EVEREST: A ANTIMONTANHA

4 de junho de 2024

EVEREST: A ANTIMONTANHA
Texto de Guilherme Cavallari

Quando penso em montanhas, minha mente se acalma. Ilustrações de grandes ondas com o Monte Fuji ao fundo, do artista japonês Katsushika Hokusai, invadem meu cérebro. Retratos em preto-e-branco de monumentais faces rochosas, do fotógrafo estadunidense Ansel Adams, dançam como miragens diante dos meus olhos. Lembro de Hemingway nas estepes africanas enlevado com o gelo eterno do Monte Kilimanjaro, que parecia flutuar no ar trêmulo do calor sufocante.

 

Os deuses gregos moravam no Monte Olimpo. Os incas faziam oferendas humanas nos topos mais altos dos Andes. Os tibetanos ainda queimam incenso para acalmar espíritos e deuses que habitam as altitudes. O deus indiano Shiva habita o Monte Kailash.

Não me surpreende a crescente atração por subir montanhas. Também não me surpreende nossa crescente dessintonia com a própria montanha uma vez no cume. Como escreveu Robert M. Pirsig, autor do livro Zen and the Art of Motorcycle Maintenance, que traduzo aqui: “o único Zen que você vai encontrar nos topos das montanhas é o Zen que você levar lá para cima”.

Ou como desabafou o escalador, empresário e guru da vida ao ar livre, Yvon Choinard, no filme-documentário 180˚ South, de modo bem menos sutil: “Tem esses cirurgiões plásticos superpoderosos e CEOs que pagam 80.000 dólares para os sherpas colocarem escadas e instalarem quilômetros de cordas fixas até o acampamento, onde eles não precisam sequer esticar seus sacos de dormir. Já vai estar esticadinho com uma barrinha de chocolate em cima. O propósito de se preparar para algo como o Everest é resultar em algum efeito de superação espiritual ou física, mas se o processo for comprometido, o sujeito era um babaca quando começou a caminhada e continuará um babaca quando terminar”. 

Com estilos bem distintos, Pirsig e Choinard falam a mesma coisa. 

Eu não me considero um montanhista, embora já tenha escalado montanhas. Já parei aos pés de elevações famosas imaginando e quase planejando a rota que me levaria ao cume. Fiz isso diante do Monte Ararat, no oeste da Turquia; diante do Vulcão Chimborazo, no Equador; diante do fragmentado Monte Olívia, na Terra do Fogo argentina, vizinho a Ushuaia. Devaneios que escolhi deixar como devaneios porque sei que não me interessava simplesmente chegar aos cumes. Eu teria que escalar por conta própria, de forma independente, autossuficiente, descobrindo e respeitando meus limites pessoais, expandindo meus conhecimentos, se quisesse ficar satisfeito. Ficar satisfeito comigo mesmo.

Montanhas como hipérboles de obstáculos não me atraem ou perturbam mais do que grandes distâncias, campos que se perdem no horizonte, florestas aparentemente intransponíveis ou rios sem pontes. Entendo que esses desafios naturais exigem e promovem o acesso às nossas habilidades e o reconhecimento de nossas deficiências. Sei que esse mapeamento forçado do território interior, diante de obstáculos externos, raramente é indolor ou tranquilo, mas resulta num poderoso processo de autoconhecimento que abre espaço para um potencial crescimento interno. Ou pelo menos assim reza a lenda. Não faltam também histórias de fracassos homéricos seguidos de depressão abismal e de mortes prematuras.

Aventura é um negócio sério.

Numa sociedade que acredita no acúmulo infinito de riqueza, na prosperidade sem limites, no poder do individualismo apesar da absoluta ausência de exemplos individuais e isolados de sucesso na natureza, faz sentido eleger a montanha mais alta do mundo como a representante máxima de todas as montanhas. O troféu supremo de todas as conquistas. Números simplificam a vida. Quanto mais metros, ou pés, maior o mérito da escalada. Maior a sensação de vitória e superação. Maior o reconhecimento. Um reducionismo digno de quem não frequenta montanhas.

O excesso de individualismo também gera crises de identidade. É comum confundir individualismo com excepcionalidade. Daí começa uma corrida em busca daquilo que não apenas nos diferencie da massa, mas que também nos torne únicos e originais — algo que simplesmente não existe na natureza. O oposto nos ensina a Deep Ecology, formulada pelo pensador norueguês Arnie Naess: somos todos fios na imensa teia que compõe o universo, importantes e únicos como partes do todo. Nenhum fio existe solto no espaço, desconectado da rede. Conexão é compreensão.

Faz lembrar o premiado autor britânico e montanhista Robert Macfarlane, que escreveu: “Aqueles que viajam até os topos das montanhas estão meio apaixonados por si mesmos e meio atraídos pelo vazio definitivo”. Uma maneira poética de chamar escaladas de egotrips. Mas num mundo de pessoas tão centradas nos próprios umbigos, o que não é egotrip?

Participei, recentemente, de um pequeno festival temático de montanha na serra onde vivo, na Região Sudeste do Brasil, um país sem montanhas. Daí veio a motivação de escrever esse texto. Eu vendia meus livros de aventura atrás de uma mesa posicionada no meio de dois palcos de onde palestrantes discursavam. Os auto-falantes traziam as vozes entusiasmadas, às vezes emocionadas, às vezes professorais, em ondas junto com os cheiros de pipoca e churrasco. Eu deslocava regularmente minha mesa em busca de sombra, já que o sol forte era implacável na faixa sem cobertura onde nós, escritores e editores independentes, fomos instalados pela organização do evento. Como expositores não-pagantes, não podíamos reclamar. A luta pela promoção da cultura acontece em muitas frentes e dá-lhe protetor solar e chapéu!

Um jovem palestrante de óculos escuros, falando também de frente para o sol, agradecia às “forças do universo” por poder viver como montanhista. Instalado, pelo que entendi, num país andino, achei estranho ele não agradecer a Pachamama. No telão, ele exibia lindas imagens de picos alcançados e fazia entender que aquelas alturas estavam à disposição de todos com a mesma vontade e a mesma determinação que ele passava ter. Imaginei o que o pipoqueiro pensaria daquela afirmação.

Outra palestrante, no palco oposto, relatava sua ascensão do Monte Everest e seu atual empenho para levar mais brasileiros até esse cume sagrado, que já foi chamado de Chomolungma e Sagamatha. Segundo ela, seu guia nepalês — que ela chamava de “meu sherpa” — chegou a propor que eles descessem ainda no começo do ataque final por conta do frio extremo. O nepalês reclamou estar sentindo mãos e pés congelarem. Ela chorou e seu choro acabou convencendo o profissional a seguir montanha acima. Ela obviamente chegou ao cume, caso contrário não estaria dando a palestra. Faltou, talvez, explicar que o frio que o guia sentia estava muito provavelmente relacionado ao ritmo lento demais da subida, causado comumente pelos turistas, já que sherpas são fisiologicamente mais adaptados à altitude e praticamente “correm” até os cumes do Himalaia. Ficou a impressão de que ela era mais forte e estava mais motivada que o oriental.

A sucessão de palestrantes parecia repetir as mesmas experiências, dar os mesmos conselhos, passar os mesmos valores. Custei a entender a essência. Ao final, compreendi ou interpretei algo que não me caiu bem. Algo que ia na contramão da sensação de calma e harmonia que sinto ao pensar e observar montanhas.

Primeiro, parecia haver uma batalha entre a montanha e os montanhistas, um embate onde apenas um dos lados lutava de fato, além de uma competição entre montanhistas. Eu questionava as intenções por traz das empreitadas cada vez que alguém era apresentado como “o primeiro brasileiro”, “a primeira brasileira”, “a primeira negra”, “o mais velho”, “o mais novo” no topo do mundo. Prêmios bastante diluídos diante das 11.996 ascensões ao cume do Everest catalogadas desde 1953 até janeiro de 2024, cerca de 656 apenas em 2023.

