Eu estava em Quito, no Equador, no começo de uma longa travessia solo de bicicleta pelos Andes, até Cusco, no Peru, quando recebi um vídeo curto sobre o “Bem Viver”. Nunca tinha ouvido falar desse conceito, embora o nome soasse obviamente agradável.
Um equatoriano, que mais tarde descobri haver sido Ministro de Energia e Minas do Equador, no primeiro mandato do presidente Raphael Correa, discursava para um público brasileiro sobre os desafios de um novo ciclo da esquerda na política sul-americana. O Brasil estava prestes a reeleger Lula presidente, quebrando quatro anos de discórdia, destruição, difamação e desamparo do desastroso governo Bolsonaro. Foi quando descobri Alberto Acosta, autor de EL BUEN VIVIR (SUMAK KAWSAY): UNA OPORTUNIDAD PARA IMAGINAR OTROS MUNDOS. Imediatamente decidi ler a obra.
O BEM VIVER: UMA OPORTUNIDADE PARA IMAGINAR OUTROS MUNDOS, de Alberto Acosta, tradução publicada em 2016 pela Editora Elefante, traz uma série de discussões interessantes e originais, pelo menos pra mim. O texto me fez lembrar de quando o pré-sal foi descoberto, a imensa reserva petrolífera brasileira que colocou o Brasil na mira do capital internacional e resultou no golpe contra a presidente Dilma Rousseff e a prisão do então ex-presidente Lula. O Brasil comemorava e eu lamentava. Por que explorar mais petróleo? Por que seguir nesse caminho assassino e suicida de queimar sempre mais combustível fóssil, se sabemos que essa é a causa do aquecimento global? Por que seguir destruindo a natureza como se fôssemos extraterrestres? Quando vamos virar essa página e finalmente amadurecer?
Alberto Acosta apresenta na obra o conceito de Sumak Kawsay das tradições andinas e amazônicas, traduzido em espanhol como Buen Vivir e em português como Bem Viver. Trata-se, simplesmente, de organizar a vida em harmonia com a natureza, com os demais seres vivos, com os demais seres humanos, em comunidade. Um paradigma que sobreviveu a mais de 500 anos de invasão, ocupação e colonização das Américas pelo bárbaros europeus.
Nossa civilização se organizou em torno de visões distorcidas da realidade. Acreditamos no crescimento constante, infinito, de nossas economias apesar de sabermos que a natureza, o planeta, tem recursos finitos. Criamos um modelo econômico de acúmulo de riqueza que faz com que a imensa maioria dos seres humanos viva na pobreza ou na miséria, independentemente do quanto multiplicarmos a riqueza disponível no mundo. Fantasiamos uma justificativa para o sucesso material de alguns e o fracasso de muitos baseada em cor de pele, na teoria absurda de raças humanas, mesmo depois da genética comprovar que todos os seres vivos, humanos e não-humanos, dividem um mesmo código genético base. Transformamos a natureza em “recursos naturais”, em “valor ambiental”, em “riqueza”, emprestando valor monetário de acordo com leis abstratas de oferta e procura, como se tudo no mundo pudesse receber uma etiqueta de preço. Secar um rio para dele extrair ouro não transfere para o metal o custo de recuperar esse mesmo rio. Poluir os oceanos para extrair petróleo não inclui no preço do óleo o custo de limpeza dos mares.
As melhores universidades, os maiores cientistas, pregam que a ciência e a tecnologia resolverão todos os problemas mais tarde, enquanto novas descobertas, como a energia atômica, acabam sendo usadas para fins bélicos, para a destruição e a extinção, não para solucionar problema algum. Remédios que prometem curas milagrosas são caros demais para praticamente todos os seres humanos doentes. Chegamos ao espaço, pisamos na lua, mas deixamos tantos resíduos, tantos destroços no caminho que hoje é preciso calcular complicados caminhos que evitem colisão com nosso lixo na órbita da Terra. Desenvolvemos eficientes vacinas para depois contestá-las, apenas pra provar que nossos argumentos são mais fortes que a ciência.
A solução, aparentemente óbvia, é trocar de bússola. Deixar de acreditar que devemos fazer nossas economias crescer infinitamente. Abandonar a rota do desenvolvimento unilateral e obtuso, que é sinônimo de destruição ambiental. Humanizar a economia, incluir o bem-estar de todos na conta dos mercados. Reaproximar a civilização da natureza, desurbanizar nossas cidades. Abrir mão de privilégios e reduzir drasticamente o nível de consumo nos países ricos. Enfim, olhar o exemplo dos povos indígenas americanos, africanos, asiáticos, onde o desenvolvimento não conseguiu ainda extinguir as diferentes formas de organização social.
Confesso que o livro me deixou deprimido. O texto colocou em palavras minhas percepções intuitivas de que estamos em rota de colisão e pisando fundo no acelerador. Não vejo luz no fim do túnel. Não vejo sequer o fim do túnel. Mais e mais, ouço discursos pregando a desigualdade social como motor da economia, a competição como incentivo, o individualismo como regra de convívio. Exatamente o oposto da solução lógica: solidariedade, coletividade, cooperativismo, irmandade, gratidão pelo que se tem e não cobiça sem limites por tudo o que não se tem.
Fui testemunha do Sumak Kawsay em ação na travessia de bicicleta que fiz pelos Andes. Participei de uma reunião comunitária onde se discutia técnicas para melhorar a produção de leite e de queijo; vi um mutirão comunitário pra cavar valas de irrigação; fui convidado para uma festa em louvor à fecundidade da terra — Pacha Mama —, onde todos colaboraram com as comidas e as bebidas do banquete coletivo; testemunhei a troca de produtos sem a intromissão de dinheiro. Enfim, exemplos do Sumak Kawsay vivo e pulsante.
O BEM VIVER: UMA OPORTUNIDADE PARA IMAGINAR OUTROS MUNDOS é um livro seminal que me fará ler outros livros, pesquisar mais sobre o tema. A simplicidade dos preceitos do Sumak Kawsay, que basicamente prega a reconexão com a natureza, soam verdadeiros pra mim. Vejo a aventura como um caminho semelhante. No final, trata-se de colocar a economia a serviço da natureza e a política a serviço dos seres humanos.
Excelente análise. Como o tema é relevante para mim, pesquisarei sobre a obra e irei lê-la.
Por favor, permaneça fazendo essas resenhas tão detalhadas e bem escritas que tanto incentivam a leitura para o “buscadores” daquilo que é essencial.
Abraço.