RELATO E FOTOS DA CICLOMANTIQUEIRA 2015

12 de junho de 2015
Matadouro em S. José do Alegre... Todo mundo se faz de morto!

Matadouro no caminho… Todo mundo se faz de morto! E alguns levam a brincadeira bem a sério… rss

A PROPOSTA

Desde que criei, desenhei e publiquei o roteiro de cicloturismo em mountain bike CicloMantiqueira, disponível no Guia de Trilhas CicloMantiqueira (link), tento fazer pelo menos uma vez ao ano algum trecho do percurso. E sempre que posso, levo um pequeno grupo comigo, para que mais gente se encante com os prazeres de pedalar pelas montanhas do Brasil…

Típico trânsito de veículos na Serra da Mantiqueira...

Típico trânsito de veículos na Serra da Mantiqueira…

Desta vez o roteiro escolhido foi: Gonçalves (MG), onde moro e administro o REFÚGIO KALAPALO (link), Brazópolis (MG), Itajubá (MG), Campos do Jordão (SP) e de volta a Gonçalves. Um total de 204 km e mais de 5.300 m acumulados de subidas e descidas em 4 dias de pedal. Números que só a Serra da Mantiqueira consegue oferecer no Brasil…

Mar de montanhas e céu azul que mais parece roxo... Mantiqueira!

Mar de montanhas e céu azul que mais parece roxo… Mantiqueira!

No terceiro dia de viagem, chegamos ao ESPAÇO ARAUCÁRIA (link), próximo a Campos do Jordão, para participar do 14º Encontro Nacional de Cicloturismo, organizado pelo Clube de Cicloturismo do Brasil (link), onde fiz o lançamento do livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS (link) e exibi o premiado filme-documentário TRANSPATAGÔNIA (link para o trailer), de Cauê Steinberg, baseado nas imagens coletadas por mim durante os seis meses da EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA (link para fotos).

O GRUPO

Quatro aventureiros embarcaram na cicloviagem comigo: Flávia Cerruti, Robson Marcelo Batista, Estevam Rezende e Maurício Ayer.

A Flávia está se preparando para uma guinada em sua vida, uma longa viagem de bike pelo sul da América do Sul e usou essa nossa experiência juntos para treinar, aprender, fazer contatos e sintonizar com sua próxima aventura. Ela já havia pedalado o Caminho de Compostela.

Cicloviagem Junho 2015 (66) REDUX

Maurício estreando a bike nova em trecho entre São Bento do Sapucaí e Brazópolis…

O Robson é veterano do Caminho de Compostela e escreveu um livro bem legal sobre sua experiência pedalando pela Europa. Ele também planeja pedalar no sul, pela Carretera Autral, e esta cicloviagem serviu de incentivo e direcionamento a ele.

O Estevam, que veio lá do Rio de Janeiro especialmente para pedalar conosco, também já fez o Caminho de Compostela, é mountain biker experiente, mineiro de nascimento, e matou as saudades das montanhas de Minas Gerais nesses quatro dias de sobe e desce. Ele escolheu passar o aniversário de 34 anos, que foi no sábado, suando ao nosso lado.

Já o Maurício, que começou a pedalar faz pouco tempo e participou da última turma do meu CURSO DE MOUNTAIN BIKE E CICLOTURISMO (link), nunca fez o Caminho de Compostela – acho que ele e eu somos um dos únicos no país, hehehe – e está planejando um rolê por Portugal de bike e fez dessa cicloviagem um grande laboratório para testar sua resistência física e todo o equipamento.

