AVENTURA É VACINA CONTRA CORONAVÍRUS

12 de março de 2020

FOTO e TEXTO: Guilherme Cavallari

Pedalando minha mountain bike hoje, no treino regular que faço na roça onde moro, pensei na atual crise mundial provocada pela pandemia do novo coronavírus. O presidente dos Estados Unidos fechou as fronteiras aéreas do país com a Europa, a primeira-ministra alemã declarou que 70% da população de seu país deverá ter contato com o vírus, as ruas de cidades italianas estão desertas, com os cidadãos encerrados em suas casas e o presidente do Brasil chamou a doença de “fantasia”.

Eu pedalava e raciocinava: o percentual de letalidade do vírus é de 3%, segundo as pesquisas. Parece pouco, mas se a população da Alemanha é de mais de 81 milhões de pessoas atualmente, estamos falando de talvez 1,7 milhões de óbitos segundo sua primeira-ministra. Isso num dos países mais ricos e bem organizados do mundo. Itália, França, Inglaterra e outros países da Europa não devem fugir às estatísticas. A doença já está espalhada pelo globo e fechar fronteiras agora não vai adiantar nada.

Infectologistas e epidemiologistas do mundo todo dizem que a melhor medida contra a pandemia é um sistema público integrado de saúde, algo que nós brasileiros conhecemos bem. Nosso SUS é referência mundial, acreditem se quiserem. Nossa rede pública e gratuita de atendimento à população é um patrimônio que nem os Estados Unidos têm. Eles lá sonham com o nosso SUS, que é inclusive uma das bandeiras da campanha do senador democrata Bernie Sanders, enquanto aqui nosso presidente e nosso ministro da economia sonham em acabar com a medicina pública gratuita porque isso “dá prejuízo”, nas palavras do próprio Bolsonaro.

Não faz nem seis meses que voltei da China. Usei Beijing como porta de entrada e saída para a expedição que fiz pela Mongólia. Pra quem não sabe, cruzei toda a extensão oeste-leste da Mongólia sozinho, de bicicleta, evitando asfalto, acampando selvagem e totalmente autossuficiente. Foram 3.633 km em 77 dias de muitas descobertas e desafios.

Em Beijing, fiquei impressionado com a quantidade de gente em todo lugar, pessoas tossindo e espirrando por todo lado. Não havia epidemia alguma na época, apenas poluição, ar seco e uma superpopulação. Todo o tempo eu dizia pra mim mesmo que “se eu não ficasse doente ali, não ficaria doente em lugar nenhum”. Um pouco de exagero da minha parte, mas não deixa de ter sua lógica.

Na Mongólia comi e bebi de tudo, nem sempre com a devida cautela. As diversas famílias nômades que me acolheram ao longo do percurso, oferecendo chá, iogurte, queijos, pães, biscoitos e afins, tudo caseiro e artesanal, não usavam toucas, luvas, máscaras ou lavavam as mãos com álcool gel. Ninguém lavava as mãos, pra dizer a verdade, nem eu. Cruzei o país todo e tive dois episódios de vômito, um deles na capital nacional, única cidade com rede de saneamento básico. Não tive uma diarreia sequer.

Por que?

É inegável que tive contato com todo tipo de bactéria e vírus no caminho. Impossível evitar. Eu sequer tentei evitar qualquer contágio. Eu bebia e comia nos pratos e talheres de estranhos, em suas tendas, sem pensar na higienização dos itens de cozinha. Sem água encanada no país, lavar a louça era simplesmente mergulhar tudo num balde d’água. Essa água nem era trocada a cada refeição. E eu sobrevivi. Mais do que sobreviver, continuei pedalando todos os dias.

Minha explicação para essa alta imunidade, que é a única justificativa científica para minha persistente saúde, está no estilo de vida que levo. Sou aventureiro. Treino regularmente ao ar livre, fico exposto ao sol, chuva, vento, frio e calor. Vivo em contato com a natureza, moro numa fazenda na Serra da Mantiqueira, onde como alimentos orgânicos, bebo água de fontes naturais, tomo banho de rio, durmo no escuro e no silêncio oito horas por noite, respiro ar puro e tento evitar estresse, embora o Bolsonaro não ajude nesse quesito. Minha saúde não acontece por acaso.

