
O QUE REALMENTE IMPORTA
fotos e texto de Guilherme Cavallari
Numa ruela do tradicional bairro Shichahai, em Beijing, existe um clube de tênis de mesa. Pingue-pongue para os íntimos. No subsolo, diversas mesas dispostas lado a lado recebem os entusiasmados jogadores — quase todos em idade de aposentadoria, miúdos, magros, ainda ágeis e bem dispostos depois de uma vida de trabalho. Bicicletas estacionadas na calçada, em frente ao prédio, atestavam que sobrava ainda energia pra pedalar de volta pra casa depois do esporte.
Descobri que era um clube de tênis de mesa porque ouvi o barulho das bolinhas sendo batidas pelas raquetes e batendo nas mesas. O som frenético de uma alegria contagiante. Entrei pra averiguar. Como turista ocidental na China pela primeira vez, toda porta aberta parecia um convite, talvez um portal para outro mundo. Ninguém barrou minha entrada.
Por uma fração de segundo, o salão parou com a minha chegada. Todas as mesas estavam ocupadas. Cabeças de cabelos brancos se viraram pra admirar o estrangeiro, alto demais, truculento demais, narigudo demais pra ser qualquer outra coisa além de um turista — ou um demônio, como os estrangeiros eram chamados, séculos atrás, ao longo da Rota da Seda. Os sorrisos dos mesatenistas descartaram a possibilidade de invasão demoníaca.
Parei pra acompanhar uma partida e o jogador mais próximo de mim depositou a raquete na mesa e indicou que eu deveria jogar em seu lugar. Por educação, recusei. Falei uma das únicas palavras que havia aprendido em mandarim: “Xié xie” — pronunciado como shiê-shiê, com ênfase no primeiro ê — que significa “obrigado.” Sem acordo. O gentil ancião insistiu que eu ocupasse seu posto e várias vozes no salão reforçaram o convite, quase uma intimação.
Timidamente, peguei a raquete e esperei o saque, que veio lento, sem efeito, um pouco alto e no meio da mesa. Saque de cortesia pra não intimidar o visitante. Respondi com a melhor cortada que décadas de desuso permitiram. Deu certo. A bolinha curva no canto pegou meu adversário desprevenido, que não conseguiu rebater. Comentários espirituosos de todos os cantos nem precisavam de tradução, zombavam do chinês de movimentos elétricos do lado oposto da mesa. O saque seguinte veio cheio de veneno.
Descobri que chineses são competitivos. Respeitosos, mas competitivos.
Minha lista de desculpas esfarrapadas é longa. Eu usava um par de sandálias Crocs, instáveis nos pés, que às vezes prendiam no piso a ponto de eu quase cair. Décadas de dedicação ao ciclismo, ao mountain bike em particular, não ajudavam no bom desempenho no pingue-pongue; a calça jeans também era mais justa do que o esporte exigia; a camisa social xadrez de mangas curtas também não ajudava. No final, sou obrigado a concordar com todos os companheiros mesatenistas que conheci no clube em Beijing: sou ruim demais! E nem precisava ser fluente em mandarim pra entender isso.
Essa experiência tinha tudo pra parecer casual e desimportante, não fosse minha quase patológica mania de processar, catalogar e tentar explicar tudo o que observo. Diferente do Brasil, da Europa e dos Estados Unidos — lugares onde vivi e trabalhei —, aquele grupo de idosos era peculiar. As roupas simples não apontavam qualquer tipo de ostentação, comum em países ricos e pobres. Era como se classe social fosse algo irrelevante. Raquetes, bolinhas, redes, mesas e o próprio salão, no entanto, apontavam pra boa qualidade em todos os detalhes. Equação difícil de harmonizar. A faixa etária dos jogadores era indiscutivelmente alta. Eu, aos 57 anos de idade, poderia ser considerado “jovem” ali. A maioria parecia ter idade suficiente pra ser meus pais. Magreza, agilidade, vitalidade e bom humor eram bem acima da média que eu conhecia.
No mesmo bairro, depois de caminhar por labirintos de ruelas tortuosas, precisei ir ao banheiro. Pensei em procurar um comércio, um bar ou restaurante, mas as vias tortuosas eram todas residenciais. Foi quando vi uma construção com a inconfundível arquitetura de banheiro público: entrada masculina e entrada feminina, ambas devidamente sinalizadas com ícones universais. Entrei.
Banheiro público é banheiro público em qualquer lugar do mundo. A expectativa é sempre de mau cheiro, moscas e urina no chão. O lugar não era exatamente cheiroso, mas era limpo além do normal. Não havia privadas ocidentais, dessas que usamos de assento. As latrinas eram buracos no chão enquadrados por peças de louça branca, com serrilhas antiderrapantes onde os pés devem ser encaixados. O mesmo tipo de banheiro que vi quando vivi no Oriente Médio. Fazer as necessidades de cócoras é inegavelmente mais saudável, embora bem mais exigente para as articulações. A vida toda fazendo esse tipo de agachamento deve resultar em velhinhos e velhinhas bons no tênis de mesa, calculei.