Segundo, num país da periferia do capitalismo, como o Brasil, com um dos salários-mínimos mais baixos do continente apesar do maior PIB, eu ouvia nas entrelinhas das palestras quase um pedido de desculpas. Todos faziam questão de explicar que haviam trabalhado tanto para conseguir verbas quanto no intenso treinamento físico necessário para chegar ao teto do mundo. Ou então contornavam a questão financeira. Ninguém podia admitir ter dinheiro próprio, ser rico, ser herdeiro, como se isso minimizasse ou até excluísse qualquer mérito pelo cume. Por outro lado, havia o inegável orgulho da conquista de um privilégio. Mais uma forma de individuação. Era compreensível, já que um ticket ao cobiçado topo do Everest custa, no mínimo, uns 40 mil dólares americanos, podendo chegar a mais de 100 mil dólares — entre 130 e 365 salários-mínimos atualmente, de 11 a 30 anos de trabalho contínuo, imaginei o churrasqueiro ou o cara das empanadas calculando.

Mas a febre do Everest não é novidade.

A montanha foi descoberta por cartógrafos ingleses trabalhando no Great Trigonometrical Survey, projeto que ocorreu entre 1802 e 1871, que mapeou detalhadamente pela primeira vez todo o subcontinente indiano. Sir George Everest foi superintendente da missão entre 1823 e 1843. Famoso por ser taciturno e impaciente, a montanha acabou batizada em sua homenagem depois de avistada e medida à distância em novembro de 1847.

A Grã-Bretanha travou, durante o século XIX e até o começo do século XX, uma guerra fria contra o Império Russo pelo domínio geopolítico da Ásia Central. O Tibete, que divide o cume do Monte Everest com o Nepal, era uma das peças mais disputadas no tabuleiro do então chamado Great Game. Quem leu o inesquecível livro Kim, de Rudyard Kipling, sabe bem do que estou falando.

Depois da Primeira Guerra Mundial, na década de 1920, a Grã-Bretanha considerou estratégica a conquista do Monte Everest como demonstração de poder e como forma de consolidação de sua hegemonia no subcontinente indiano. A Union Jack — como a bandeira tricolor do Reino Unido, com três cruzes sobrepostas, é chamada — deveria tremular no ponto mais alto do planeta. Seu lugar de mérito, segundo os britânicos.

Três expedições pioneiras foram organizadas e financiadas — em 1921, 1922 e 1924 — por instituições de prestígio científico e político. A Royal Geographical Society e o Alpine Club se envolveram nas tentativas de alcançar o cume da montanha a partir do Nepal. Em 1921, a proposta era apenas mapear a rota até o cume e o escalador George Mallory chegou a 7.005 m nas encostas da montanha, avistando um caminho relativamente óbvio até o topo. Em 1922, havia grande entusiasmo na mídia inglesa e pulsante esperança de que a bandeira do império tremulasse acima de todas. As apostas eram altas e convergiam para o nome de George Mallory, considerado então o ás da equipe. Tudo corria bem, até que uma avalanche arrastou e matou sete carregadores nativos, espantando as centenas de outros carregadores montanha abaixo. Para os locais, aquela era uma clara expressão de desagravo de “Deusa Mãe da Terra” — tradução de Chomolungma. Os britânicos voltaram para casa abatidos.

Não houve expedição em 1923, mas em 1924 os britânicos voltaram com toda força ao Monte Everest. A concorrência, em especial dos suíços, começava a colocar cartas na mesa ameaçando o monopólio da montanha. Nessa época, os melhores e mais experientes escaladores da Europa e do mundo eram guias suíços, caçadores e lenhadores em geral, que ofereciam seus serviços a toda a elite de montanhistas ingleses, todos endinheirados. Para os suíços, havia uma clara distinção entre eles mesmos, montanhistas de verdade, e os eventuais turistas ingleses, mesmo aqueles mais fortes e hábeis. História amplamente explorada no ótimo livro Unjustifiable Risk? The Story of British Climbing, do inglês Simon Thorton.

O escritor também inglês Wade Davis, no excelente livro Into the Silence: The Great War, Mallory, and the Conquest of Everest, esmiuçou a história dessas três expedições e do ambiente geopolítico e cultural da época. Ele também dedicou muitas páginas para traçar uma biografia de George Mallory. Além de ser considerado o melhor montanhista da ilha de Shakespeare, Mallory também era tido como um dos homens mais bonitos e sensuais nas terras do Rei George V.

Aluno da prestigiosa Universidade de Cambridge e depois professor de história e literatura inglesa, ele conviveu com um ruidoso grupo de artistas e cientistas, a vanguarda intelectual da burguesia de então. Mallory circulou com desenvoltura entre nomes como Oscar Wilde, Virginia Woolf, os irmãos Aldous e Julian Huxley, Henry James, H. G. Wells, o economista John Maynard Keynes, Bertrand Russell e E. M. Forster, entre muitos outros. Forster inclusive usou Mallory para compor o personagem George Emerson, um dos protagonistas do famoso romance A Room with a View, mais tarde adaptado para o cinema. O pintor escocês Duncan Grant, amante de Maynard Keynes, fez um famoso ensaio fotográfico de Mallory, posando nu, que causou comentários do tipo “Oh, my God! Mallory…”. Arrancando suspiros igualmente de mulheres e de homens.  Mallory devia se sentir bem pelado. Há fotos dele na caminhada até o Everest em 1924 vestindo apenas botas, mochila e chapéu.  

Quem leu o best-seller Ghosts of Everest: The Search for Mallory & Irvine, (traduzido para o português como Fantasmas do Everest: Em Busca de Mallory e Irvine) conhece o trágico fim da expedição ao Everest de 1924. Numa última tentativa de alcançar o cume, o experiente George Mallory e o novato Sandy Irvine desapareceram atrás de nuvens pesadas enquanto caminhavam resolutos em direção ao topo da montanha. O corpo de Mallory só foi encontrado, mumificado pelo frio, em 1999. O corpo de Irvine segue desaparecido. Não se sabe até hoje se eles morreram na subida ou na descida, se chegaram ou não ao pico do Everest. Havia, supostamente, uma compacta câmera fotográfica entre eles que, se um dia for encontrada, poderá talvez revelar uma foto de cume. Ou não. Esse é considerado “O Grande Mistério do Everest”. Um fantasma que vira e mexe ressurge das sombras das formas mais inusitadas.

Vencido o trauma nacional de 1924, uma dupla de escaladores ingleses tomou a liderança das novas investidas contra o Everest nos anos de 1930, dessa vez pelo lado tibetano. Eric Shipton e Bill Tilman se conheceram escalando o Monte Quênia, no Quênia, onde Shipton havia sido um dos conquistadores da via hoje considerada “normal” da montanha — a mais consagrada e popular. Shipton e Tilman lideraram expedições ao Monte Everest e revolucionaram o montanhismo, introduzindo o conceito de “leve e rápido”. Eles eliminaram a necessidade de centenas de carregadores, meses de empenho e um caminhão de dinheiro. Eles também introduziram a ideia do carregador-escalador, que mais tarde ficou conhecido como sherpa-escalador. Foi sob a liderança de Shipton, em 1935, que o jovem nepalês Tenzing Norgay teve sua primeira oportunidade como montanhista, aos 20 anos de idade. Incansável, prestativo e sorridente, Norgay participou ainda das expedições britânicas ao Everest em 1936 e 1947, antes de conquistar a montanha em 1953 ao lado do apicultor neozelandês Edmund Hillary.