Obviamente, vou tomar os cuidados necessários para evitar contágio pelo novo coronavírus. Não gosto de multidões, lavo as mãos regularmente quando estou na cidade grande, evito ficar muito próximo ou tocar estranhos, faço isso aliás com qualquer pessoa. Fora isso, confio no meu sistema imunológico porque sei que ele está fortalecido pelo estilo de vida que levo. Estou vacinado por isso? Claro que não! Mas quando houver uma vacina contra esse novo coronavírus, vou tomar. Minha carteirinha de vacinação tem mais carimbos que meu passaporte. E olha que eu viajo bastante! Vacina não causa autismo e a Terra não é plana.

Peço perdão pelo título sensacionalista do artigo, que pode passar uma falsa mensagem aos leitores desatentos. Mas a verdade é que acredito mesmo que aventura é uma espécie de vacina contra qualquer vírus, inclusive o vírus da ignorância. O corpo e a mente saudáveis são armas potentes contra doenças. Viver próximo à natureza o mais preservada possível, respirar ar puro, praticar esportes ao ar livre, comer, beber e dormir bem são sinônimos de qualidade de vida.

A escolha por esse estilo de vida deveria ser um compromisso de muitos e não um privilégio de poucos. Quando mais pessoas trocarem os inegáveis confortos das cidades pela simplicidade da vida na roça, com todos os problemas que isso acarreta, os espaços perfeitos para o alastramento de vírus diminuirá. O mundo pode ser globalizado e saudável ao mesmo tempo, não precisamos viver empilhados como estoque num depósito só para ter internet mais rápida.

Vida simples é vida boa. Vem pra roça e saia da neura!

6 respostas para “AVENTURA É VACINA CONTRA CORONAVÍRUS”

  1. Rafael Massis disse:

    Muito coerente e real, Cavallari!

    Também acredito que a aventura e a vida simples são uma vacina contra qualquer tipo de vírus e bactéria. Digo mais, o estilo de vida simples e a aventura são uma vacina contra os problemas de saúde mental que considero serem o mal de nossa sociedade hoje.

    E a vida pode ser simples em qualquer lugar (óbvio que estar em um local mais simples como a roça nos traz outra experiência). Basta mudarmos os hábitos e entregar valor ao que realmente o tem.

    Já li o Transpatagônia e o Highlands e ambos me fizeram parar para avaliar padrões e condutas implicitamente impostas em minha mente. Esse tipo de reflexão é maravilhosa e nos faz evoluir.

    Obrigado pelo conhecimento e pelas experiências transmitidas.

    Grande abraço,

  2. Fabio Patrik Freitas disse:

    Nesse momento de crise e restrições de acesso impostas pelas municipalidades, ir para a roça pode não mais ser possível

