propicia e pode acelerar lesões. O bike fit evita isso.

Dica 10: Bagageiros podem ser práticos, facilitam muito prender e soltar a bagagem, mas eles têm peso, volume e custo. Optar por bolsas sem estrutura rígida, específicas para bikepacking, mantém o peso do equipamento no mínimo. Bolsas impermeáveis são mais recomendáveis do que bolsas não impermeáveis por razões óbvias. Eu não recomendo alforjes em expedições por terreno técnico, por trilhas rudes e áreas de bosque denso com muitos ziguezagues entre árvores. O peso lateral dos alforjes desequilibra a bike e o ciclista, oferece volume lateral que pode se chocar com obstáculos, além de oferecer maior resistência ao vento. Mas o pior de tudo, na minha opinião, é o volume exagerado que os alforjes proporcional, resultando em maior carga, com itens desnecessários, redundantes ou até obsoletos. As bolsas específicas de bikepacking exigem maior discernimento do aventureiro. O espaço exíguo demanda mais consciência na escolha do equipamento, que será mais leve, mais compacto e, principalmente, em menor quantidade. 

Dica 11: Bolsas de bikepacking devem ser estáveis. Bolsas que balançam demais tiram o equilíbrio da bike e do ciclista, além de poderem danificar a bagagem. Se a bolsa balançar muito, não presta! Essa regra, bastante óbvia, só será entendida por quem pedalar por terreno mais técnico e em maior velocidade. Aliás, a combinação de excesso de bagagem, bolsas volumosas e pesadas, bagageiros e o descaso de levar equipamento demais, típicos dos alforjes, resultam diretamente na baixa velocidade e baixo rendimento dos cicloturistas convencionais. Tudo bem se o terreno for asfaltado, plano e a quilometragem do roteiro for baixa. Mas quando o projeto de viagem ou expedição exige mais do aventureiro, as bolsas de bikepacking se mostram imbatíveis. Muita gente me pergunta ainda sobre bike-trailers, já que usei um no projeto da TRANSPATAGÔNIA. Hoje não tenho mais bike-traileres, vendi todos os três que tinha! Não consigo imaginar uma situação em que precise de algo tão grande, tão pesado, tão volumoso e com tamanha capacidade de carga. Bolsas de selim, em especial, têm sua fixação dificultada se o material de construção da bolsa for muito flexível, como por exemplo a cordura. Não recomendo bolsas de selim e de guidão feitas de cordura.

Dica 12: Uma relação (conjunto de marchas) boa pra treino e competição não é necessariamente boa pra bikepacking. Com a bike pesada de equipamento, é melhor ter marchas mais leves, que facilitem a vida do ciclista. Se possível, opte por uma relação mais versátil em viagens por terrenos mais acidentados, por relevos mais exigentes. Na Mongólia, por exemplo, onde sabia que pedalaria por estepes a maior parte do tempo, usei uma relação mais pesada. No projeto de pedalar os Andes, cruzar o Equador, o Peru e a Bolívia, vou trocar por uma relação bem mais aliviada, com marchas leves que permitam que eu escale as montanhas do caminho. Diferentes roteiros exigem diferentes configurações.

Dica 13: As partes do ciclista que tocam a bicicleta: bunda, pés e mãos, merecem atenção especial. São nessas áreas que o tempo em cima da bicicleta e as durezas do terreno vão cobrar seu preço. Em outras palavras, dor na bunda, dor nos pés e dores nas mãos são os primeiros sintomas dos limites físicos que poderão impor fracasso ao projeto. Um selim confortável e eficiente, que não seja mole ou duro demais, é a base do conforto na bike. Manoplas ergonômicas, junto com luvas confortáveis, resultam em mãos protegidas. A combinação do calçado ideal com pedais eficientes também são determinantes no bikepacking. Esses itens: selim, bermuda de ciclismo, guidão, manoplas, luvas, calçados e pedais, não são apenas importantes, são essenciais. É preciso muito tempo de uso para encontrarmos os modelos ideais. É impensável testar esses itens numa expedição longa e exigente, sem nunca tê-los usado antes em treinos e viagens mais curtas. Dedique tempo à escolha desses itens.