No decorrer da caminhada, percebi que havia uma quantidade fora do comum de banheiros públicos nas ruas. Era quase um a cada quarteirão. Imaginei que a administração pública da cidade houvesse superestimado a necessidade mictória dos turistas, em especial durante a Olimpíada de 2008 — quando Beijing sofreu uma grande remodelação. Talvez os chineses imaginassem que ocidentais tivessem todos algum problema crônico e generalizado de bexiga solta, pensei. Fiz questão de entrar em mais dois banheiros, embora não precisasse, só pra verificar as condições de higiene e as instalações. Aprovei ambos.
De volta à casa de família onde estava hospedado, cujos proprietários eram uma senhora chinesa fluente em inglês e um senhor septuagenário estadunidense, que não falava chinês, comentei sobre as descobertas do dia na cidade.
— Fiquei impressionado com a quantidade de banheiros públicos pra turistas.
— Esses banheiros não são para turistas — corrigiu o americano, bastante acima do peso e com enorme dificuldade de locomoção.
— Como assim?
— Vá de manhã cedo e você verá os moradores locais esvaziarem seus penicos nos banheiros. Esses toaletes são de uso comunitário! A maioria das casas por aqui não tem banheiro próprio!
A explicação foi dada num tom sarcástico de crítica, como se isso fosse um absurdo, especialmente por se tratar da capital nacional de um imenso e poderoso país. Pedi licença e fui para o quarto. Quando viajo, mantenho um diário com as impressões e conclusões da jornada. Eu tinha muito o que escrever. Muito o que processar, catalogar e tentar explicar.
Quando cheguei à parte dos banheiros públicos, larguei a caneta sobre o caderno, fechei os olhos e meditei sobre o assunto.
Eu conhecia o suficiente sobre a história da China, em especial a história recente, pra entender que minhas referências ocidentais e sul-americanas não serviam pra explicar muita coisa. Dimensões e proporções tornavam comparações quase impossíveis. Com 1,4 bilhões de habitantes e o país mais populoso no planeta na época, qualquer problema ganha caráter epidêmico com facilidade. Depois de mais de um século de exploração absoluta por potências ocidentais e orientais, a China conseguiu se libertar, em 1949, depois que as potências mundiais quase se destruíram mutuamente na Segunda Guerra Mundial. A independência isolou o país.
Lembrei das décadas em que a China passou sem ter sua soberania reconhecida pelas grandes potências, rancorosas pela perda dos lucros da exploração sem limites do território chinês. Lembrei também que a máquina chinesa de desenvolvimento e prosperidade só começou a funcionar, de verdade, a partir da década de 1980. Sou velho o suficiente pra recordar como testemunha essa virada. Foram necessárias, então, apenas quatro décadas até que a China anunciasse, em 2020, a erradicação da pobreza extrema. Marco reconhecido por todas as grandes potências mundiais, além de entidades internacionais de prestígio inquestionáveis. Feito que, acredito, merecia ser mais comemorado do que qualquer título de Copa do Mundo.
Na minha meditação, precisei recorrer à ajuda da internet pra conferir dados. Descobri que, segundo as estatísticas mundiais oficiais, inclusive aquelas fornecidas pelo Banco Mundial, cerca de 97% da população chinesa na década de 1970, estimada em 850 milhões, viviam abaixo da linha da pobreza. Praticamente o país todo. O equivalente, segundo as fontes digitais, à totalidade da atual população das três Américas, menos o México. Ou seja, imagine que todas as pessoas do Canadá ao Chile, pulando os mexicanos, passasse fome. Inclua a Cidade do México na cifra, pra conta ficar exata. Em apenas 40 anos, a China garantiu casa, renda mínima e comida diária pra toda essa população… É gente pra caramba!
Lembrei das favelas e periferias que eu havia visitado em meu próprio país e em países vizinhos, muitas com esgoto a céu aberto correndo nas ruas. Hoje, mais da metade dos lares brasileiros ainda não tem acesso a sistema de tratamento de esgoto. Construir banheiro, no Brasil e em quase todo o mundo, é responsabilidade do cidadão. O trabalhador, muitas vezes, tem que escolher entre comprar comida ou comprar privada. Imaginei o resultado que a solução chinesa dos banheiros comunitários não causaria nas favelas, nas periferias dos grandes centros urbanos ou dos pequenos municípios brasileiros e sul-americanos. Mais saúde, melhor qualidade de vida, maior longevidade, diminuição do óbito infantil, menor gasto com saúde pública, redução do impacto ambiental, mais dignidade. Um ganho imenso a partir de uma solução tão simples… Bem diferente da visão de horror do meu anfitrião norte-americano.
Pra construir um arranha-céu, é preciso começar pelo alicerce, pensei.
