CALOR TROPICAL
Se eu soubesse que o sol era tão quente nas Highlands da Escócia, tinha trazido minha sunga… Sério!
Faz dias, nem sei quantos, que não vemos uma nuvem no céu. Os escoceses estão extasiados, sofrendo de câimbras nas bochechas de tanto sorrir. Alguns estão queimados pior do que alemão careca em Parati (e quem já foi pra Parati no verão sabe o que estou dizendo).
Ontem, no acampamento selvagem que Adriana e eu fizemos ao norte da Ilha de Raasay, fazia um calorzinho tão bom e eu estava tão suado e grudado de suor velho que tomei um banho de rio… Justo eu, que chego a passar duas semanas sem tomar banho por medo de água fria! Mas não pensei duas vezes e me banhei no riacho geladinho. Que alívio!
SANDAIG
Desde o último post no blog, em Loch Cluanie, no oitavo dia da viagem, muita coisa aconteceu… Completamos hoje no décimo segundo dia da Expedição Highlandas Tandem Kalapalo e já pedalamos um total de 500 km.

Sandaig, visto do braço de terra bem em frente à praia. Reparem na devastação causada pelo corte das árvores… Mas o lugar é mesmo assim encantador!
De Loch Cluanie descemos a montanha gelada até a beira-mar para acampar, como programado, em Sandaig, perto de Glenelg e da pequena balsa que nos trouxe até a Ilha de Skye. Não foi fácil chegar a essa praia deserta e ponto de peregrinação de amantes da natureza e de boa literatura. Uma empresa de reflorestamento destruiu toda a floresta em torno do santuário e, em vez de trilha, havia um labirinto de reflorestamento para chegar à praia. Nesse lugar o escritor escocês Gavin Maxwell escreveu Ring of Bright Water, um livro lido por milhões de pessoas em todo mundo e que marcou profundamente uma geração.
Não éramos os únicos visitantes acampados ali, encontramos um escocês gordinho, cabeludo e barbudo com dois cachorros labradores, uma fêmea marrom e um macho preto. O cara era muito simpático e comentou com a Adri que “achava muito bonito ver nós dois pedalando juntos”. Ele estava visitando as cinzas da mãe, que ele espalhou em Sandaig nove meses atrás.
Adriana e eu armamos nossa barraca aos pés de uma grande árvore, uma tramazeira, conhecida em inglês por Rowan Tree, próximo ao monumento erguido à lontra Edal, protagonista do livro Ring of Bright Water. As cinzas de Gavin Maxwell estavam num outro monumento também próximo.
A BALSA ROTATÓRIA DE GLENELG

Paramos nesse mirante no topo de uma serra íngreme e aparentemente sem fim. As montanhas mais altas ao fundo (The Five Sisters of Kintail) nos acompanharam por boa parte da viagem, nós cruzamos o vale abaixo delas.
No dia seguinte seguimos viagem e cruzamos um estreito braço de mar chamado Kyle of Rhea. Essa pequena embarcação histórica tem uma plataforma rotatória e transporta apenas seis veículos por viagem. A tripulação é composta de dois marinheiros e um cachorro border collie, que ajuda a recolher as cordas e avisa quando alguma lontra chega perto do barco. Graças aos seus latidos pudemos ver, de longe, uma lontra que caçava n’água.
Uma vez nas ilhas, e Skye não é exceção, não teremos muitas opções de estradas e seremos obrigados a pedalar por asfalto a maior parte do tempo. A vantagem é que os motoristas são muitos respeitosos e chegam a permanecer por muito tempo atrás da nossa bike, sem nos apressar, até aparecer um espaço seguro para ultrapassagem. E quando nos ultrapassam, usam a pista oposta, para deixar a pista onde estamos rodando exclusivamente para nós… Bem parecido com o trânsito no Brasil.

Fui pego desprevenido! Cochilando depois de um almoço de sopa de frutos do mar e peixes… Estava quente demais para pedalar e nós tínhamos uma montanha pela frente ainda. A casa ao fundo é a Raasay House, lar dos lordes de Raasay.
Dormimos mais uma noite em barraca num camping na beira da estrada, numa garagem de veleiros próximo à vila de Dunan, a noroeste da cidade de Broadford. O lugar era mantido por um casal idoso de aposentados da Inglaterra e além de quase 20 veleiros, tinha vários carros velhos e uma quantidade de sucata indescritível. Por sorte nosso local de acampamento era limpo, bonito e tinha uma vista privilegiada para o mar.
Hoje vamos dormir num Youth Hostel, num Albergue da Juventude, na capital da Ilha de Skye, Portree. Uma chance de uma cama de verdade, banho quente e sinal de internet.

Esperando a liberação de embarque para a balsa de Raasay de volta à Ilha de Skye, nas Highlands da Escócia. A placa na tandem foi encontrada na rodovia…
PROBLEMINHAS MECÂNICOS
Várias pessoas perguntaram se a tandem está aguentando bem. A resposta é: “Sim!”. Tive alguns probleminhas mecânicos que consegui resolver… O pedivela dianteiro esquerdo vive soltando, mas acho que hoje, com a ajuda de um martelo de borracha, acho que solucionei de vez a questão. Troquei as pastilhas do freio hidráulico traseiro ontem, que nem estavam tão gastos, mas estavam guinchando um pouco. Ontem tomei um pequeno susto… O Center Lock (sistema de fixação) do disco de freio dianteiro soltou e achei que tinha quebrado; apertei com meu canivete dobrável (não ficou perfeito) e tudo bem, não soltou mais.
Adriana e eu estamos bem de saúde, acho que cada dia mais fortes e cada dia com mais dor na(s) bunda(s). A tandem exige que a gente fique muito tempo sentados, nas subidas porque a bike é pesada e lenta, nas descidas porque é preciso embalar para a próxima subida. A roda traseira, que era meu maior medo, continua firme e forte, mais alinhada impossível.
Amanhã vamos tentar chegar a um bothy isolado no extremo norte da Ilha de Skye e dormir lá. O lugar tem o apelido de “Lookout” porque era uma antiga estação de observação marítima, ótimo local para avistamento de baleias, e tem capacidade de abrigar algumas poucas pessoas. No dia seguinte vamos pegar outra balsa para chegar às ilhas de Harris e Lewis, as maiores das Hebrides, que é o grande arquipélago no noroeste da Escócia.

Rumo ao norte da Ilha de Raasay, nas Highlands da Escócia. Descanso para relaxar as pernas… E a bunda!
TANDEM E CASAMENTO
Um amigo me disse, ainda no Brasil e logo antes da gente viajar, que “se o casamento de vocês durar essa viagem de bike, vai durar mais 20 anos”. E acho que ele tem razão. Não que a viagem esteja sendo difícil para nós enquanto casal, mas é um laboratório interessante. Quando bate o cansaço, a frustração e o desânimo – e numa viagem de tandem é só uma questão de tempo tudo isso bater – é muito fácil descontar em quem está mais perto. Mas o importante é saber que uma tandem (assim como um casamento) precisa de duas pessoas para rodar bem. E se existe esse compromisso, (de fazer a tandem rodar e o casamento funcionar), tudo se acerta no final.
O que o amor não resolve, uma par de coxas fortes decide a parada.
Tá acompanhando o dia a dia da viagem online e em tempo real pela página compartilhada da expedição via SPOT? Vai lá: http://share.findmespot.com/shared/faces/viewspots.jsp?glId=0mqt1ppkt2pSmaqejVncIr3aNHfz5dGC4
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