Shipton deixou seis excelentes livros de narrativas de expedições em montanhas, nenhum deles traduzido para o português. Ele liderou uma derradeira expedição ao Everest, em 1951, deixando o caminho até o cume claro e totalmente mapeado. Em 1952, uma expedição de suíços auxiliados pelo experiente Tenzing Norgay, chegou a 8.595 m de altitude, estabelecendo um novo recorde mundial, a apenas 253 m verticais do topo. Os ingleses entraram em pânico. A próxima expedição, marcada para 1953, seria provavelmente a última chance de conquista britânica da montanha. A fila andava rápido. Shipton era o óbvio candidato à vaga de líder, mas uma jogada política nos bastidores do poder puxou o tapete do calejado montanhista, que decidiu nunca mais voltar ao Himalaia. Shipton apontou sua bússola para o sul e fez importantes explorações na Patagônia.

Edmund Hillary e Tenzing Norgay conquistaram o Monte Everest, via Nepal, no dia 29 de maio de 1953, apenas quatro dias antes da coroação da Rainha Elizabeth II da Inglaterra. A montanha obviamente foi tratada como um presente real e um prenúncio auspicioso de um poder global que a Grã-Bretanha nunca mais viveu. Os tempos da expansão colonial e da hegemonia industrial, naval e militar britânicas já haviam passado para a história.

Esses fatos, nomes, datas e livros rodeavam minha mente naquele festival temático de montanha, sofrendo com o sol, enquanto atendia leitores, revia velhos amigos e conhecia gente nova. Entre a venda de um livro e outro, eu ouvia mais trechos das palestras que aconteciam à minha volta, como duas caixas de som de um aparelho estéreo que só tocava uma banda por vez. O tema Everest parecia monopolizar o evento como se essa fosse a única montanha digna de se escalada. A única merecedora de louvor e reconhecimento, ou pelo menos a única com potencial de arrebanhar patrocínios, trazer fama e fortuna. Sem o diploma do Everest parecia que ninguém poderia se autointitular “montanhista”.

Mas, afinal, o que define um montanhista? Como escritor que sou, palavras e definições são importantes para mim.

Em minha humilde concepção de não-montanhista declarado, mas falando como aventureiro profissional e autor especializado com várias décadas de experiência, acredito que a mesma regra básica que aplico à aventura poderia ser aplicada ao esporte de subir montanhas: autossuficiência. Aquele que transita livre pela montanha, que navega por conta própria, que carrega seu equipamento, que monta barraca, derrete gelo para fazer água, que prepara a comida e que, em especial, divide a responsabilidade vital de guiar as cordadas, esse ou essa é montanhista de fato.

Em 1985, o milionário norte-americano Richard Bass foi o primeiro a completar um projeto que ele chamou de Seven Summits — Sete Picos —, escalando as sete montanhas mais altas nos sete continentes. No dia 30 de abril de 1985, aos 55 anos de idade, depois de duas tentativas fracassadas, Bass finalmente chegou ao topo do Everest — o último cume que faltava em sua lista. Seu guia nessa escalada foi o também norte-americano David Breashers, que mais tarde ficaria famoso por produzir e filmar o primeiro documentário de alta-definição (IMAX) no Everest, em 1998.

Jon Krakauer escreveu no famoso livro Into Thin Air (traduzido para o português como No Ar Rarefeito) que a façanha de Richard Bass de chegar ao cume das sete montanhas mais altas do mundo e, em particular, do Monte Everest, sem ser ele mesmo um montanhista, decretou a “era póstuma” do Teto do Mundo. Depois disso, a pressão econômica sempre crescente passou a desfigurar o Everest num ritmo cada vez mais acelerado a cada temporada.

Richard Bass agiu como agem os clássicos homens de negócio, os businessmen. Ele detectou um desejo, viu uma oportunidade, avaliou seus recursos, criou metas e não sossegou até alcançar seu objetivo. Nada diferente daquilo que pregavam os palestrantes na feira temática de montanha onde eu estava. Exatamente o que me incomodava o tempo todo sem que eu conseguisse entender.

Richard Bass abriu a possibilidade para montanhistas experientes, que em geral viviam vidas de ciganos sem dinheiro, de abrirem agências especializadas e levarem turistas endinheirados — chamados de “clientes” — para alturas antes inacessíveis. Nenhum pico era tão atraente e sedutor quando o Monte Everest, por razões óbvias. Quanto mais alta a montanha, mais velocidade ganha a bola de neve ladeira abaixo. Não demorou e agências proliferaram por todo o Primeiro Mundo, a mídia mundial passou a dar cada vez mais atenção ao montanhismo-comercial e jovens nas vilas nepalesas passaram a enxergar no montanhismo uma oportunidade palpável de alguma prosperidade, embora recebam apenas uma migalha do que se gasta na montanha. O próprio Nepal passou a vender permissões cada vez mais caras para escalar sua montanha de estimação — antes vista como uma deusa.

Para o capitalismo, tudo o que dá lucro é aceitável e até louvável.

De lá para cá, muita coisa aconteceu no Terceiro Polo — como o Everest era chamado na primeira metade do século XX. Ascensões históricas deixaram suas marcas. Em 1978, o italiano Reinhold Messner e o austríaco Peter Habeler foram os primeiros a chegar no cume sem usar oxigênio auxiliar. A ciência sequer tinha certeza se algo assim era fisiologicamente possível para o ser humano. Em 1980, o mesmo Messner surpreendeu o mundo mais uma vez ao chegar ao cume do Everest sem oxigênio suplementar e sozinho. Ele repetiu a façanha em todas as 14 montanhas acima de 8.000 m do planeta — sozinho e sem oxigênio —, estabelecendo um novo desafio para quem quiser completar listas de escaladas. Até hoje apenas 52 pessoas fizeram semelhante e apenas 19 sem uso de oxigênio suplementar.

O ano de 1996 ficou famoso pela tragédia de oito mortes na montanha, relatadas de forma brilhante em dois livros que rodaram o mundo: Into Thin Air, do Krakauer e The Climb: Tragic Ambitions on Everest, do escalador russo Anatoli Boukreev com a ajuda do jornalista G. Weston DeWalt (traduzido para o português como A Escalada). O ano mais letal da história da montanha até o momento, no entanto, foi 2015, com mortes contabilizadas entre 19 e 24, devido a uma violenta avalanche que atingiu o Acampamento Base nepalês.

O ano de 1996 também testemunhou talvez minha história favorita de escalada do Monte Everest. O sueco Göran Kropp já tinha sido o primeiro de sua nacionalidade a escalar o K2, a segunda montanha mais alta do mundo, sozinho e sem oxigênio, em 1993. Aos 28 anos de idade, Kropp partiu de Estocolmo no dia 16 de outubro de 1995, sozinho e de bicicleta, pedalou 13.000 km puxando 108 kg em equipamento organizado em um bike trailer, até chegar ao Neparl. Ainda sozinho e autossuficiente, ele carregou todo seu equipamento ao Acampamento Base do lado nepalês, escalou o Everest solo, sem oxigênio e sem usar as cordas fixas posicionadas pelas agências comerciais. Em seguida, montou na bicicleta e pedalou de volta para casa. Para não parecer um super-herói, no Cazaquistão ele pegou uma sequência de trens até a Suécia. Göran Kropp morreu, em 2002 numa queda escalando em rocha nos EUA enquanto se preparava para chegar velejando sozinho à Antártica e cruzar, também sozinho e autossuficiente, o continente gelado. Seu livro, Ultimate High: My Everest Odyssey, escrito com o jornalista sueco David Langercrantz, é delicioso de ler e enche a cabeça de más ideias.