É claro que vi coisas que não gostei nessa visita a Beijing. Edifícios modernos de concreto e vidro, de arquitetura ocidental pasteurizada, desfiguravam o que eu imaginava que seria a China. Trânsito excessivo de veículos individuais e carros de luxo demonstravam que havia, sim, desperdício de recursos. A grande quantidade de câmeras de vigilância e a presença ostensiva de policiais, todos desarmados e bem educados, nos locais de maior concentração humana apontavam para uma preocupação talvez excessiva com segurança. A poluição atmosférica era alta. Mas não vi o famoso “mal maior”…
Fazia frio quando eu estava em Beijing, por isso não vi os famosos “Beijing Bikini” — homens que, no verão infernal da capital, levantam a parte de baixo das camisas e cospem desbragadamente no chão. Alguns até tiram a camisa toda. Chamados de “bárbaros” pelos chineses mais refinados, eles foram alvos de campanhas e até de multas, ganhando notoriedade internacional. Mas, convenhamos, se esse é o maior exemplo de falta de civilidade numa metrópole de mais de 21 milhões de habitantes, a China tem mesmo muito do que se orgulhar.
Voltei pra casa com as imagens do clube de tênis de mesa e dos banheiros públicos em destaque na memória. Isso e os idosos praticando tai chi chuan ou batendo tambores tradicionais nos parques públicos, marcaram fortemente minha experiência chinesa.
Seres humanos precisam, de fato, de muito pouco pra prosperar. Somos animais de imensa capacidade de adaptação. Os únicos capazes de viver tanto no Ártico, quanto na Amazônia ou no Saara. A China, hoje, pode colocar gente na lua a hora que quiser, pode conquistar os abismos dos oceanos se desejar, pode até brigar com os grandes em condição de igualdade — embora não seja essa sua herança histórica. Ela trocou, no espaço de apenas um século, o feudalismo absoluto pela plenitude da era digital. Um salto inédito na história. Mas seu maior mérito, pra mim, foi priorizar e garantir o básico para todos dentro da maior população do planeta. A erradicação da pobreza extrema foi um processo complexo, que incluiu, por exemplo, garantir saneamento básico coletivo generalizado. Os banheiros comunitários de Beijing podem parecer bobagem, quase singelos, mas eles representam preocupação e criatividade surpreendentes. Por que nenhuma outra nação, até hoje, se debruçou sobre esse problema e criou uma solução tão simples, barata e eficiente?
Saber identificar o que realmente importa é uma rara distinção.




Texto muito humano e atual.
A erradicação da miséria na China é um feito fenomenal. É impossivel dizer se havia uma maneira menos autoritária e até menos cruel, mas a revolução cultural teve um custo humano inegavelmente alto. Em conversas sobre o sistema político chinês com colegas americanos, europeus e chineses (na China) concluímos que o sistema chinês funciona (de maneira positiva aos nossos olhos) para os chineses por causa da sua cultura, que é muito íntimo do sistema familiar/comunitario chinês. Replicar esse sistema em outros países ocidentais, especialmente por conta da cultura mais individualista, seria impossível e possivelmente causaria mais problemas que soluções.
Porém uma coisa é inegável e eu também compartilho desse pensamento. Erradicar o problema do saneamento é BÁSICO!!!!! Como um país pode prosperar (no caso o Brasil) se, salvo engano, mais da metade da população não tem saneamento básico garantido. Segundo a agência senado, Quase 35 milhões de pessoas no Brasil vivem sem água tratada e cerca de 100 milhões não têm acesso à coleta de esgoto. Não precisamos nem focar em sistema político, ideologia, vigilancia, etc, precisamos por energia e foco em resolver o saneamento. Banheiros/fontes de agua públicos comunitários deveriam ser disponíveis por humanidade. Voltei a pouco da França e eu sempre perguntava aos locais se a água da torneira era boa pra tomar e sempre me falavam que lá, água de boa qualidade (a disposicao), era um direito básico. Vi (e usei) banheiros na rua, em geral, razoáveis e autolimpantes, tanto em Paris quanto no sul, fontes de água potável abundantes em parques e tive o mesmo choque que você. Pensei a mesma coisa, que era uma coisa boa pros turistas (acho que estão se preparando pras olimpíadas), até ver um morador de rua indo no banheiro e enchendo a sua garrafa de agua) e entender que era bem mais que isso.
Abs
Jen
A china serve como referência para a queles que desejam crescer e próspera, tudo que o capitalismo dos imperialistas não querem. A china essa que foi devastada por guerras internas como as duas guerras do ópio, e a revolta do boxers, onde o reino Unido viciou uma nação em droga para poder usurpar riquezas trazer pobreza, vale mencionar isso também! Até pouco tempo honkong fazia parte do Reino Unido, que foi arrendada para os chineses. Um povo forte, aguerrido, intelectual, sabem que liberdade não é você ter um iPhone na mão.
Você relata um lado da China muito curioso pra mim, nunca estive lá e não imaginaria cenas como as relatas aqui em seu artigo. Adorei teu relato, muito bom saber sobre o lado bom de uma grande nação. Como sempre tua escrita proveniente de experiências diretas é fascinante.