
Aqui onde moro, nos altos da Serra da Mantiqueira, araucária é considerada “praga”. Embora seja o símbolo da região, essa árvore espetacular, de braços esguios com mãos volumosas erguidas no ar como se saudassem o sol, é tratada como “perigo”. Por estar em risco de extinção, a araucária é protegida e não pode ser derrubada. Onde tem araucária não pode ter pasto, lavoura ou condomínio.
— Arranca essa muda, não deixa ela crescer ou você perde a terra! — é um conselho comum por aqui.
A mesma lógica é aplicada às terras indígenas onde existe ouro. Que riqueza a araucária oferece? Que vantagem oferecem os indígenas? Terra “parada”, ouro “enterrado” e “mato” crescendo são sinônimos de desperdício, de atraso e até de burrice. A natureza “inútil” é uma afronta ao progresso. Rasgue estrada! Limpe o terreno! Plante! Crie! Procrie! Enriqueça!
Eu não conheço pessoalmente ninguém que tenha lucrado com o ouro extraído das Terras Yanomami. Você conhece? Não conheço nem indiretamente. Só sei que, apenas em 2021, foram extraídos cerca de 50 toneladas de ouro ilegal da região, o que equivale a mais de 16 bilhões de reais. É muito zero antes da vírgula. Também não conheço pessoalmente ninguém que lucra com corte de madeira ilegal na Amazônia. Essa é outra cifra com muitos zeros.
Os garimpeiros que despejam toneladas de mercúrio nos rios, que abrem pistas de pouso clandestinas nas matas, que instalam antenas de conexão de internet via satélite no meio do mato, que estupram e prostituem meninas indígenas, que andam armados para impor sua vontade — esses ficam com uma parcela ínfima, quase irrelevante das quantias vultosas levantadas. O mesmo acontece com os madeireiros que derrubam árvores. Esses não são vítimas, obviamente. Seria injusto comparar garimpeiros e madeireiros ilegais aos indígenas, que perdem tudo com sua invasão, inclusive as próprias vidas. Garimpeiros e madeireiros são peões manipulados num tabuleiro por mãos distantes. São, na imensa maioria, trabalhadores pobres e ignorantes úteis.
Certa vez, viajei de carona em caminhões de São Paulo até Belém do Pará. Ida e volta. Vi beleza no caminho, mas vi muita pobreza também. Falta de água, de saneamento básico, de infraestrutura, de escola, de hospital, de policiamento, de justiça. Todo esse dinheiro, extraído ilegalmente das terras brasileiras, em particular na Região Norte, faria uma baita diferença para população local. Disso tenho certeza.
Nunca estive numa aldeia indígena, mas já li diversos livros dos irmão Villa-Bôas, por exemplo, já assisti documentários em várias línguas. Sempre me interessei pelo assunto. As imagens que tenho na memória são de curumins nadando pelados em rios, mães preparando beiju sentadas no chão de terra, homens atléticos voltando da mata com carne de macaco ou peixes. Imagens que se repetem há muitos milênios e que acontecem enquanto você lê esse texto. Mas tem gente querendo que você duvide que essa realidade existe. Querendo que você acredite que indígena é miserável e que não quer ser mais indígena. Por que isso?
— Você já viu uma aldeia indígena? Não? Então como você sabe que os indígenas vivem bem? Como sabe que não passam fome? Que não se matam uns aos outros? Que não comem uns aos outros? Que não querem ser iguais a nós, brancos?
Se respondo que li livros, assisti filmes, conheci pessoas que estiveram em tribos indígenas e trabalharam lá por anos, que inclusive conheci indígenas na cidade grande, a argumentação contrária vai apontar para o descrédito. Só é válido o que é testemunhado na primeira pessoa. Você sabe, consegue provar, que a Terra é plana? Que vacina não causa autismo? A negação, o princípio do negacionismo, é o argumento final de quem não tem argumento. Livros mentem! A ciência engana! A mídia é tendenciosa! Jornalistas são vendidos!
