Ian Baker foi considerado pela National Geographic um dos “sete maiores exploradores do milênio”, importante membro do famoso Explorer’s Club de Nova Iorque e da Royal Geographic Society em Londres, formado pela Oxford University, ele reside no Nepal desde 1983, é um reconhecido estudioso do budismo tibetano, fluente em nepalês e tibetano, aclamado autor de numerosos livros sobre o Nepal e o Himalaia e já dirigiu vários filmes para a National Geographic e o Discovery Channel.
Tantas credenciais obviamente emprestam peso ao livro The Heart of the World, mas nada disso era preciso. O livro fala por si só. Nesse título, Ian Baker narra a extensa, árdua, longa e quase impossível história da busca pelo “umbigo do mundo” – o centro mítico do universo segundo a cosmogonia nepalesa – uma cachoeira desconhecida, encerrada na garganta mais profunda do Rio Tsangpo, perdido na selva subtropical de altitude tibetana.
Pergaminhos milenares, livros centenários e lendas antigas que alguns poucos monges idosos ainda lembravam, citavam essa mitológica queda d’água, protegida pelos deuses, inacessível aos homens. Ian Baker toma essas histórias como possíveis e usando seus conhecimentos de explorador e grande montanhista, decide encontrar o “Coração do Mundo”.
O cenário dessa busca é a região nordeste do Tibet – um dedo tibetano inserido no território chinês e vizinha à disputada fronteira com a Índia, onde se encontram os rios Brahmaputra, Po Tsangpo e Yarlung Tsangpo. Uma região praticamente inexplorada até hoje e, para piorar tudo, praticamente fechada pelo exército chinês.
A expedição exploratória se dá em várias frentes, como toda grande descoberta acontece: são visitadas bibliotecas, museus, lojas de antiguidades, templos, monastérios, são entrevistados monges, caçadores, militares, exploradores. Cada nova descoberta acrescenta um pedaço ao quebra-cabeça. Mas o pior de tudo é a exploração física da região: florestas úmidas e densas penduradas em declives impossíveis, um misto de Amazônia e Himalaia com tempo ruim.
Trilhas são abertas na floresta na forma de degraus escavados a facão em troncos de árvores, que depois são usados como escadas contra encostas rochosas sobre abismos. Chove dia e noite sem parar. Sanguessugas aparecem de todos os lados. Neva forte em pleno verão. Praticamente todo caminho escolhido transforma-se eventualmente em um beco sem saída. Rios absurdamente caudalosos devem ser transpostos sem pontes. Nada parece ajudar na busca pelo mítico “umbigo do mundo”, como se os próprios deuses tibetanos estivessem conspirando contra a empreitada.
Durante toda a narrativa Ian Baker oferece generosamente seu vasto conhecimento sobre tudo o que diz respeito à região, da língua à culinária, da história à política, da psique do povo aos atrativos sexuais das mulheres locais. Nada parece escapar ao seu conhecimento. Tudo ganha cor, textura, sabor e interesse no desenrolar da história.
Enquanto eu lia o livro, ao mesmo tempo em que tinha a impressão de estar viajando pelo Tibet, sofrendo e vencendo obstáculos como mais um membro da expedição, eu me sentia em uma biblioteca cujos livros mais interessantes eram lidos para mim em voz alta. Uma combinação, para mim, perfeita.
Finalmente o “Coração do Mundo” é encontrado e o mistério desvendado, depois de séculos de dúvidas dos grandes exploradores que já visitaram a região. Mas não existe anticlímax nisso, não faz mal saber que no final o centro do universo tibetano é encontrado porque, como nos ensina o budismo, é no caminho que está nosso verdadeiro destino.
Além de recheado com fotos e ilustrações antigas e modernas, inclusive imagens das várias expedições realizadas pelo autor, o livro tem a introdução escrita por Sua Santidade o Dalai Lama.
The Heart of the World
Ian Baker
The Penguin Press Books
2004
512 páginas
ISBN 9781594200274
http://www.penguin.com/
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