Em 2013, o já falecido suíço Ueli Steck, premiado escalador famoso por sua velocidade nas montanhas, tentava estabelecer uma nova via no Monte Everest com dois outros escaladores europeus. A trilha do trio cruzou o caminho dos sherpas, que instalavam as cordas fixas usadas pelas agências de montanhismo-comercial para a lenta passagem de seus clientes rumo ao cume. Os nepaleses não gostaram de ver estrangeiros na montanha antes do término de seu trabalho, como se todo estrangeiro fosse turista. Os europeus, herdeiros da arrogância colonialista, acreditavam que, por serem montanhistas profissionais e famosos, tinham total direito de transitar como quisessem pelas encostas verticais e nevadas de qualquer montanha do mundo. Apesar do ar rarefeito acima do 5.300 m no Acampamento 2, uma calorosa discussão degenerou em briga e na tentativa de linchamento de Steck, que foi obrigado a descer a montanha escoltado. O escândalo ganhou as manchetes do mundo todo e fez muita gente entender que a montanha mais alta do mundo era, acima de tudo, um grande negócio. O Everest havia sido conquistado, dessa vez, pelo neoliberalismo, onde o privado está acima do público, onde o fator econômico se sobrepõe ao social.

Até 1985, como bem notou Jon Krakauer, o Everest era monopólio exclusivo de grandes expedições bem patrocinadas, apadrinhadas por países e prestigiosos clubes de escalada. O montanhismo era um esporte amador. Cada potência e subpotência mundial enviou expedições nacionais para conquistar a montanha mais alta. Hoje indivíduos levam suas próprias bandeiras.

Fiquei muito tocado com o livro High Crimes: The Fate of Everest in an Age of Greed, do jornalista norte-americano vencedor do Prêmio Pullitzer Michael Kodas, que narra duas histórias de terror para ilustrar o atual ambiente do Everest. A primeira, a morte do turista-de-montanha Nils Antezana, dos EUA, abandonado na montanha por seu guia. A segunda, a experiência traumática do próprio jornalista e autor, lidando com um guia violento e misógino. O livro é repleto de casos de roubos, furtos, agressões e vandalismos. Algo digno de um campo de batalha.

Quem, como eu, acompanha e estuda por curiosidade a história do Monte Everest, fica aterrorizado ao ver as longas filas de turistas em direção ao cume. Assusta também a quantidade de lixo nos acampamentos e os corpos de pessoas mortas ao longo do caminho. Não ajuda tampouco saber que cerca de 500 pessoas visitam, todos os dias durante a temporada de escalada, o Acampamento Base nepalês e que cerca de 800 pessoas tentam chegar ao cume todos os anos. E quase todos pisam no ponto mais alto do planeta.

Não está longe o ano em que 1.000 pessoas chegarão ao topo do mundo.

De volta ao festival temático de montanha perto de casa, queimado de sol no fim do dia e feliz com as vendas, os encontros e as conversas, olho compassivo o público interessado em histórias do Monte Everest. Eu também gosto dessas histórias. Sonhar com aventuras é um passo na direção de realizá-las. Sem aventura a vida fica opaca. O problema é que a montanha é um ambiente sensível e delicado, incapaz de lidar com plástico, fezes e corpos em decomposição. Incapaz de lidar com o ego humano. Na ânsia de chegar ao topo, diante das cifras astronômicas gastas no projeto, diante das possibilidades de ascensão social e lucro econômico com a fama vinda do sucesso da escalada, não é difícil imaginar que mais um cilindro de oxigênio largado nas encostas não fará diferença alguma.

A montanha é tão grande…

Será que quando o filósofo Friedrich Nietzsche escreveu que “aquele que escala as mais altas montanhas ri de todas as tragédias, reais ou imaginárias” ele estava sendo sarcástico? Premonitório? Ou apenas entendeu a alma humana?

De volta em casa, seja depois de pedalar por seis meses pela Patagônia, depois de cruzar de bicicleta por quatro meses toda a Mongólia ou depois de um festival temático de montanha, olho para minha biblioteca como quem olha para velhos e queridos amigos. Montanhas não são apenas montanhas, são narrativas da passagem de vidas, de culturas, de civilizações. Sem o constante vai-e-vem de humanos aos seus pés e, mais recentemente, por seus cumes, montanhas não passam de terra e pedras amontoadas. Ninguém fala, por exemplo, das montanhas da lua ou de Marte. Talvez — concluo já louco para poder mudar de assunto na minha cabeça —, o melhor seria não dar demasiada importância à nossa breve passagem por essas altitudes. Afinal, o que são montanhas se não testemunhas impassíveis da frenética correria da vida?

Fica a impressão de que estamos do avesso. Olhamos fixo para dentro de nós mesmos cegos para o que está lá fora. Falamos sozinhos obcecados pelo som da nossa própria voz. Transformamos tecnologia em mero espelho. Nosso progresso deixa como herança um monstruoso rastro de lixo. Algo nefasto nos afasta de nós mesmos e de qualquer conexão que não resulte em vendas. Se transformamos tudo o que nossos olhos tocam em mercadoria, em produtos e em objetos de consumo, nós mesmos seremos eventualmente apenas rótulos em prateleiras. Se nossa bússola interna se quebrou, seguiremos perdidos em faces de montanhas, em trilhas nas florestas ou navegando as ondas do mar. Nem a montanha mais alta do mundo poderá nos redimir.

Cada dia mais, acredito que a palavra Revolução faz todo o sentido.

……..

Convidei algumas pessoas para comentar o artigo antes da publicação. Incluo os comentários aqui:

“Texto muito bem escrito. O tema é pertinente aos dias de hoje de redes sociais e o sucesso a qualquer custo. Boas referências bibliográficas!”
(Thomaz Brandolin, membro da primeira expedição brasileira ao Monte Everest, em 1991)

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“Guilherme Cavalari tem que ter muita coragem para expor os fatos que expõe e faz com boa contextualização e referências bibliográficas. Alguns podem até achar o texto seja destinado a pessoas como eu, afinal, vivo de guiar pessoas em montanhas e de vender bons e caros equipamentos de montanhismo. Entretanto, a crítica não é para os trabalhadores de montanha….

Dentro de sua boa contextualização, Cavalari apenas não citou o princípio maior do montanhismo, aquele princípio que moveu Jacques Balmat e Gabriel Paccard, Mallory e Irvine, Tenzing e Hillary, Messner e Habeler, Kukuczka… O princípio do ineditismo.

Para nós montanhistas o maior valor é ser pioneiro, não é ser mais rápido e nem repetir feitos já realizados muitas vezes. É ousar, sair do padrão e fazer o novo.

Não há nada de errado em guiar clientes numa montanha e nem ser guiado, se seu sonho é subir uma montanha, mas há que se distinguir uma conquista pessoal de uma conquista do montanhismo.

Escalar o Everest foi o desafio do montanhismo na década de 1950. Escalar hoje com uma agência está bem longe de ser uma conquista do montanhismo e nisso a mídia tem sua culpa em transformar o cliente que realizou uma conquista pessoal num grande feito da escalada mundial.

Você pode sonhar em escalar a montanha mais alta do mundo e não há nenhum problema nisso, sou montanhista profissional e também sonho, como guia e cronista das montanhas, quero muito subir o Everest, mas minha única chance é através de meu trabalho de guia. Parece um paradoxo, mas minha renda de guia de montanha e de empresário de loja de equipamentos não me possibilita pagar os altos custos de uma expedição. Também não acredito em patrocínios, então a mim me resta apenas trabalhar.

Já perdi várias chances. Certa vez, um cliente queria me contratar como guia, mas se irritou quando ofereci um curso de alta montanha na Bolívia. “Eu só quero escalar o Everest, não quero me tornar montanhista” — Ele me respondeu.