O que está por trás disso tudo, desse discurso repetido sem pensar, é a filosofia da exploração como a maior expressão humana. A única expressão humana possível. A exploração desenfreada da terra, a exploração descontrolada dos trabalhadores, a exploração das mulheres, a exploração de quem não pode explorar como parte da própria humanidade. Ou somos predadores ou seremos presas — dizem as bestas. É a lei da selva. A mesma selva cujas leis os negacionistas tentam desmerecer e desqualificar. A lei da selva que eles pensam não ter leis.
Quanto vale o amor de uma mãe? Qual a vantagem da solidariedade? Quanto custa fazer uma criança feliz? E a água limpa, o ar puro, o cheiro de chuva, as ondas do mar? Qual o preço exato disso tudo? Os muito ricos preservam lugares e experiências em propriedades privadas a perder de vista. Quem não tem esse capital terá que se contentar com os espaços públicos. Mas o que é público hoje em dia? O que realmente é de uso comum e coletivo? Quem não tem dinheiro pra adquirir e cercar um pedaço de terra, de qualquer tamanho, deveria pensar mil vezes antes de criticar a criação de um parque nacional, de uma área de preservação ou a demarcação de terras indígenas. Esses espaços, em última instância, são comuns e serão a única terra que muitos terão na vida, mesmo que momentaneamente. A única herança que deixarão a seus filhos e netos.
Por mais que tentem negar e confundir, sei que curumins nadam em rios cristalinos várias vezes ao dia simplesmente porque eles podem e porque é isso bom. Sei que mães indígenas, assim como mães camponesas, preparam alimentos na chama de um fogo artesanal, seja uma fogueira ou um fogão a lenha. Aqui onde moro isso ainda é comum. Sei que caçadores e pescadores indígenas, assim como pequenos agricultores, voltam para casa com o alimento que conseguiram ou produziram. Chegam em casa com a sensação de obrigação cumprida e são recebidos como os heróis cotidianos que efetivamente são. Isso eu sei.
Por trás da ideia de “natureza inútil” tem alguém muito poderoso que possui — em algum lugar preservado longe dos conflitos da mineração, longe dos paradoxos do agronegócio e dos atritos da especulação imobiliária — seu canto de terra tratado como um paraíso. Eles não são bobos. A “natureza útil” preserva a ideia principal de “natureza privada” para fins exclusivos dos poderosos. Por trás da ideia de “natureza inútil” há uma multidão de zumbis, gente que apenas sobrevive, recebe e cumpre ordens, executa missões torpes e acreditam o que são livres. São esses que repetem que “araucárias são pragas” e que “indígenas têm terra demais” e que “indígenas não querem mais ser indígenas”, entre outras bobagens. Repetem como caixas de eco, vazias por dentro.
Não precisa ser gênio para saber que os indígenas de hoje têm acesso à informação e sabem que seu futuro, distante de suas terras, está selado como favelado e indigente na periferia de alguma grande centro urbano.
Sem essa multidão sem vida e sem alma que nega a realidade apenas porque ela não está diante dos olhos — gente que nunca tomou banho pelado em rio, que nunca subiu em árvore para comer fruta, que nunca correu de marimbondo, que nunca acampou debaixo de um céu de estrelas —, não haveria o assédio insano aos recursos naturais que temos hoje em dia. Não haveria a ânsia de destroçar o que está em paz. Não haveria a Transamazônica, Belo Monte ou o pré-sal. Não haveria a discussão estúpida e espúria sobre mineração em terra indígena. Se indígenas passam a vida tomando banho de rio, dançando e cantando, pescando e caçando com arco e flecha, fazendo amor em redes e criando os filhos pelados e soltos na mata, sorte deles!
Quem dera todos nós pudéssemos fazer o mesmo!
Lindo texto. Me chamou a atenção quando o texto se inicia com a fala sobre a Araucária. É a segunda árvore mais linda que conheço. Para mim só perde para o Baobá. A reflexão é linda também. Vivemos um mundo de inversão de valores. Espero mostrar para minhas filhas o real valor da vida, as pessoas, os sorrisos e risos longos e abertos, plantar algo para comer, estar em conexão e respeito com a natureza e sim… tomar banho pelado em rios… Se der.