Grupo reunido para a partida no segundo dia de viagem, em Brazópolis (MG)

Grupo reunido para a partida no segundo dia de viagem, em Brazópolis (MG)

Eu sou macaco velho na bike e na Mantiqueira! Dirijo a KALAPALO EDITORA (link) há 15 anos e não perco uma oportunidade de pegar a bike e sumir…

PRIMEIRO DIA

Tudo começou no REFÚGIO KALAPALO, onde todos se encontraram na quarta-feira, 3 de junho de 2015, para um delicioso jantarzinho leve e uma boa noite de sono. E quem já experimentou a comida e a acolhida que minha mulher, Adriana Braga, oferece, sabe do que estou falando…

Clássica foto de saída, todos em frente ao Refúgio Kalapalo, Gonçalves (MG)

Clássica foto de saída, todos ainda limpos e descansados em frente ao Refúgio Kalapalo, Gonçalves (MG)

E na quinta-feira, 4 de junho de 2015, feriado de Corpus Christi, saímos da porta de casa em Gonçalves (MG) e zarpamos para Brazópolis, com uma parada para comer algo em São Bento do Sapucaí (SP). De cara despencamos o Serrano, uma serra íngreme, parando para estrear um mirante recém-construído no topo da montanha. Em São Bento encontramos as ruas do centro decoradas com os tradicionais tapetes de serragem colorida esperando a procissão católica do feriado santo.

Pedra do Baú com o cemitério de São Bento do Sapucaí em primeiro plano...

Pedra do Baú com o cemitério de São Bento do Sapucaí em primeiro plano…

Para chegar a Brazópolis cruzamos a fronteira entre os estados de São Paulo e Minas Gerais quatro vezes, com a serra do Cantagalo no meio do caminho para “aquecer as turbinas”. O dia estava limpo e lindo e pudemos ver o espetáculo do Complexo do Baú no horizonte próximo. No final, fizemos 57 km e chegamos ao nosso destino perto do fim do dia.

SEGUNDO DIA

De Brazópolis seguimos para Itajubá por um caminho alternativo, mais longo, publicado no meu Guia de Trilhas enCICLOpédia (Vol. 4) (link), que passar pelo bairro rural de Olegário Maciel e ao lado do município de São José do Alegre (MG), cruzando o Rio Sapucaí duas vezes e o Rio Lourenço Velho uma vez. Foram 49 km de poucas subidas, tempo aberto e paisagens rurais.

A pequena Luminosa, vista do topo da serra, em direção a Brazópolis...

A pequena Luminosa, vista do topo da serra, em direção a Brazópolis…

Nosso companheiro Robson nos surpreendeu nesse trecho tirando “um coelho da cartola”… Por não estar em sua melhor forma física, ele se preveniu e trouxe alguns metros de corda fina para improvisar um “reboque de emergência”… Faltando cerca de 14 km para nosso destino, ele parou um motociclista de trilha que seguia na mesma direção que nós, se amarrou na moto e “pegou uma carona”. Fiquei maravilhado com a engenhosidade e eficiência da solução e decidi que vou adotá-la de agora em diante. Vou levar sempre um pedaço de corda comigo em minhas próximas cicloviagens! Valeu pela ideia Robson! Genial!

TERCEIRO DIA

Foi difícil deixar o conforto de Itajubá, onde ficamos hospedados no excelente Hotel Amantikyr (link), que recebe cicloturistas como ninguém na cidade! Com piscina no terraço, massagista à disposição, café da manhã reforçado e camas e chuveiros confortáveis, deu até vontade de ficar mais um dia descansando…

Tapete de cerragem em São Bento do Sapucaí, á espera da procissão de Corpus Christi...

Tapete de serragem em São Bento do Sapucaí, á espera da procissão de Corpus Christi…

Mas esse era um dia chave! Dia de subir a montanha!

De Itajubá evitamos o máximo que pudemos o asfalto que vai até o município de Piranguçu e chegamos ao pé da serra de Campos do Jordão antes do horário do almoço. Uma parada rápida em Piranguçu e tocamos morro acima…

Cicloviagem Junho 2015 (83)

Mirante do Serrano, São Bento do Sapucaí, com um cobertor de nuvens sobre o vale… Mantiqueira!

Para ajudar nosso amigo Robson, Maurício e eu bancamos os “cachorros de trenó” e nos engatamos à bicicleta dele com fitas de escalada, elásticos e um mosquetão que eu havia levado na mochila especialmente para esse fim. Por 3 km pedalamos os três amarrados, dividindo o esforço e fazendo um verdadeiro trabalho de equipe. Mas no final prevaleceu a inteligência do Robson à minha solução bruta e ele se engatou a outra moto para terminar de subir a montanha.