Ainda bem que perdi este cliente…

A crítica é para ele e todas as pessoas que querem apenas escalar montanhas famosas para com estas escaladas se tornarem famosas. Coachs, palestrantes e charlatões que fizeram de um lugar sagrado um circo.”
(Pedro Hauck, guia de alta montanha e empresário do segmento outdoor)

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“Sou muito fã do Jacques Cousteau, oceanógrafo e cientista francês. Ele foi minha primeira referência de ‘vida lá fora’, de natureza e meio ambiente, aos domingos no Fantástico. Eu lembro nitidamente de alguns programas, das histórias dele, enfim, depois procurei documentários, fui lendo as coisas e por aí vai. Contextualizo porque o Cousteau tem uma frase, que eu simplesmente sou apaixonado, que diz o seguinte: “people protect what they love” ou em tradução livre “as pessoas protegem o que elas amam”. E ele falava isso para todo mundo que criticava quando ele levava muita gente para os oceanos e meio ambiente, ecossistemas delicados.  Eu tenho essa sensação com as montanhas. E longe de eu ter a experiência do Morgado, Carlão, etc., que são pessoas que vivem a montanha… A profissão deles é essa. Eu sou um cara urbano que está na montanha três meses do ano. Mas, eu tenho a sensação que a gente não consegue proteger cerrado, montanhas, Amazônia, etc., se a gente não fizer as pessoas se apaixonarem por isso. E a única forma de a gente fazer as pessoas se apaixonarem por isso é levando-as para conhecer esses ecossistemas. Eu acho que esse é o papel do guia de montanha, acho que esse é um papel de um guia de turismo de aventura, esse é o papel de um pai, de uma pessoa que gosta da vida lá fora. Faz sentido? Dito isso, eu não vejo os megassistemas do Everest, do Aconcágua, das montanhas mais comerciais dos Andes, como um problema. O problema é quando perde-se o controle, e me parece, eu não fui no Everest nos últimos dois anos, mas me parece que está um pouco fora de controle.  Essa é minha opinião. Agora eu não sou contra você ter uma empresa como a Soul Outdoor ou a Morgado Expedições para levar as pessoas para a montanha. Isso eu acho que é necessário, principalmente para a gente ter essa história de a gente cuidar do que a gente ama.  No fim das contas o equilíbrio é sempre o ponto que voltamos. Porque o ser humano tem PHd em desequilibrar as coisas.”
(Gustavo Ziller, atleta e produtor)

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“Um texto polêmico, que traduz o cenário atual: pessoas subindo montanhas para se autopromover ou como meta pessoal, sem querer fazer a progressão razoável para atingir o objetivo final. Isso nos faz refletir sobre motivações e posturas. Sou a favor de que a montanha é para todos, mas como montanhista desde o final da minha adolescência, as montanhas têm para mim um significado mais lúdico e profundo. Acredito que o nosso papel ao ministrarmos palestras sobre nossas experiências tem mais a ver com compartilhar experiências, alertar sobre os riscos e incentivar a prática do montanhismo de forma segura e sustentável. O texto descreve de forma clara e sucinta a história da conquista do Everest e como atualmente é vetado o pioneirismo por aquelas bandas. A real conquista atual para escalar a montanha tão emblemática, é conseguir levantar fundos para subi-la. Cada um usando suas armas, questionáveis ou não, para conseguir o famigerado dinheiro que possibilite tal façanha. Temos muitos montanhistas brasileiros de boa técnica e fé, que só não escalam altas montanhas ou colecionam cumes cobiçados por falta de dinheiro para fazê-las. Por essa e outras que cada um tem o seu Everest, e nós da comunidade do montanhismo, cada um com sua conquista, pessoal ou realmente pioneira, deveríamos ter a postura humilde de agradecer pelas oportunidades e compartilhar conhecimentos, ao invés de querermos competir por um lugar que, de muito longe, não é nosso.”
(M. Fernanda May, montanhista e médica do esporte, sócia do Gear Tips Outdoor)

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“Parabéns pelo texto. Demorei para responder, pois tem muita coisa nele que concordo, mas também tenho uma outra visão em relação a outras. Não só nas montanhas, mas em todos os lugares do mundo tem gente demais. Eu não vinha à Rishikesh, na Índia, a chamada capital da Yoga, há 10 anos, não a reconheci. E já vim aqui pelo menos 20 vezes. Quando digo não reconheci é porque não consegui encontrar meu restaurante predileto, que ficava em uma pequena rua não movimentada. Não existem ruazinhas não movimentadas. O ruido das buzinas agora é constante. Não sei como se pode fazer yoga aqui. Depois de muitos anos visitei Pokara, no Nepal, às margens do lindo lago com os Annapurnas do outro lado. Odiei! O Everest é o reflexo de como o mundo está. No ano passado 50.000 pessoas (e não as 500 do Everest) subiram o Kilimanjaro. Se você colocar que cada estrangeiro é acompanhado por, na média, cinco tanzanianos, temos 300.000 pessoas na montanha a cada ano. Depois de alguns anos refiz a Carretera Austral, no Chile, e apesar das montanhas, fiordes e lagos continuarem bonitos, a quantidade de pessoas roubaram o astral do lugar, na minha opinião. A trilha ao Fiz Roy tinha literalmente filas de pessoas. Nosso planeta não comporta tanta gente. Mas, por outro lado, fico feliz em saber que tudo isso é reflexo de milhões de indianos e chineses e outras nacionalidades terem acesso a turismo, coisa que não acontecia 15 anos atras. O Everest não é diferente.  Quanto à motivação de cada um que está lá, creio que existem dezenas delas. Tem gente que sonha com esta montanhas por anos, se prepara, faz outras montanhas e finalmente desembolsa os 60 ou 100 mil dólares porque quer estar lá, quer viver tudo aquilo, quer se sentir lá em cima, não para o Instagram, mas porque sonha com este momento. Tem aqueles que querem se promover financeiramente, tem aqueles que querem alisar seus egos e, tem, creio, aqueles que tem um pouquinho de cada uma dessas coisas. E sim, as multidões nas montanhas são a antítese do que a montanha deveria significar. Mas, posso falar por mim, já que falar dos outros e tentar saber qual é a motivação de cada um que está lá é presunçoso. Posso falar sobre as motivações de alguns dos meus clientes que guiei em outras montanhas. Antes de escalar o Everest eu já tinha estado no campo base do Everest 47 vezes, 47 vezes no por do sol do Kala Patar olhando lá para cima e tentando imaginar o que aqueles que estavam há poucas horas de realizar seu sonho (qualquer que seja a motivação por trás disso há um sonho), e de encarar a real possibilidade de morrer. Em 2010, uma conjunção de fatores se juntou e escalei. Já naquela época existiam as multidões, estava longe de eu ter a montanha para mim e para meus amigos. Fiquei uma angustiante hora esperando para descer o Escalão Hilary, pois os outros escaladores mais lentos ainda estavam subindo. Mas, até hoje me é difícil resumir a felicidade que senti ao descer ao campo base com todos meus amigos e nós termos chegado no cume e descido sem acidentes. Até hoje levo com muito carinho esta experiência. Agora, talvez contaminada por minhas histórias, minha esposa se prepara para daqui a dois anos escalar o Everest. As pessoas estão chegando mais velhas com mais saúde e de um modo geral se tem mais dinheiro quando se fica mais velho. Mais gente tem este mesmo sonho. Sim, foi bom para meu ego ter feito o Everest. Sim, me beneficiei economicamente por ter subido. Tenho muito mais clientes por conta disso. Sim, sou convidado para palestras motivacionais (que sempre recuso) que acaba sendo uma boa parte da renda de todos que fazem Everest. Mas, e aqui só posso falar de mim, escalei o Everest porque sonhava com isso. O resto aconteceu como consequência, não como causa. Tenho certeza de que para muitos outros também é assim, assim como tenho certeza de que o Everest é o trampolim para a fama. Pois, apesar de mais de 10.000 pessoas terem subido o Everest, ainda hoje isso traz fama.  E, algo que nunca leio, mas creio ser verdadeiro, existem várias rotas na montanha. Rotas onde você não encontrará ninguém. A face Kanchung é raríssimas vezes escalada. Ela está lá aberta a quem tem experiência para ela. A West Ridge também. Mas, ao ver a felicidade de meus clientes ao chegarem ao Campo Base, com sherpas ajudando, às vezes carregando seus day packs, as vezes sem o preparo físico necessário, sinto que isso também é valido. E minha maior motivação profissional é saber que sem minha ajuda elas não teriam conseguido chegar lá. Precisa de guia para este trekking? Não. Precisa de carregador em um trekking onde tem casa e comida a cada duas horas de caminhada? Não. Mas, para estas pessoas, sim. E sinto que saem desta experiência mais enriquecidos. E isso para mim é o bastante. O mesmo, creio, se aplica ao Everest. Com a diferença de que lá sim é fundamental ter a experiência mínima em montanhas para não colocar a si mesmo e aos outros em risco. Creio que o passo que tinha de ser dado em relação à situação de multidões e do lixo e demais mazelas do Everest seria exigir que o candidato tivesse subido um outro 8.000 antes de ir ao Everest, como minha esposa está planejando fazer. Isso resolveria o problema de ter gente tão inexperiente e diminuiria o número de pessoas no Everest. Pois sem uma regra que seja viável de ser aplicada, o único filtro é a ética das empresas que aceitam ou rejeitam os clientes. E, como sabemos, de um modo geral, a ética vai para o lixo quando entra grana, sejam operadores estrangeiros, sejam nepaleses. Sonhos não podem ser vistos pelo prisma de nossos próprios sonhos. O de cada um é diferente e acho que todos devem ter o direito de ir atrás do seu. Com preparo e, mais do que tudo, com a motivação correta. Perdão pela longa mensagem. Acabo de ler um livro que gostei muito, Everest Inc. que traça a história das expedições comerciais do Everest desde a época de um permit por ano passando pela época das grandes empresas estrangeiras e chegando no que está acontecendo agora, com as empresas nepalesas assumindo este mercado.  Discordo um pouco de você quando você diz que os sherpas ficam com as migalhas do que é cobrado. Pelos meus cálculos creio que as empresas ficam com US 20.000 de lucro em uma expedição normal, as que cobram US 60.000. Os sherpas ficam com US 5000, uma quantia considerável no Nepal, por isso voltam e voltam a trabalhar lá. É um trabalho duro, extremamente arriscado, mas em dois meses eles ganham o que um nepalês ganharia em dez anos de trabalho.”
(Manoel Morgado, diretor da Morgado Expedições e montanhista)

