Conjecturas sobre uma certa vocação generalizada de coisificar ideias e conceitos, que termina por coisificar a nós mesmos.
TEXTO: Guilherme Cavallari
Vira e mexe, ouço alguém dizer que pretende fazer os Sete Cumes. Quando pergunto: por que? Ouço, basicamente, dois tipos de resposta. A primeira, que encerra todo tipo de diálogo e não interessa a esse texto, ecoa a famosa frase dita pelo escalador George Mallory antes de sair da Inglaterra para morrer no Monte Everest, em 1924: “Porque sim!”. Mallory, ao ser perguntado por que era preciso escalar o Everest, respondeu: “because it’s there” — porque a montanha está lá.
A segunda resposta, que é aquela que me interessa aqui, em geral discorre sobre busca interior, mudança de vida, espiritualidade e afins. Ou seja, os Sete Cumes representando uma insatisfação pessoal com quem a pessoa é, ou uma insatisfação com a vida que leva, ou algo do gênero. A aventura como processo de ruptura e mudança de rumo, como uma cultura de bem-estar.
Pra quem não sabe, o tal “Sete Cumes”, ou “Seven Summits” em inglês, é um projeto criado pelo milionário norte-americano Richard Bass em parceria com seu compatriota, o consagrado montanhista e cineasta David Breashears. Em 1985, Bass se tornou a primeira pessoa a conseguir escalar todas as montanhas mais altas dos sete continentes (América do Norte, América do Sul, Europa, África, Oceania e Antártica), completando assim o Projeto Sete Cumes. Ele foi criativo e pioneiro na iniciativa, que vem sendo repetida exaustivamente.
Também me pergunto porque tanta gente percorre o Caminho de Santiago de Compostela, seja a pé ou de bicicleta, em busca de respostas a perguntas pessoais muito íntimas. Essa peregrinação católica existe há muitos séculos, mas só ficou popular depois que o escritor brasileiro Paulo Coelho tornou a travessia célebre ao escrever o livro “Diário de um Mago”, publicado no Brasil em 1987. O livro foi traduzido em dezenas de idiomas e já vendeu milhões de cópias, influenciando outras obras e aumentando de forma avassaladora a quantidade de visitantes no caminho.
Obviamente, não faço esse questionamento a título de crítica. Muito pelo contrário. Quanto mais pessoas estiverem buscando formas saudáveis de contato com a natureza ou de contato com outras culturas, acreditando ou não que assim estarão também estreitando contato consigo mesmas, com certeza, a sociedade humana evolui um pouco.
Mas não consigo esquecer de uma frase do controverso Yvon Chouinard, montanhista fundador da marca de roupas Patagonia e autor de ótimos livros, quando entrevistado no filme “180˚ South”. Segundo Chouinard, hoje em dia qualquer um chega ao cume do Monte Everest, a montanha mais alta do mundo, porque existe uma vasta rede de assistência e uma gigantesca indústria por trás. “O maior propósito de escalar uma montanha como o Everest,” diz Chouinard no filme, “é promover algum tipo de ganho espiritual ou físico. Mas se você compromete o processo, você é um bacaba quando começa e um babaca quando termina”.
Eu assino em baixo e bato palmas, além de rir um pouco.
Minha interpretação sobre o comentário de Chouinard é que, se escolhemos a escalada como uma forma de elevação pessoal, devemos, primeiro, escalar a montanha dentro de nós e só depois projetar essa escalada na natureza. No máximo, essas duas escaladas, a interior e a exterior, deveriam acontecer simultaneamente. O ponto que Chouinard levanta é que chegar ao cume da montanha é um meio e não um fim. Ou seja, uma jornada fundamentalmente individual e pessoal que não combina com a filosofia do consumo rápido. Esse processo, que chamo de escalada fast-food, que infelizmente parece ser a regra hoje em dia, identifica o cume como meta única, independente dos meios, um propósito a ser alcançado não importa como, onde a montanha é o empecilho. Nesse caso, o simbolismo da escalada — e também da própria montanha — é transformado em produto pronto disponível em prateleira, vazio de todo sua riqueza invisível, impalpável, espiritual e única. Escalar a montanha porque ela está lá e porque “eu posso pagar”.
Que fique claro, o problema não está em escolher escalar o Monte Everest, fazer os Sete Cumes ou percorrer o Caminho de Santiago de Compostela quando queremos promover mudanças em nós mesmos. O problema, ao meu ver, está em vender e comprar esses projetos sem seu devido conteúdo completo ou sua receita integral. Esses projetos podem com certeza ser transformadores, mas também podem ser transformados em meros troféus egocêntricos cheios apenas do vazio de nós mesmos. Esses destinos não são pílulas mágicas que, ao ingeridas, causam uma mudança de DNA que vão nos transformar nas pessoas que gostaríamos de ser. A verdade simples é que toda mudança profunda exige um compromisso de vida, não apenas um agendamento de férias.
