QUANDO A AVENTURA SE PAGA

10 de dezembro de 2018

Aventura é uma palavra desgastada. Às vezes acho que ela é usada demais, outras vezes acho que não é usada o suficiente. Pra mim, aventurar-se é se arriscar, aceitar o incerto, explorar limites, se surpreender, às vezes se assustar e até se arrepender. Sim, algumas aventuras dão errado. Se não existir a chance de dar errado, então pode ter certeza que não é aventura.

Estava pedalando minha mountain bike aqui em Gonçalves, na Serra da Mantiqueira, onde vivo, pensando num e-mail que havia recebido dias atrás. Era uma mensagem truncada, mal escrita, confusa, onde um cara me perguntava como eu fazia para sustentar minhas aventuras. Na verdade, ele dizia estar planejando uma viagem de bicicleta pelo Brasil, talvez estendendo-se pela América do Sul, talvez até uma volta ao mundo — era realmente confuso —, e queria saber quem poderia dar uma bicicleta a ele de presente. Ele queria também uma barraca e um saco de dormir, alforjes, peças de roupas, uma ou duas mochilas seriam bem-vindas, um aparelho de GPS usado seria bom e, claro, algum dinheiro.

“Minha aventura tem que ser autossustentável”, ele repetia e repetia ao longo texto. No final, escreveu: “Toda aventura tem que se pagar!”

Gosto de responder o quanto antes as mensagens que recebo. Sinto que se alguém me busca com perguntas, se tenho respostas, mesmo que seja dizer que “não sei”, não gosto de fazer ninguém esperar. Mas esse e-mail me deixou sem jeito. Tentei responder diversas vezes e apaguei o texto.

Meu primeiro impulso foi explicar que “autossustentável” não significa ter alguém pagando nosso sustento. Isso, aliás, era o inverso de autossustentável, que indica sustentar-se a si mesmo… Mas achei que seria grosseria da minha parte. Depois pensei em instruir o cidadão, começar por sutilmente indicar que dar passos do tamanho de nossas pernas e respeitar nossos limites era muito educativo. Afinal, aventura poderia ser um caminho de autoconhecimento. Essa pelo menos é minha filosofia… Mas achei pedante demais. Decidi então ser objetivo e técnico, explicar que no mundo capitalista e utilitarista em que vivemos ninguém dá nada de graça a ninguém, muito menos empresas com fins lucrativos que produzem e vendem bicicletas, barracas e sacos de dormir. Se ele quisesse equipamento, teria que seduzir possíveis investidores do potencial positivo de seu projeto… Mas apaguei o texto ainda no começo. Frio demais, mercantilista demais. E o e-mail foi ficando dias sem resposta.

Eu ia pedalando lentamente, morro acima, quase chegando no ponto em que a estrada passa por atrás da Pedra do Barnabé para descer ao bairro dos Venâncios — pra quem conhece a região —, pensando compulsivamente no que responder ao tal sujeito. Não tenho ideia da realidade do cara, de sua situação econômica, de suas expectativas e frustrações, de seus sonhos e desejos. Não gosto de julgar ninguém. Mas achei sua abordagem da questão da aventura — reduzida a uma lista de objetos supostamente necessários, segundo ele, e dinheiro — completamente equivocada. Podem me chamar de romântico, mas acho que uma aventura autêntica começa com um sonho. Tipo, eu li um livro e desde então sonho em conhecer tal lugar… Eu vi um filme e tal lugar não me sai da cabeça…

Sonhos são mágicos e acabam por abrir portas.

Foi quando entendi que finalmente tinha a resposta que procurava. Aquela era a resposta! Não focar tanto nos objetos e no dinheiro, naquilo que sempre falta e sempre vai faltar porque quanto mais temos, mais queremos ter. O negócio era focar no impalpável, no etéreo, no invisível. Focar nos sonhos! Uma aventura se paga quando somos surpreendidos por algo pequeno e belo, algo que prescinde de explicação, algo essencialmente verdadeiro e que não estava nos planos. Não precisa muito para uma aventura se pagar.

Eu pensava exatamente essas palavras quando um esquilo cruzou meu caminho. Era um desses esquilos comuns, marrom avermelhados, de calda de espanador de pó, olhos redondos como bolinhas de gude e mãos e pés muito grandes. Só que esse esquilo atravessava a estrada de terra carregando uma maçã presa na boca e segura pelas mãos. A fruta era gigante pra ele, comparável a um homem carregando um pneu de trator, como se faz hoje em academias de ginástica. Como eu subia bem devagar, o bichinho não se assustou e não se apressou, apenas atravessou a rua com muito esforço e concentração, pertinho de mim.

Imediatamente minha mente ficou silenciosa. Esqueci o e-mail e percebi que o dia estava lindo, o sol brilhava, havia perfume no ar e abelhas zuniam não muito longe de mim. Eu havia pedalado mais de uma hora sem me dar conta do que acontrecia ao meu redor, imerso nos meus pensamentos obsessivos. O esquilinho sortudo e compenetrado me trouxe de volta à terra. 

De repente, a aventura do dia estava paga. E muito bem paga.

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