TEXTO: Guilherme Cavallari / FOTO: Javier Cencig
Há alguns meses decidi me blindar do discurso de ódio, do preconceito destravado, da manipulação da verdade em benefício de ideologias e pseudo-ideologias, da mentira descarada, da miopia política, da mesquinhez econômica, do proselitismo do individualismo acima do coletivo e do fanatismo religioso. Algo que chamo de “higienização sociopolítica”. Tento ser imparcial. Quero distância tanto do discurso da extrema direita quanto da extrema esquerda, porque as duas andam de mãos dadas e se alimentam uma da outra. São extremidades da mesma serpente.
Será que isso é a tal ressaca pós-eleição? Acho que não. Deve ser puro bom-senso.
Nos últimos 20 anos tenho me dedicado a explorar o ambiente natural praticando esportes e turismo de aventura. Como em todo processo evolutivo nesse campo, comecei investigando meu potencial físico, definindo a resiliência da minha força de vontade, buscando expandir minha zona de conforto. Tive bastante sucesso em tudo isso. Mas não me pareceu suficiente.
Passei então a questionar meus propósitos e ao invés de simplesmente enxergar a natureza como uma série de obstáculos num desafio, tratei de tentar identificar meu lugar nela. De repente, todo tipo de competição, mesmo aquelas contra mim mesmo, deixaram de fazer sentido. Eu não estou numa corrida contra a natureza, seja aquela presente no ambiente natural ou aquela dentro de mim, minha natureza interior. Sou parte de um processo dinâmico e complexo chamado “vida”, que acontece independente de mim, mas que sofre influência direta daquilo que sou, do que penso, falo e faço.
Quando alguém se dedica 20 anos a alguma coisa com perseverança e tem algum talento, acaba se tornando um especialista e acaba adquirindo alguma eficiência. Ao longo desse tempo, acabei escrevendo e publicando 18 livros, produzi alguns filmes, ganhei alguns prêmios, escrevi dúzias de arquivos para revistas e publiquei centenas de fotos. Acabei me tornando professor daquilo que aprendi lentamente e montei uma escola de aventura nas montanhas de Minas Gerais, em Gonçalves, na Serra da Mantiqueira, onde vivo e trabalho.
Nos cursos que ministro, ensino aquilo que aprendi ao longo da vida e não apenas a coleção de técnicas e experiências adquiridas nas últimas duas décadas como aventureiro. Explico e demonstro como ser mais eficiente na aventura, mas na verdade ensino ética, história e filosofia outdoor, que podem muito bem ser aplicadas à vida urbana. Narro experiências que abriram meus olhos, por exemplo, para a simplicidade do termo “qualidade de vida”. Em resumo, não existe vida, tal qual a conhecemos, sem ar puro, água limpa e terra fértil.
Ou seja, nós dependemos integralmente do ambiente onde existimos. Os diretores do Banco Itaú ou do Bradesco, por exemplo, se vivem na cidade de São Paulo, são milionários mas não tem qualidade de vida em suas residências. O ar que eles respiram é podre. A água que eles têm à disposição, mesmo que seja apenas para tomar banho, lavar comida e encher a piscina, é química. A terra que eles pisam é forrada de cimento e, por baixo da placo de concreto, é contaminada. Apesar de milionários, no final da contas, eles vivem pior do que eu, que não tenho fortuna, mas saí da Babilônia e vivo numa casa alugada numa fazenda no topo de uma montanha.
Outra coisa que uma vida de aventura me ensinou foi que o conhecimento acumulado de um caboclo aqui da roça, de um índio numa aldeia ou daquela avó sábia que algumas famílias têm a sorte de ter, não valem nem um tiquinho a menos que um diploma de medicina, engenharia ou direito da melhor faculdade.
Uma avó sábia, hoje em dia, diria algo assim aos seus netos: “Filhinho, essa história de você dizer que é contra o politicamente correto, pra mim é simplesmente falta de educação, mais nada”. Ou ainda: “Amorzinho, que bobagem é essa de dizer que refugiado ou pobre tem que cuidar da própria vida? Isso é egoísmo e egoísmo é uma coisa muito feia. Hoje, você pode estar bem e o refugiado ou o pobre podem estar mal, mas amanhã o jogo pode virar. E daí?”. E pra completar: “Docinho, quando um bandido mata alguém, ele é um assassino. Quando um policial decide matar um bandido no lugar de prender, ele baixa ao mesmo nível do criminoso e também é um assassino. Se qualquer um dos dois pratica a barbaridade da tortura, deixaram de ser gente e passaram a ser monstros”. E assim por diante, sempre com doçura e amor, mas sem passar a mão na cabeça de ninguém. Tolerância zero. E sempre apenas reafirmando o óbvio: o que é certo é certo, o que é errado é errado.
Há meses, como já disse, decidi me blindar. Quando alguém se interessa em fazer algum dos meus cursos, exijo que o candidato preencha uma ficha detalhada de inscrição, onde peço além do currículo esportivo, da lista de equipamento já adquirido, do histórico de saúde, quero saber os endereços de suas páginas nas redes sociais. Visito esses perfis e analiso o que a pessoa publica. Se existe discurso de ódio, pregação de preconceito, discriminação violenta de qualquer espécie, abuso da verdade ou desrespeito ao próximo, não aceito a inscrição. Simples assim.