Engenhoso sistema de reboque feito de fitas de escalada, elásticos e mosquetão...

Engenhoso sistema de reboque feito de fitas de escalada, elásticos e mosquetão… Quem precisa de bike elétrica?

Em Vila Maria, na Represa de São Bernardo, deixamos o percurso mapeado no Guia de Trilhas CicloMantiqueira e fomos direto ao Espaço Araucária e ao Encontro Nacional de Cicloturismo, onde minha esposa, Adriana, nos encontraria de carro e traria todo nosso equipamento de camping. Pedalamos cerca de 42 km totais, sendo os últimos 20 km entre bosques de araucárias num sobe-e-desce refrescante e sombreado de altitude.

Estevam, Maurício, Flávia e Robson, meus companheiros de CicloMantiqueira, em frente ao Espaço Araucária...

Estevam, Maurício, Flávia e Robson, meus companheiros de CicloMantiqueira, em frente ao Espaço Araucária…

No Encontro Nacional de Cicloturismo fomos recebidos por outros 80 ciclistas e amigos, gente entusiasmada e entusiasmante, o melhor público possível para a exibição do documentário TRANSPATAGÔNIA e o lançamento do TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS. Impossível para mim me sentir mais “em casa”!

QUARTO DIA

Perdemos um companheiro e ganhamos dois acompanhantes. O Robson terminou a viagem de carro com a Adriana, cansado e feliz, tendo cumprido com louvor a missão de dar o máximo de si. Pedalar pela Mantiqueira não é brincadeira e saber a hora de parar é sinônimo de sapiência!

Flavia cruzando a linha de chegada, ou as linhas de chegada, quando o chão parecia um código de barras...

Flávia cruzando a linha de chegada, ou as linhas de chegada, quando o chão parecia um código de barras…

Hendrik e Ana, amigos queridos de Indaial (SC), vieram passar uma semana de férias comigo e Adriana em casa e trouxeram sua tandem, sua mountain bike dupla. Essa bicicleta já foi minha no passado e viveu comigo aventuras inesquecíveis, foi um prazer revê-la e um prazer maior ainda vê-la em mãos (ou pernas) tão hábeis.

Hendrik e Ana, de tandem, nas montanhas da Mantiqueira...

Hendrik e Ana, de tandem, nas montanhas da Mantiqueira…

Do Espaço Araucária subimos até Campos do Jordão, já que nosso acampamento estava no lado mineiro da divisa, e despencamos a serra de volta a São Bento do Sapucaí. Fizemos uma parada estratégica de reabastecimento e recuperação de forças e tocamos montanha acima pelo Serrano até o REFÚGIO KALAPALO.

Esse foi o dia mais longo e mais extenuante da viagem, com 56 km de extensão e quase 2.000 m acumulados de subidas. No pé do Serrano o Estevam foi obrigado a pegar carona morro acima numa caminhonete para não comprometer sua longa viagem de carro de volta ao Rio de Janeiro. O resto do grupo, comigo, chegou ao REFÚGIO KALAPALO às 17h30 com a claridade do dia morrendo lentamente.

Bauzinho, Pedra do Baú e Ana Chata, as elevações rochosas que formam o Complexo do Baú...

Bauzinho, Pedra do Baú e Ana Chata, as elevações rochosas que formam o Complexo do Baú…

ENCERRAMENTO

Banho quente, jantar farto, pernas pra cima e um recital de violão do Maurício Ayer, nosso companheiro ciclista e músico, encerraram a noite. Era domingo e quem podia dormiu no REFÚGIO KALAPALO e só voltou para casa na segunda-feira de manhã. O corpo dolorido e fraco pedia descanso e comida boa, a mente relaxada e límpida como os riachos da Mantiqueira estava pronta para qualquer coisa. Poucas atividades que conheço têm um poder maior de revigorar que pedalar as montanhas da Mantiqueira em boa companhia…

Vista do Refúgio Kalapalo, em Gonçalves (MG)...

Vista do Refúgio Kalapalo, em Gonçalves (MG)…

Obrigado aos meus novos irmãos de alma que compartilharam comigo essa experiência inesquecível! Até a próxima!

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