Aconteceu sem querer.
Depois de ter escrito, editado e produzido dezesseis livros contendo trilhas mapeadas pra aventura, mais dois manuais com técnicas e equipamento, migrei pra literatura. Isso aconteceu em 2012. Os livros com relatos de viagens em contato estreito com a natureza atraíram outro tipo de público. Gente que pedia autógrafo e dedicatória. Como tenho por motto de vida “sempre tentar ser criativo”, eu não queria simplesmente assinar meu nome ou fazer uma rubrica, eu queria deixar uma mensagem pessoal e complementar em cada livro. Fácil de forem dois ou três livros, impossível se forem dúzias num único evento. Foi quando criei frases específicas para dedicatórias em cada livro…
Para o TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS escrevo a dedicatória: “Toda aventura tem seus pumas, que nos atraem e nos assustam. Aqui estão alguns dos meus!”
Gosto muito dessa dedicatória. Esse meu primeiro livro de literatura foi um divisor de águas na minha vida como autor. A expedição que ele narra foi também um marco importante pra mim. Eu nunca havia passado seis meses em expedição, pedalando, navegando e acampando selvagem. O impacto foi tamanho que não consegui mais seguir vivendo na cidade grande. Saí de São Paulo com minha companheira, Adriana Braga, nosso cachorro, e fomos viver no campo, nas montanhas. Os pumas do livro são reais e figurativos, representam medos, inseguranças, desejos reprimidos e a vontade inquietante de tomar as rédeas da própria vida.
Para HIGHLANDS: POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS escrevo uma dedicatória-padrão que explica o que foi escrever esse livro, viver a aventura que ele narra, passar pelo difícil momento de minha vida que coincidiu com cruzar a Escócia sozinho e a pé: “A grande aventura é explorar o desconhecido dentro de nós mesmos.”
Pura verdade. Cheguei a pensar em não escrever esse livro. Cheguei a pensar em apagar o texto e não olhar mais para a história. Na capa — lindamente desenhada por Renata Martino, artista brasileira que vive em Genebra, na Suíça, que desenhou até agora todas as capas dos meus livros de literatura de aventura —, minha sombra se projeta extensa pela trilha. Esse texto foi muito mais um mergulho em mim mesmo do que um mergulho na viagem. Terminei de escrever incerto se deveria publicar. Era como andar pelado pelas ruas.
Para TRANSMONGÓLIA: GENGIS KHAN NA GARRAFA DE VODCA escrevo como dedicatória “Às vezes é preciso ir longe pra chegar perto de quem somos”.
Essa é talvez minha dedicatória favorita. Não por ser mais verdadeira, já que todas têm esse compromisso estrutural com a sinceridade mais profunda, mas por ser, aos meus olhos, a mais poética. A Mongólia, que cruzei sozinho de bicicleta e depois conto tudo na obra, fica bem longe do Brasil. Quase não dá pra ir mais longe no planeta que isso. Paradoxalmente, foi a viagem que eu mais curti, mais me diverti, fiquei mais à vontade comigo mesmo.
Obviamente, eu gostaria de escrever uma dedicatória individual pra cada leitor com uma mensagem tocante e verdadeira. Impossível. Nem todo dia eu acordo inspirado e nem todo leitor oferece dados pra construção dessa mensagem. Paciência. A dedicatória-padrão cumpre bem seu papel, oferece um resumo de como vejo o livro, um extrato das minhas emoções com a obra finalizada.
Já teve gente que mandou fazer camisetas com essas frases, de tanto que gostou. Um tipo de elogio que nunca pensei que fosse presenciar. Sem querer, criei uma segunda assinatura para o meu trabalho.
Deixe um comentário