Dica 14: Quanto menos sacos, bolsinhas, invólucros, caixinhas e afins incluirmos no kit completo do equipamento, menor e mais leve ficará o kit. Ao longo dos nos fui substituindo sacos estanques, bolsa de higiene pessoal, caixinhas de transporte de itens pequenos, tudo por sacos plásticos estilo zip-lock. Devo ter tirado perto de um quilo de peso nessa economia, além da economia de volume. O importante é que tudo esteja devidamente protegido e organizado, dentro do planejamento determinado. Teste viver sem esses acessórios, que apesar de bonitos e teoricamente práticos, podem, na verdade, ser redundantes e ineficazes.

Dica 15: Hoje em dia é muito difícil viver sem eletrônicos. O telefone celular, por exemplo, pode acumular os papéis de biblioteca, máquina fotográfica, filmadora, GPS, mapoteca e diário de viagem, além, é claro, de telefone mesmo. Impossível viajar sem uma lanterna de cabeça. Às vezes é preciso ter um sistema de iluminação para a bicicleta. Minhas preocupações com os eletro-eletrônicos, além de eficiência, peso e volume, somam também compatibilidade. Tento manter meus eletro-eletrônicos todos dependentes do mesmo tamanho e tipo de pilhas recarregáveis. Numa emergência, tiro as pilhas do GPS e instalo na lanterna de cabeça, ou vice-versa. Aparelhos com bateria interna, como os celulares, são os menos confiáveis. Não existe porta USB em árvores ou pedras no caminho. Powerbanks são mais pesados com pilhas. Cada um deve buscar a sua configuração própria de eletro-eletrônicos em suas viagens ou expedições, mas é preciso manter o senso crítico e avaliar com cuidado se os aparelhos realmente são essenciais e se acrescentarão à experiência do bikepacking. Eu, por exemplo, não ouço música ou leio livros em expedições porque não quer me distrair, quero manter-me atento ao lugar que estou explorando. Uso aparelho de GPS à prova d’água e de quedas, alimentado por pilhas e não por bateria interna, sem tela touch-screen. Uso também máquina fotográfica e filmadora profissional. Assim, o celular pra mim é para uso como telefone, para pesquisas na internet quando necessário e manutenção das minhas redes sociais, mais nada. Meu celular fica desligado o tempo todo quando fora de uso.

Dica 16: Minimalismo é a palavra mágica no bikepacking. Quanto mais economia em peso e volume houver, maior será a eficiência da bike, mais longe, mais rápido e com menos esforço o viajante conseguirá ir. A ideia central do bikepacking é autonomia, autossuficiência e independência, coisas que são facilitadas por uma postura minimalista. 

 

2 respostas para “DICAS PARA BIKEPACKING”

  1. Jonas de Paula e Silva disse:

    Boa tarde, Guilherme.
    Parabéns pelo artigo bastante esclarecedor. Bastante nuances técnicas, que ajudam muito na hora de fazer planos e escolhas. Eu uso a bike no dia-a-dia, meu mundo outdoor está nas montanhas, cânions e cavernas, e agora estou considerando seriamente trocar minha aro 26 por uma 29 e configurá-la para bikepacking. Tendo acompanhado seus projetos anteriores, principalmente Mongólia, fico agradecido pela contribuição técnica que vc dá no Kalapalo.com.
    Ah, para terminar, que bom que já tem uma nova jornada projetada, sucesso!!!

  2. PAULO RICAEDO EUZÉBIO MOTA disse:

    Muito interessante. Com três itens, não concordo:
    1. Freios a disco mecânicos são melhores? Não concordo. freios hidráulicos de boa qualidade (SLX, XT, XTR, etc) são invioláveis e indestrutíveis. Minha Scott tem 9 anos de cicloturismo, incluindo Carretera Austral e ainda não troquei sequer, o líquido de freio.
    2. Alforjes (bike panniers) são desajeitados? Sim e não. Eles podem ser úteis, se forem pequenos. Existem mini bike panniers que são bem melhores que estes bagageiros de selim e não interferem em nada, mesmo em trilhas apertadas. A Deuter, MSX e Ortlieb tem este item.
    3. Melhor bike é MTB? Acho que não. MTB pura não sai do lugar. O pedal não rende e gravel tem lá suas limitações de relação e geometria. O melhor são híbridas. Leves, tubos mais finos, pneus médios, rápidas no asfalto e suportam uma terrinha com brita.
    No mais, entendo que as considerações são muito pertinentes.
    Fique claro, que são observações e preferências pessoais. Grande abraço.

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