JE SUIS KARL (Eu sou Karl, em tradução livre) é um filme alemão, dirigido por Christian Schwochow e lançado em 2021, disponível na plataforma Netflix. Antifascista, a obra tem enredo envolvente e esmiúça a mente doentia, ardilosa e inescrupulosa da extrema direita em sua infindável luta pelo poder. O longa-metragem poderia ter sido filmada aqui mesmo no Brasil, no ano de 2018.
Um grupo de jovens europeus, todos brancos, todos de classe média, todos vivendo a confortável vida da elite econômica mundial, poliglotas, talentosos, bonitos, esbeltos e narcisistas, decidem através da política resolver os problemas da Europa segundo sua míope visão de mundo.
O problema é sempre o outro.
Indiferentes aos séculos de expansionismo, colonialismo, exploração, escravidão e sufocante pressão econômica exercida no resto do mundo, os filhos e filhas da Europa se veem agora preocupados com as ondas imigratórias que ameaçam seus privilégios. Disfarçado como centro de estudo, numa autointitulada “universidade”, um encontro internacional de estudantes em Praga marca a apresentação da entidade aos espectadores. Na reunião não se vê pretos, asiáticos, gordos, eficientes físicos ou velhos. A raça pura europeia presente é o próprio idílio nazista, algo que faria Hitler e Goebbles rirem de satisfação.
O sedutor protagonista não é quem aparenta ser à traumatizada sobrevivente de um atentado terrorista em Berlim. Nós, espectadores, no entanto, sabemos quem de fato ele é. A rede de intrigas internacional se espalha como um câncer pela Europa, exibindo suas metástases em diversos cantos do velho continente. Mas o bom enredo não se mostra unilateral, simplista ou reducionista. É possível entender os diversos dilemas dos personagens não contaminados pela visão excludente do fascismo.
O discurso de engajamento da extrema direita é raso, mas isso não é defeito da trama, é apenas a característica corriqueira do próprio discurso. Patriotismo, lealdade, valores culturais, religião, prerrogativas históricas e genética superior são defendidas de formas mais ou menos sutis. Nada consegue disfarçar a verdade: a luta ensandecida para manter os privilégios da elite.
Farinha pouca, meu pirão primeiro.
O filme poderia ter sido produzido no Brasil de 2018, como já escrevi antes. Em vez de atentado fake a bala, bastaria trocar por um atentado a faca. A lenga-lenga de que todo político é corrupto, que direitos sociais são ataques comunistas, que a tristeza e a esperança devem ser substituídas pelo ódio e que o problema é sempre o outro, lembra nossas últimas campanhas eleitorais. A democracia representativa, quando não centrada nas mãos do antigo poder, é um demônio a ser exorcizado.
No final, tanto do filme quanto de qualquer investida fascista, tudo não passa de uma desenfreada tentativa de acúmulo total de poder. Se para chegar ao topo for preciso devastar a terra, que assim seja.
Mais um bom filme progressista alemão, na linha de A ONDA e E AMANHÃ O MUNDO TODO.
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