  3. A. Franco Giusti disse:

    Muito bom. Mas quem pode “ir para a roça” hoje em dia? A classe média num sítio? O milionário em sua fazenda? Vender tudo e viver da subsistência? Difícil né? E se todos fossem para a roça, quem trabalharia para manter todas as conveniências da civilização? Os remédios seriam só ervas mesmo? As roupas seriam peles de animais, ou tecidos rústicos feitos na roça E as sementes? Quem as produziria? Até os pregos da casinha rústica no meio da montanha são fabricados por alguém que não tem como viver na natureza. A fantasia da vida rural só é possível para alguns porque para milhões de outros é impossível. Até quem diz que vive uma vida simples na roça DEPENDE de quem não vive uma vida simples na cidade. Por isso, respeito quem queira viver à margem dessa “loucura toda”, DESDE QUE não dependa dos que estão se f… no olho do furacão capitalista. Aqui perto de minha cidade tem uma comunidade “alternativa” que eu respeito. Eles não vendem artesanato nem pedem esmolas. Eles vivem MESMO isolados, plantando, colhendo, praticando o extrativismo responsável e não dependendo de ninguém de fora. Esses são coerentes. E viva a natureza! Obrigado.
    ……………………………………………
    RESPONDO AQUI SEU COMENTÁRIO (GUILHERME CAVALLARI):
    Senti bastante agressividade no seu comentário e me pergunto por que? Estamos num momento em que deveríamos todos aproveitar a quarentena voluntária e solidária contra o coronavírus para baixar a guarda e a ansiedade. Pra que tanto ressentimento? Você está “se f… no olho do furacão”, pra usar as suas próprias palavras? Por que? Não tem opção? Duvido. Você está precisando de mais contato com a roça pra desmistificar sua visão dela. Tem MUITA gente trabalhando aqui no campo à distância, fazendo home office, tem MUITA gente produzindo, vendendo, trocando, subsistindo com ENORME qualidade de vida simplesmente porque deixou de cobiçar um determinado carro, um determinado computador ou celular, roupas e calçados, viagens e jantares exclusivos, etc. Não conheço nenhum esmolante aqui e não tenho preconceito nenhum com quem pede esmola, muito pelo contrário, tenho COMPAIXÃO. Eu vivo humildemente dos livros que escrevo e dos cursos que ministro, que podem ser comprados e consumidos por QUALQUER UM, na roça ou na urbe. Alugo uma grande e linda casa no campo que custa menos que uma kitchnette em BH. Alguém tem que produzir remédios, fabricar pregos, como você mencionou? Claro que sim! Talvez em menor quantidade numa sociedade mais madura e menos consumista. Mas essas pessoas também poderiam viver em vilas operárias com jardins, em vez de empilhados em pombais. Como? Simples! Priorizando a qualidade de vida, que não vem com dinheiro. Estabelecendo a qualidade de vida acima da ganância, que é uma atitude política e cultural antes de econômica. Quando eu morava numa kitchnette no bairro do Bixiga, em São Paulo, tinha vasos, plantava temperos, comia orgânico, usava a bicicleta como meio de transporte. Isso tudo nos anos 80, bem antes de virar moda! Por que? Porque essas coisas sempre foram prioridades para mim. Os donos do Itaú/Unibanco, algumas das pessoas mais ricas do Brasil, vivem em São Paulo e Rio de Janeiro, onde respiram ar poluído e tomam banho com água reciclada quimicamente, precisam de seguranças 24 horas por dia e daqui a pouco, no auge da crise do coronavírus, não terão UTI garantida no Albert Eistein ou no Sírio Libanês não importa o plano de saúde que tenham. E nem adiante ir pra Paris ou NYC… Então, onde está a qualidade de vida que o dinheiro compra? Se você está “se f… no olho do furacão”, aproveita então essa oportunidade única da quarentena para repensar sua vida, suas prioridades, seus valores. Se não está “se f… no olho do furacão”, seja mais agradecido. Tem muita gente sem opção na vida, gente que não pilota a própria existência porque não pode, não deixam. São massa de manobra nessa máquina de comer gente chamada capitalismo. Cabe a gente como eu, que tem opção (que é diferente de ter dinheiro), escolher caminhos diferentes, mais humanos, menos destrutivos e deixar o mapa desenhado para quem quiser vir atrás. Boa sorte.

