Há cinco semanas vivo na roça. Cinco semanas sem assistir televisão. Mas, ontem acabou meu sossego, um técnico veio instalar uma parabólica no telhado da minha casa. Minha mulher, Adriana, fez questão de ligar a TV… “Para assistir ao Jornal Nacional”, segundo ela.
Enquanto esperávamos o bendito jornal começar, assistimos a alguns comerciais de televisão. Anúncios de carro, imóveis, mais carro, sabão em pó, mais carros. E a Adriana comentou que o queijo que havíamos comigo no almoço, em um delicioso risoto, era feito de leite de cabra produzido por um vizinho. Eu comentei que cabras eram ótimas para aparar a grama. Ela retrucou que seria ótimo ter cabras em volta da casa, mas que a grama já estava bem cuidada, comida regularmente por vacas e cavalos que pastam ao nosso redor diariamente.
No mesmo instante, começa um comercial de lava-louças com uma ovelha disfarçada de cortador de grama. E o locutor diz: “Hoje em dia lavar louça na mão faz tanto sentido quanto… Usar uma ovelha para cortar grama”.
A imagem na tela da TV mostrava, como opção ao cortador de grama forrado de lã, um cortador de grama de verdade movido a eletricidade ou gasolina. Uma daquelas máquinas de barulho estridente, insuportável, que cospe folhas decapitadas de grama para o lado.
Cinco semanas na roça, depois de cinquenta anos na cidade grande, e já aprendi que cortar a grama é uma estupidez, uma perda de tempo e um desperdício de energia, elétrica e humana.
Grama é pasto, é alimento. A vaca come a grama e produz leite, que vira queijo, requeijão, iogurte. A Adriana já faz tudo isso em casa, tudo fresco e supersaboroso. Grama cortada à máquina vira lixo que depois tem que ser recolhido, empilhado, queimado. Imagine queimar comida!
Eu não cozinho, não sei e não gosto de cozinhar. Mas gosto de comer e de comer muito bem. Depois de cada refeição, vou para a cozinha e lavo toda a louça. Faço tudo com muito carinho e atenção, feliz da vida. Fico satisfeito em lavar a louça e participar, de alguma forma ativa e produtiva, do processo de alimentação, de produção de comida. Enquanto lavo pratos, copos, talheres e panelas, lembro do que comi, penso no que vou fazer mais tarde, assobio canções, rio sozinho.
Eu já tive máquina de lavar-louças. Usei alguns meses e aposentei. O barulho me incomodava, o consumo de energia elétrica me incomodava, o desperdício de água me incomodava e, principalmente, a preguiça que a máquina alimentava me incomodava. Se existe um sentimento que eu odeio, é a preguiça. Ela é a principal assassina da humanidade. A preguiça nos afasta de nós mesmos e nos aproxima da escravidão. Viramos escravos de um monte de máquinas por conta da preguiça.
Esse comercial de lava-louças me deixou pensativo, nem consegui prestar atenção ao Jornal Nacional. Fiquei imaginando se eu era doente. Eu devo ser doente, imaginei, afinal se uma empresa grande, rica e poderosa contrata uma agência de publicidade também grande, rica e poderosa, para produzir um comercial de um produto para veiculação no maior, mais rico e poderoso canal de TV do Brasil, é porque toda essa gente sabe o que é bom para a população, o que é bom para mim. Se esses profissionais de comunicação entendem que alguém que pense em cortar grama com ovelhas é estúpido, eu definitivamente devo ser estúpido.
Como explicar que eu realmente acredito que ter ovelhas, cabras, vacas ou cavalos comendo minha grama é melhor do que ter um cortador de grama bebedor de gasolina, barulhento, cuspidor de mato e esfumaçante? E tem mais… Como explicar que eu acredito de verdade que viver longe da grama, do verde, do mato, é burrice? E para piorar de vez… Como explicar que eu sinceramente acredito que lavando a louça à mão depois das refeições eu exercito humildade, generosidade, parceria com quem cozinhou para mim? Eu já pensei inclusive em lavar meu prato, pelo menos meu prato, em todos os restaurantes onde eu comer pelo resto da minha vida…
A estréia da TV em casa foi assim… A Adriana dormiu logo na primeira parte do superficial Jornal Nacional. Eu fiquei pensando em ovelhas, cabras e cortadores de grama, incapaz de entender o que passa pela cabeça desses publicitários sem inspiração, que torcem e destorcem a realidade para vender o inútil… Um tipo de publicidade que, de fato, não é assim nenhuma Brastemp.

Amei!