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“Adorei como Guilherme Cavallari entrelaça referências culturais e espirituais com suas reflexões pessoais sobre as montanhas. Isso dá uma profundidade maior ao texto, mostrando que as montanhas são mais do que apenas desafios físicos, mas também símbolos ricos de significado.  Ele faz uma crítica pertinente ao excesso de individualismo e à comercialização das escaladas. Concordo que o verdadeiro espírito do montanhismo deveria estar na autossuficiência e no respeito pela natureza, em vez de apenas acumular conquistas pessoais. Mas, não sei se é Individualismo ou egoísmo o termo certo, ou uma mistura dos dois, afinal o egoísmo pode ser algo muito pior, pois de alguma forma se aproveita dos outros para atingir seus objetivos; já o individualismo pode ser um foco em si. Falando sobre ser montanhista, acho que o montanhista é o indivíduo que detém um conjunto de habilidades técnicas (entra um monte de coisas nisso) e não necessariamente quem sobe uma montanha. Não é à toa que para ser um guia de montanha na França são necessários uns cinco anos de curso e preparação.  A ideia de que a verdadeira conexão com a montanha vem de dentro de nós é muito poderosa. A citação de Pirsig no texto sobre o Zen é especialmente impactante, lembrando-nos que o que realmente importa é o que levamos internamente para essas experiências (e o que trazemos de volta delas).  O texto traz uma rica narrativa histórica sobre o Everest e outras montanhas famosas, o que é fascinante. Aprender sobre as primeiras expedições britânicas e o contexto geopolítico da época adiciona uma camada de entendimento sobre a evolução do montanhismo. A honestidade (ou sinceridade) do texto ao compartilhar próprias experiências e decisões de não escalar certas montanhas é interessante. Alguns não falariam, pois o “sucesso” seria subir a montanha. Mas, quem conhece bem o Guilherme pelos seus livros sabe desta sinceridade. Ele mostra que o autoconhecimento e o respeito aos próprios limites são fundamentais em qualquer jornada de aventura. Enfim, gostei muito do texto. Acho que, como sempre, Guilherme faz provocações pertinentes.   Só complementando, acho que está tudo bem uma pessoa ter como objetivo subir os Sete Cumes ou coisa parecida, e tudo bem ser rico também… O que acho chato (como foi colocado de alguma forma no texto) é a pessoa ficar dando desculpas por ter feito as coisas. Sei que tudo acaba sendo uma narrativa de marketing, mas tem coisa que acho que fica muito forçado.”
(Pedro Lacaz Amaral, fundador e diretor do Gear Tips Outdoor)

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Só com um olhar de quem experimentou as dores e delícias de se jogar ao ar livre pode escrever abertamente sobre um assunto de forma a ir totalmente em contra aquilo o que a mídia insiste em nos mostrar. E a mídia tem força quando se trata de direcionar nossos olhares para o que é menos profundo.

Assim li e consegui enxergar o texto do Guilherme Cavallari quando ele aborda pontualmente em seu texto o tema Everest. O texto é um resumo das percepções captadas durante o Mountain Festival, evento do qual faço parte. Algo aí incomodou o Guilherme. Me identifico.

Não é sobre corroborar. Me identifico.

O Everest é o superlativo dos superlativos. Quase um coletivo da gramática usado quando queremos expressar algo “muito qualquer coisa”. Muito alto, muito longe, muito frio, muito difícil. A mídia ama os superlativos, o público fica catatônico quando ouve as palavras pelos alto-falantes de quem foi lá tão no “muito qualquer coisa” e passamos então a saudar os superlativos. Sem desmerecer as conquistas pessoais mas ás vezes me parecem superlativos quase desnecessários. E hipnotizados por esses superlativos, quando menos percebemos, estamos sendo direcionados pela mídia, pelos eventos de esportes ao ar livre, a dar importância ao que é superficial. Sem bem perceber somos direcionados a olhar para os expoentes quando na verdade, o mais, alto, o menor, o mais profundo, o mais velho, o primeiro… não tem o mesmo valor quando pensamos internamente em nossas limitações e desafios.

E não é somente assim quando se trata do Everest e o texto do Guilherme Cavallari, que tem experiências daquelas ao ar livre e de resultados incertos em uma gama ampla de lugares esquecidos pelo mundo, poderia estar inserido em qualquer outro esporte que trata de interação com os elementos do meio ambiente. Navegações até a Antártica, explorações na Patagonia, escaladas inéditas, travessias de um lado ao outro.

Onde nós chegamos ? O que nós provocamos ? Nós, os mais antigos, não somos nada diferente do que são hoje as pessoas ou do que foram as pessoas que viveram décadas antes. Eventualmente podemos nos considerar pioneiros. Pioneiros em se aventurar, registrar momentos e divulgar nossos medíocres feitos. E assim estamos hoje pegos por uma armadilha construída por nós mesmos em uma época em que fomos inocentes de não imaginar onde isso tudo poderia chegar. Ou, simplesmente, fizemos com honestidade de propósito sem saber que estaríamos contribuindo para falas superficiais.