O mesmo vale, diga-se de passagem, para buscas espirituais mais tradicionais, como por exemplo escolher uma religião ou igreja. Nesse caso, também corremos o risco de nos perdermos da busca real e nos tornarmos apenas consumidores alienados porque, sim, é possível transformar Deus em produto e religião em objeto de consumo. Aqui também existe o desejo por ganho físico ou espiritual e também existe o risco de confundir o meio com o fim.
Vale repetir, não questiono essas escolhas a título de crítica fundamentalista. Melhor buscar a espiritualidade, seja lá como for, do que simplesmente ignorar a questão. Mas não consigo deixar de me enojar com as falsas promessas (ou falsas autopromessas) de paz, de elevação espiritual, de rigor moral, de simplicidade de vida, de equilíbrio emocional e até de santidade quando, na verdade, tudo o que vejo é comércio e mais nada.
Escalar o Monte Everest, completar os Sete Cumes ou percorrer o Caminho de Santiago de Compostela pode ser um divisor de águas na vida de muita gente, mas também pode ser apenas mais uma façanha no currículo ou mais um evento ticado na agenda. Porque o que importa, segundo Chouinard no contexto de sua crítica, que eu concordo, não é “o que” fazemos e sim “como” o fazemos.
Admiro muito o filósofo e pai do preservacionismo norte-americano, John Muir (1838-1914). Muir foi o grande responsável pela criação de muitos dos mais importantes parques nacionais nos Estados Unidos, autor de grandes livros e difusor do uso da natureza como lugar de recreação e reflexão. Muito religioso, ele foi católico devoto por toda a infância e boa parte da juventude. Mas foi na natureza que ele realmente encontrou seu Deus. E acho essencial a ênfase no pronome possessivo “seu”, porque a ideia de Deus só faz sentido para mim se for plural. Um Deus para cada pessoa, jamais um Deus para todos. Sou crente de um tipo de politeísmo individualizado, sob medida, customizado. Afinal, se dois fiéis da mesma religião se juntarem para discutir e tentar definir nos mínimos detalhes o que cada um entende por Deus, nunca duas pessoas chegarão às mesmas conclusões sem que uma ceda às opiniões da outra.
Muir tinha um jeito muito peculiar de escalar montanhas e de buscar ganhos espirituais e físicos. “Saiam, de vez em quando, em busca de ar puro,” escreveu o filósofo. “Façam isso mesmo que vocês não tenham fé. Saiam em busca de vida, sejam leves e ágeis! Sei que alguns atenderão à esse chamado; mas a maioria não o fará, pois a liberdade vazia das cidades é repleta de escravidão pagã e aqueles que mais precisam do descanso, da neve limpa e do céu serão os últimos a saírem de dentro de casa”.
Proponho aqui, então, uma reflexão. Que montanha interior você quer escalar e por que projeta essa ascensão pessoal no Monte Everest, nos Sete Cumes, em Santiago de Compostela ou em qualquer outra jornada? A que altura você almeja tanto chegar? E você está comprometido com a escalada ou a caminhada? Está disposto a enfrentar os sacrifícios, dificuldades, desconfortos e possíveis fracassos? Tem consciência de que esses roteiros são também rotas interiores e que só podem ser feitas por você e mais ninguém?
Não sou purista. Sei que com a ajuda de agências de turismo e de guias, seja de montanha ou espirituais, podemos conseguir avanços, progressos e alguma altitude. Mas também sei que nosso potencial individual não se restringe a permanecermos atados a cordas. Sei que nascemos para sermos pilotos e não passageiros de nossas próprias vidas. Aprendi que as experiências transformadoras que queremos para nossas vidas não acontecem em grupo, não estão em pacotes, não são financiáveis no cartão em suaves prestações.
Como Muir, faço meu apelo: sejam corajosos, arrisquem, olhem profundamente para dentro de vocês mesmos enquanto olham para fora, encontrem suas próprias montanhas e seus caminhos, deixem de pisar pegadas alheias, pensem por suas próprias cabeças! Quando traçamos nossos próprios roteiros jamais nos perdemos.
E mais uma coisa: façam menos selfies na natureza. Qualquer cachoeira, pôr do sol ou árvore, por mais humilde que for, merece tanto destaque quanto qualquer um de nós.