Tanto faz se a pessoa é de esquerda ou de direita. Tanto faz se promove a tortura realizada por militares brasileiros ou militares soviético. Dá no mesmo se louva a ditadura brasileira ou a ditadura venezuelana. É igual se valoriza o Brilhante Ustra ou o Stalin. Porque, no final, pouco importa com que mão damos um soco, machuca igual.
Recusar um aluno, para mim, significa abrir mão do valor de sua inscrição, deixar de ganhar dinheiro que com certeza faz falta. Problema? Não. Tudo bem. Valorizo mais a coerência entre meus pensamentos, palavras e ações. Prezo mais pela minha consciência. Se não quero a proximidade dessas ideologias tóxicas e não me sinto capaz de anulá-las, não posso querer então os benefícios provenientes delas. O dinheiro de alguém que promove desinformação, desunião, discórdia, preconceito e o evangelho do terror, não paga minha felicidade.
Mas apesar de toda essa minha convicção, apesar de achar que estou fazendo o que considero certo para o momento, apesar de sentir que é preciso colocar um limite a toda essa selvageria e estupidez vomitada ao vento cibernético, fico me remoendo. Será que não estou sendo intransigente? Será que não estou sendo também agressivo mesmo em minha posição de não agressividade? Será que não seria mais didático, mais educativo se eu acolhesse esse desvio e tentasse reorientá-lo? Será que esse indivíduo que louva a violência, banaliza a tortura, prega o assassinato e crê na homogeneização da humanidade, no fundo, bem no fundo, não pode ser uma boa pessoa? Bom pai, bom filho, bom pagador de impostos? Alguém honesto, trabalhador e sério, apenas de estar descompensado?
Sinceramente, acredito que não. Mesmo cumprindo certas funções com primor, se construímos uma mansão sobre um pântano, por mais bonita e luxuosa que ela seja, as paredes estarão sempre mofadas. Mas estou aberto a críticas construtivas.
Para finalizar, acredito que diferenças políticas têm limites muito claros ditados por nossa civilização. No século XXI não é cabível aceitarmos calados e inertes quando ouvimos discursos e pregações que nos lembram a Inquisição da Idade Média, o holocausto de Hitler ou os massacres de Stalin.
É preciso dizer basta!
Perfeito!!
Já faz um tempo que li um artigo do Cavallari sobre uma Land que ele tinha, na verdade sobre estilo de vida. Aquilo me marcou muito, tbem tinha o “sonho” de ter uma caminhonete dessas, agradeço aquela leitura por ter mudado meu sonho e muito mais que isso, mudado um pouco minha forma de pensar.
Desde de então sou seu Fã!!!
Esse texto me remete a bons pensamentos, exatamente emparelhados com os que estou vivendo no momento.
Achei o máximo: “… não aceito a inscrição. Simples assim. ”
Parabéns pelas escolhas!!!!
Olá Guilherme.
Sou seguidor do seu trabalho ha um tempo. As reflexões são boas e me motivam .
Ultimamente sinto que seu ponto de vista está ficando mais rígido, de acordo com o propósito de vida que sempre defendeu em suas publicações. Está se verticalizando cada vez mais na defesa dos seus pensamentos, o que também não deixa de ser extremismo.
Acho você um cara extremo pela profissão e vida que ama levar, que está se potencializando no isolamento. Mas lúcido e equilibrado com o meio.
É o tal do extremo do bem, que pensa no coletivo. Diferente dos citados no texto. Porém acho que qualquer extremo potencializado pode ter efeitos negativos.
Forte abraço cara.
Ainda vou conhecer sua biblioteca particular ! 🙂
Parabéns pela clareza das ideias, pela firmeza das posições, pela resiliência e resistência à loucura que contamina boa parte da população! Nossa consciência não pode ter preço porque tem valor inestimável! Boa sorte e força na sua caminhada… pedalada… escalada…pela vida e parabéns pelo trabalho!
Uma das coisas que nos fez (eu e minha esposa Lohanne) querer fazer o seu curso, além de seu trabalho e larga experiência, foi o seu posicionamento político e filosofia de vida. Nos sentimos tranquilos e representados. Muito obrigado por esse fim de semana (04 e 05/05/19).
Inspirador ter no nosso caminho e na Mantiqueira, pessoas que através de sua vivencia, conseguem descrever de forma clara e precisa, o sentido de estarmos por aqui.
Boa Mestre!
Simples assim.
Um abraço.
Muito bom ,
procuro me portar da mesma forma.
Sempre busco o caminho do meio, não por covardia ou outra coisa é simples. Nos extremos sempre há exageros e como disse um certo filosofo
” Quando exageramos enfraquecemos a causa”
Gostei. Me fez ir até as minhas redes sociais e rever o que tenho postado.
Ainda acredito que há possibilidade de as pessoas saírem dessa dicotomia de extremos. O caminho passa necessariamente por um despertar individual.
Tal despertar, no entanto, só ocorre no sentido de dentro pra fora. E aí, meu caro Guilherme, compartilho da sua visão – não adianta orientar, acolher. Nada que venha de fora provoca essa mudança.
Resumindo, entendo que me resta viver minha própria vida de forma pacífica e coerente, e infundir essa visão naqueles que me cercam.
Abraços
Muito bom ler seus textos Guilherme, são grandes faíscas de felicidade que emergem das fogueiras das ilusões. Profundidade é isso, transitar no sensível, e ter amor próprio para que possamos amar ao outro.
Forte abraço.
E eu aqui a refletir o martírio das minhas escolhas e eis que vejo ter mais gente que age tal qual.
Grande abraço!