E por quem fomos influenciados ? Pelos aventureiros do início do século da época das grandes conquistas. Expedições eram patrocinadas pelos Estados e até instituições religiosas, sempre com um tom nacionalista. As viagens do início do século passsdo eram quase um programa de soberania nacional onde os russos queriam ser os primeiros a chegar no ponto mais profundo dos oceanos anos depois de os ingleses desesperadamente quererem chegar primeiro no ponto mais alto da terra.

Voltando ao Everest, esse é o ícone do montanhismo. E o montanhismo começou como algo praticado pela elite. Das pessoas com recursos que podem chegar lá, ir mais longe, trazer as histórias que bem entenderem apesar de na maioria das vezes possuírem mais recursos e nenhuma fisiologia ímpar para se integrar a este ambiente como por exemplo os nepaleses que trabalham como carregadores ou o único Reinhold Messner.

Ao longo dos tempos dessa abreviada linha do tempo do montanhismo tudo se alinhou para o surgimento de uma classe de montanhistas alternativos como os dirty bags que brotavam debaixo dos boulders do Camp 4 do Yosemite National Park nos EUA. Uma cultura contra-culturada que promoveu a criação de novos formatos de escaladas. Escaladas mais rápidas, com menos recursos financeiros, com a criação de equipamentos tipo obras-de-arte. Mas durou um período curto de tempo e os próprios contra cultura criaram um movimento mercantil que era trabalhado pela mídia da época. Jornais e revistas especializadas que tratavam também de comercializar os novos equipamentos de escalada que eram criados a cada semana.

Arrisco dizer nessa parte da conversa que estou sendo chato. Mesmo não sendo uma pequena fração do que é a vida de experiências do Guilherme Cavallari, basta ter uma opinião na contra mão, que nem preciso ser chamado de chato pois já me sinto assim só pelos olhares ao redor.

Mas o chato aqui diz mais. O montanhismo que é hoje praticado, não é o montanhismo que conheci e pratiquei. Até onde me lembro não haviam filas no cume das montanhas e as pessoas apreciavam o tempo de se agachar num canto de trilha para procurar água enquanto hoje o barato é ter uma sonda tipo gástrica conectando água do reservatório das suas costas quase dentro da sua garganta em prol de não se perder tempo para se hidratar. Isso sim é muito chato.

Aquele montanhismo passou longe do montanhismo de contabilidade de pessoas que chegam o cume das montanhas mais desafiadoras pensando logo em como vão contar as histórias quando estiverem aqui em baixo. Às vezes, nem esperam descer já começando a dividir virtualmente em tempo real suas histórias ainda lá do cume durante a descida.

Continuo me achando um ser montanhês daquele que não se aventura a ser mais rápido ou mais conectado e sim respeitando aquele montanhismo, mantendo o meu tipo de respeito ao ambiente de montanha, o envelhecimento do esporte, critérios de autossuficiência.

Acho que o Guilherme também.
(Nelson Barretta, o montanhista brasileiro com mais experiência na Antártica)

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OBS: Nessa publicação usei imagens copiadas da Internet em vez de usar, como é o padrão desse site, imagens produzidas por mim ou produzidas por terceiros em aventuras onde participei. Peço desculpas pela exceção. 

13 respostas para “EVEREST: A ANTIMONTANHA”

  1. Edson Passold disse:

    Sensacional. Vc disse tudo.

  2. Paulo Alexandre Wenderroschy Frez disse:

    Excelente texto!
    Todo montanhista ou que se acha montanhista deve ler esse artigo. Esclarecedor, rico, e que proporciona uma viagem mental durante a leitura. Realmente, a mídia intitula cliente como montanhista e são coisas muito diferente.
    Obrigado por compartilhar esse artigo.

  3. Filipe disse:

    Belo texto. Hoje vivemos num mundo que só o trekking do acampamento base do Everest já gera livros. Estranho, né?

  4. Danillo Arruga disse:

    Artigo simplesmente fantástico, direto e pertinente para a sociedade egocêntrica na qual vivemos hoje em dia.
    Ainda estou digerindo os comentários que ele publicou, alguns muito pertinentes também e outros que infelizmente não entenderam a crítica do qual o Guilherme fez em seu artigo e dão respostas centradas no EU.
    Isso é uma prova que mesmo vivendo anos nas e para as montanhas e/ou aventuras, o pensamento centrado no capital ainda se sobrepõe ao pensamento de comunidade.

  5. Rodolpho Ugolini Neto disse:

    Tão bom quanto o texto são os comentários que o seguem.

  6. Thelma Médici Nóbrega, tradutora e acompanhante terapêutica. disse:

    Concordo com a distorção de valores e ideias ao redor do montanhismo que você diagnosticou no evento. Acho que a palavra “ataque” já resume essa vontade de vencer a montanha,
    assim como os ocidentais sempre viram a natureza como um obstáculo a ser superado no caminho do progresso.
    Seu texto – como sempre extensamente pesquisado e primorosamente escrito –
    me fez pensar na comercialização e banalização do significado de ir à montanha. Também a vejo montanha como um lugar onde podemos nos livrar por alguns momentos do ego e experimentar um pouco de paz. No entanto, agora está se tornando um local de promoção e exaltação de egos,
    ansiosos para descer até um local com sinal e postar as fotos no Instagram tiradas “lá no topo”.
    Lembrei de uma passagem do evangelho onde Jesus, depois do milagre da multiplicação,
    temendo que o povo o carregasse nos ombros como um rei, “retirou-se em silêncio para a montanha”.
    Falando em evangelho, agora do antigo, acabei de voltar do Egito, onde subi o Monte Sinai
    para ver o famoso nascer do sol. Fui com um guia beduíno (todo mundo sobe com um, é lei),
    que me levou por um caminho um pouco menos abarrotado de turistas, belíssimo, ao longo
    de um “wadi”, mas ao chegar ao topo, o encontro com a turba era inevitável. O guia beduíno
    parecia deslizar sobre as pedras, apenas de túnica de algodão e sandálias de nylon, contrastando com as grifes e as marcas esportivas que nos cercavam.
    Eu sabia que seria assim. Não fui com os grupos de turistas que saem das cidades à beira do Mar Vermelho. Cheguei um dia antes e fiquei numa pousada no deserto, na base de outros montes. Meditei e tentei estar presente apenas ao que acontecia no momento e não deixar que meus
    julgamentos interferissem com a natureza sobrenatural daquele lugar.
    É que tudo hoje parece “fake” ou “phony”, como já dizia o Holden Caulfield. Até mesmo o mosteiro
    medieval de Saint Catherine, na base do Monte Sinai, invadido por turistas entediados. Ouvi
    um papo atrás de mim no caminho sinuoso até a entrada: “You know, I won’t pretend that
    I’m not a fan of fast food, but over here it really sucks. Is there any good one at the resort?”
    “Oh, Popeyes is the best!” Mais alguns passos e estávamos diante sarça ardente.
    Enfim, acho que o lugar é místico, mágico, estonteante e ainda retém algo de sagrado e misterioso –
    diferentemente do monte Everest, cujo processo de degradação comercial você tão bem detectou e descreveu. Agora eu sonho em fazer a Sinai Trail, que tem 220km e leva doze dias para percorrer. Lembrei também da famosa citação do Thoreau – basta trocar “woods” por “mountain”, como você fez, para perceber o que está sendo perdido e que passa longe da cabeça desses alpinistas instagramáticos:
    “I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, (…)
    and not, when I came to die, discover that I had not lived”.
    Parabéns por essa crítica lúcida, escrita na mesma prosa leve e poética que permeia
    e caracteriza sua literatura de viagem. O parágrafo final é sublime.

  7. Paulo Remota disse:

    Concordo demais com o artigo e venho tendo esta sensação de atropelamento massivo dos lugares icônicos de nosso planeta há muito tempo. Pelo menos, nos poucos onde pude me aventurar. Vendo as fotos das filas de escaladores de ocasião para subir ao cume do Everest e imaginando o mundo de lixo, fezes, embalagens e, como todos já viram, cadáveres abandonados, me vem à cabeça uma cena do filme Matrix, onde o replicante humanoide Smith, interroga Morpheus e acaba ele mesmo, um replicante, desabafando que considerava a espécie humana um vírus, que destrói todo o lugar que ocupa e, quando não há mais nada, infecta outro e assim por diante.
    Há 24 anos fiz o Caminho Inca até Machu Picchu de forma autossuficiente e já naquela época fiquei contrariado e irritado com o considerável número de estrangeiros que pagavam porteadores peruanos, que levavam mochilas, fogões, panelas, barracas, colchonetes, banquinhos e outro mimos. Porteadores são uma gente sofrida, com muitas varizes nas pernas, carregando pesos obscenos para turistas que queriam, grande parte deles, simplesmente documentar que estiveram ali, dar gargalhadas, se embebedar de noite e levar para seus amigos as fotos e os relatos de seus feitos no mundo inca. Gente, em sua maioria, que olha sem ver. Que não observa a natureza, que nada sabe de mapas, de clima de história, de problemas sociais de quem carrega sua carga como se fosse uma mula. A caminhada dura 3 ou 4 dias, não me lembro. Esse é o tempo que os “grandes exploradores”, que nada carregam, levam para vencer o Caminho Inca. Um porteador peruano me confidenciou que eles mesmos, se necessário fazem tudo em 8-10 horas.
    Cavallari, neste artigo, coloca o dedo na ferida, para não dizer noutro lugar de gente que compõe esse mundo de “vencedores” da natureza. O turismo de aventura de massa é uma praga. Incomoda, destrói a harmonia, o silêncio e a calma dos lugares.
    A Patagônia, minha grande paixão está no mesmo caminho. Há tempos acalento o sonho de um dia fazer a travessia da Península Mitre, que até pouco tempo considerava selvagem e inóspita. Tarde demais. Já estão fazendo em quadriciclos, aos montes. E, me disseram que há vôos de helicóptero desde Ushuaia, que incluem um almoço numa praia quase inacessível. Eu lamento demais este turismo avassalador. Progresso vazio.
    Dá uma gastura pensar que lugares vazios, desafiadores, desertos, cheios de vida, poesia e que embalam meus sonhos estão se tornando, conforme mencionei no início deste texto, o que o replicante Smith profetizou no filme Matrix. Isso em 1984.

  8. Joao Marcos disse:

    Também compartilho da mesma opinião. Parabéns pelo texto e pela ideia dos comentários que enriqueceram muito a reflexão.

  9. JOSE RICARDO SOUZA DA SILVA disse:

    Muito bom, o único livro que li sobre foi No Ar Rarefeito, na época que li até me interessava sobre, mas já tem um bom tempo que nada sobre “teto do mundo” me fascina.
    Em resumo:
    A montanha “mais perto do céu” depende se a pergunta se refere à altitude ou à distância geométrica em relação ao centro da Terra. O Monte Everest é o mais alto, mas o Monte Chimborazo no Equador é mais distante do centro do planeta.

  10. Rafael Precioso disse:

    O montanhismo, tal como praticado hoje em grande parte do mundo ocidental, carrega os vestígios de uma lógica colonial e capitalista. Subir montanhas tornou-se um feito individual, uma meta esportiva, uma performance — muitas vezes distante do respeito profundo que esses territórios sempre exigiram e inspiraram.

    A montanha, que para tantos povos originários é lugar de rezo, silêncio e comunhão com o sagrado, passou a ser tratada como um palco de superação pessoal, conquista física e conteúdo para redes sociais. O que era espiritual virou produto. O que era território sagrado virou trilha ranqueada.

    Essa prática despolitizada e desespiritualizada do montanhismo ignora histórias, apaga memórias e segue fortalecendo uma lógica que vê a terra como cenário e não como sujeito.

    Além disso, a elitização das práticas de aventura reforça desigualdades raciais e sociais. Poucos acessam, poucos “conquistam”, e quase ninguém se pergunta: quem estava aqui antes de nós? De quem era essa montanha antes de virar rota de GPS?

    É urgente ressignificar o montanhismo.
    Reconhecer que caminhar na montanha não é apenas um ato físico, mas político e espiritual.
    Que estar ali exige mais escuta do que pressa.
    Mais reverência do que registro.

    Resgatar os saberes originários sobre essas terras é fundamental.
    Porque a montanha não é um desafio.
    É uma mestra.
    E não se escala uma mestra — escuta-se.

  11. Rafael Eustachio disse:

    Acabei de voltar do trekking ao base camp do Everest. Tive muitos momentos de reflexão sobre o tema do texto, mesmo ainda sem ler e sem tantas referências pessoais bibliográficas ou não.
    Conheci muita gente que estava ali somente pelo ego de chegar ao cume. Não identifiquei essas pessoas como montanhistas, senti elas mais como grandes empresários com recursos para ter equipamentos e gente para levar eles a qualquer cume.
    Alguns sequer queriam fazer o trekking ao BC e encurtar o caminho com recursos de hipoxia. Uma loucura pensar que a pessoa está em São Paulo, dormindo a mais de 4000 metros de forma artificial.
    O mais novo, o mais velho, o mais rápido, o mais seiláoque…
    Mas não se fala no que mais ama a montanha ou no que quer fazer de forma mais natural.
    Ouvi chamar os conservadores, que querem fazer sem oxigênio, de loucos.
    Os Sherpas sobem os morros até com sofás, para dar conforto aos super acampamentos do BC.
    Tem até empresas que oferecem barracas com categorias de conforto diferentes. Tem barracas aquecidas no BC do Everest.
    Tem de tudo.
    Eu estava um pouco no meio disso tudo, usufruindo também do meu pouco poder aquisitivo, mas que me permitiu estar lá, tomando alguns banhos quentes no caminho e recebendo toalhinhas quentes de manhã na barraca.
    O turismo tem que acontecer, é saudável e se convertido em conhecimento, história e com responsabilidade e respeito pelo ambiente, vale o uso dos seus recursos.
    Mas penso que subir o Everest e outras montanhas, é mais que uma questão financeira e sim uma corresponsabilidade com a grandiosidade do feito.
    O texto e os comentários são cirúrgicos, cada um da sua forma.

    Obrigado pelas referências bibliográficas.
    Anotei vários pra ler.
    Forte abraço Gui.

  12. LUIZ HENRIQUE MANICA CARDOSO disse:

    Guilherme Cavallari, seu texto “Everest: A Antimontanha” é uma obra-prima que transcende a simples narrativa de montanhismo. Você nos conduz por uma reflexão profunda sobre a essência da aventura, questionando a busca desenfreada por conquistas superficiais e destacando a importância da autossuficiência e do respeito à natureza.

    Sua crítica à comercialização do montanhismo, onde o verdadeiro espírito de superação é substituído por pacotes turísticos de luxo, é contundente e necessária. Ao trazer à tona histórias como a de Göran Kropp, que pedalou da Suécia ao Nepal para escalar o Everest de forma autossuficiente, você nos lembra do valor da jornada em si, não apenas do destino final.

    Essa abordagem ressoa profundamente com aqueles que valorizam a conexão genuína com a natureza. Acampar na floresta com recursos mínimos é uma prática que nos ensina resiliência, humildade e uma apreciação mais profunda pelo mundo natural. É uma forma de nos reconectarmos com o essencial, longe das comodidades modernas que muitas vezes nos distanciam da verdadeira experiência de estar na natureza.

    Sua escrita nos inspira a buscar aventuras autênticas, onde cada passo é uma oportunidade de aprendizado e crescimento pessoal. Obrigado por compartilhar sua visão e por nos lembrar do verdadeiro significado de explorar o mundo ao nosso redor.

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