  4. A. Franco Giusti disse:

    Rapaz, não quis mesmo ser agressivo. Desculpe MESMO. Só quis dizer que uma vida rural e tranquila pra todo mundo é impossível. Nessa sociedade competitiva Sempre vai ser preciso uma base de trabalhadores que só enxergam a luz do sol por uma janelinha. Eu posso “resolver” meu problema, abandonar os supérfluos, mas vou precisar que essa loucura de mundo capitalista continue escravizando corações e mentes para garantir meu sustento confortável. Só isso. Bom seria se não fosse assim. Obrigado. Obs. Sou leitor de seus livros.
    …………………………………………….
    RESPONDO AQUI SEU COMENTÁRIO (GUILHERME CAVALLARI):
    Obrigado pelo “rapaz”, hehehe, aos 57 anos isso é sempre bem-vindo… Entendo sua observação, sei que ela é real, mas não concordo com sua atitude, se você me permite a crítica construtiva. Você diz que “vou precisar que essa loucura do mundo capitalista continue escravizando corações e mentes para garantir meu sustento confortável… Bom seria se não fosse assim”. Tem muita coisa interessante pra analisar nessa frase. Você usar o verbo “precisar” sem definir de fato o que você “precisa”, usa o adjetivo “confortável” para definir seu “sustento”, termina dizendo que gostaria que não “fosse assim”. Esse é o mecanismo de escravização do consumismo extremo, a forma mais perniciosa do capitalismo e aquela que vivemos hoje. Confundir o que é essencial com conforto, confundir o que é sustento com conforto, confundir o que é realidade do que é circunstancial e fabricado por nós. Fomos doutrinados a acreditar que o antagônico ao capitalismo é o comunismo, numa má interpretação da teoria marxista. O comunismo, para Marx, é a evolução lógica do capitalismo e uma utopia, que passa primeiro pelo socialismo. Pois bem, não sou comunista nem capitalista. Sou comunista e capitalista. Acredito que um completa o outro e a história prova que estou certo. A pressão do bloco socialista no mundo capitalista, em especial na Europa, levou às leis trabalhistas, ao seguro-desemprego, às férias remuneradas, aos benefícios trabalhistas, etc. Sem esse pressão, que é o que temos hoje, o capitalismo corre sem amarras, faz surgir o neoliberalismo e a barbárie que já entendemos que não funciona. O comunismo é uma utopia que talvez nunca ocorra, mas o capitalismo desenfreado fracassou de todas as formas possíveis. Apesar de tanto consumo, de tanta tecnologia a nosso favor, de tanta riqueza circulando (o mundo nunca foi tão rico quanto agora), nós temos hoje menos qualidade de vida que nossos avós no que diz respeito ao ar, à água, ao tempo livre, à saúde mental. Existe a realidade do capitalismo que “escraviza corações e mentes”, isso é inegável. Mas essa é uma realidade construída por nós e que pode ser desconstruída por nós, modificada por nós. Basta usarmos as ferramentas disponíveis pelo socialismo. Já sabemos o que deu certo e o que deu errado tanto no capitalismo sem rédeas quanto no socialismo ditatorial. Que tal pegar o melhor de cada sistema e encontrar o “caminho do meio”, para usar uma teoria budista? A negação absoluta, arbitrária e ideológica de sua antítese só interessa ao capitalismo extremo. Eu vim para a roça com pouquíssimos recursos financeiros, muita coragem e criatividade. Se eu consegui viver aqui com conforto, segurança e tranquilidade, MUITA gente mais competente e com mais recursos que eu também consegue. Mas essa, obviamente, não é a solução. A solução está em “levar a roça até a urbe”. Transformar gradualmente os grandes centros urbanos em lugares “mais humanos” para viver e não pombais de gente. Pense nisso. Não é utópico, é possível. Do ponto de vista prático e político, começa com a renda básica universal, que é uma solução que será empregada muito em breve por vários países desenvolvidos e poderia facilmente ser empregada aqui no Brasil, já que somos atualmente a oitava ou nona economia do mundo (já fomos a quinta!). Não importa o tamanho da economia, a riqueza tem que ser dividida por todos agora. Depois, viriam regras de construção e especulação imobiliária mais humanas também, impedindo o empilhamento de gente simplesmente porque isso dá mais lucro. Cidades satélites conectadas aos pontos de trabalho presencial (que serão cada vez mais raros) por boa malha de transporte público gratuito. Um Estado forte que mantenha sob controle alicerces básicos da estrutura social, como educação, saúde, transporte, segurança e saneamento básico. O Estado não tem que dar lucro, esse é um dos maiores absurdos do neoliberalismo, o tal do “superávit primário”. O Estado tem que gastar sempre tudo o que arrecada e estar devendo para ele mesmo, qualquer economista no primeiro ano de faculdade aprende isso. Dívida interna é um dos motores da economia. Essa crise econômica e de saúde do coronavírus é, na verdade, uma crise ética e filosófica, um momento para pararmos e refletirmos sobre onde erramos, porque efetivamente NÓS ERRAMOS! Agradeço muito seus comentários e seu interesse pelo meu trabalho.

  5. Henriquez disse:

    excelente texto , troquei a vida agitada de Brasilia por uma vida simples em Pirenópolis, uma cidade histórica no interior do Goiás . Aqui faço minha horta dou preferencia
    pelos produtos produzidos na roça, tenho bons lugares para pedalar ,voar de parapente, caminhar pelas serras. Descobri até a diferença entre solidão e solitude,Quando cita a Mantiqueira bate uma saudade, sempre que posso vou para São francisco xavier. Nada mais gratificante como uma vida simples ” A simplicidade é o expoente máximo da sofisticação” Leonardo da vinci

  6. Rodrigo disse:

    Antes de tudo querido Cavallari, parabéns pela vida! Porque nós sobrevivemos, enquanto vc vive plenamente. Estou só brincando, sei que todo mundo vê as “Pinga” que tomamos mas ninguém vê os “tombo”. Não costumo ter inveja da vida de ninguém, mas almejaria ter um pouco da qualidade da sua. E aproveitando o ensejo, que barraca eh essa diminuta e fantástica que vc usa mais regularmente em suas cicloviagens? Sempre que apresento sua história a um amigo, refiro-me a vc como o “Amir Klink” das ciclo-expedições. Um forte abraço do colega e leitor de suas obras que gostaria de ser amigo, Rodrigo (já nos vimos por aí nas feiras de bikes, tenho obras suas autografadas e grande admiração por sua pessoa).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


MARCAS QUE APÓIAM NOSSOS PROJETOS: