2013, abril – revista VIAGEM E TURISMO

8 de abril de 2013

O PEDAL DO PUMA

Ele decidiu não seguir os caminhos triviais e foi parar na Patagônia, numa viagem solitária de bicicleta por longos seis meses

TEXTO E FOTOS GUILHERME CAVALLARI

Enxergo a vida como uma série de desencontros pontuada de ocasionais encontros. Quando escolhemos viver em determinado país ou cidade, quando escolhemos viver com alguém, fechamos as portas dos nossos corações para o resto do mundo… Escolhas: escola, faculdade, casamento, paternidade, profissão, carreira. Às vezes admiro quem vive seguindo caminhos já mapeados, navegando a potente corrente desenhada pela sociedade. Nunca consegui isso. O rumo que dei à minha vida me trouxe até aqui: Puerto Varas, Chile, no começo de uma viagem de bicicleta de seis meses de duração, pedalando oito horas diárias, em média. Não é sina, não é destino, mas o resultado das escolhas que fiz, dos caminhos que tomei. Todo o equipamento é transportado em um trailer acoplado à roda traseira da bike – cerca de 30 quilos de material e alimentos. Uso pequenas cidades de base para descansar, recarregar pilhas e baterias (não é uma metáfora) e lavar roupas. Durmo em campings, albergues, cabanas, quintais. Como bastante Miojo.

Um bom começo
A Serra de Queulat foi minha prova de admissão da viagem: três horas de subida. Mas o dia era lindo, com os picos nevados baixando lentamente à altura dos meus olhos, as fontes de água cristalina de degelo escorrendo ao lado da estrada entre flores e borboletas. Quase de surpresa cheguei ao topo da montanha. Um bom começo.

O fim da Cordilheira
Na região de Hornopirén observei um fenômeno geológico único: a Cordilheira dos Andes chegando ao mar, como se molhasse seus pés na água. Formam-se fiordes, corredores de mar espremidos entre paredes quase verticais de montanhas. Mas às vezes também passo por trechos nada cênicos, monótonos, em que sinto que a viagem não depende unicamente da beleza da paisagem. Viagem é autoconhecimento. Sem distrações lá fora, tenho tempo para observar o cenário que muda dentro de mim.

O vento
O vento é um dos meus maiores desafios. De dar dor de ouvido e arrancar etiqueta de roupa (juro). Ele foi intenso no caminho de Chile Chico, durante 72 quilômetros de estrada. A sorte foi o visual que me cercava: as águas azuis do Lago General Carrera, montanhas nevadas ao fundo, os pampas com seus arbustos ressequidos pintados de tons de ocre, amarelo, verde, roxo… Na saída da cidade, o vento como que tinha duas mãos postas no meu peito, impedindo o deslocamento. Para piorar, nessa estrada esculpida em rocha havia sulcos por onde ele encanava. Chegou a me derrubar da bicicleta.

Amicci miei
No caminho, faço amigos que se tornam próximos tão rapidamente quanto somem da minha vida. Como a professora americana Rebecca Church, com quem pedalei rumo Coyhaique. Ou os três sessentões que encontrei na Laguna Verde, que me convidaram para um cordeiro na fogueira, típico asado local. O italiano disse: “Ciclisti sono tutti matti” (Ciclistas são todos loucos). Às vezes eu também acho.

O voo dos condores
Havia seis condores voando acima da minha cabeça. Pensei: “Sai prá lá! Não sou carniça ainda!” Depois me dei conta de o que está à minha volta não depende de mim. Quando eu não estiver mais aqui, os condores, os pumas, os fiordes e as lagoas simplesmente continuarão.

Vitórias e derrotas
Não dá para ganhar todas na Patagônia. Por isso às vezes é importante saber desistir. Quando estava sem o trailer e queria explorar a Sierra Baguales, resolvi viajar com pouco equipamento. Os primeiros 15 quilômetros foram tranquilos e cênicos, acompanhando o sinuoso Rio Calafate. Depois, o terreno foi ficando pior. Havia pegadas de pumas por todos os lados. O problema é que não conseguia me aquecer de jeito nenhum. Já estava com toda minha roupa sobre o corpo e não tinha fogareiro para fazer um chá. Se tivesse que atravessar um rio, teria com certeza hipotermia. A bicicleta havia se tornado um estorvo e eu a empurrava. Decidi voltar, vencido, para El Calafate.

Veja mais sobre a expedição no www.viajeaqui.com.br e no site www.kalapalo.com.br

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