MAPEAMENTO CARRETERA AUSTRAL 15

26 de dezembro de 2009

Villa Cerro Castillo, Chile

24 de dezembro de 2009 / 26° dia de viagem / 6.953 km rodados

Véspera de Natal – feriado mais importante do calendário da pacata e sonolenta Villa Cerro Castillo – dia que inadvertidamente escolhemos para chegar na beira da Carretera Austral para pedir carona. As chances de sucesso eram remotas. Estávamos exaustos. Havíamos feito um trekking de 25 quilômetros com mochilas pesadas demais, depois de 62 horas de claustro em uma minúscula barraca debaixo de uma inesperada tempestade de neve em pleno verão…

Nossa travessia em trekking da Reserva Cerro Castillo começou com vento e céu nublado e todos os demais sinais de tempo ruim. Mas estamos na Patagônia e não existe lógica no tempo. Até hoje… Os avisos de tempo ruim se confirmaram e choveu, sem parar, por 36 horas, quando a chuva deu lugar a uma tempestade de neve que durou mais 10 horas, que deu lugar por sua vez a mais 10 horas ininterruptas de chuva com neve juntas, que por só parou quando começou uma sessão de mais seis horas de chuva fina e fria.

O resultado foi que ficamos presos em nossa barraca por 62 horas, impossibilitados de seguir adiante, sozinhos no parque, no vale do Rio Turbio, em meio a montanhas majestosas que se punham cada vez mais brancas. Meu termômetro marcava 5°C dentro da barraca e as poças de água congeladas à nossa volta indicavam que lá fora devia estar uns dez graus mais frio.

Para completar o show de horror, deixamos nossos livros no carro, não levamos baralho e a comida estava contada para os quatro dias de caminhada prevista. Queríamos andar leves para andar rápido. Mas a Patagônia não admite esse tipo de pressa.

Inventamos jogos, namoramos, brigamos, sonhamos, planejamos e inclusive decidimos vender nossa casa em São Paulo e montar um refúgio em algum lugar da Mantiqueira se não virássemos picolés aqui na Patagônia… Finalmente quando a chuva parou desmontamos acampamento e caminhamos de volta à Carretera Austral pelo mesmo caminho pelo qual chegamos. Teríamos que pegar uma carona para voltar à vila, já que nosso carro ficara no camping e não conseguimos cumprir o programa e chegar caminhando pelas montanhas de volta a ele.

A carona demorou menos do que esperávamos. Adriana foi com outro caronista no carro de uma família que se dirigia a uma festa de Natal. Eu fiquei sozinho na estrada mais 15 minutos, até aparecer o dono do camping e campeão de rodeio local para me dar a carona salvadora. Grande coincidência (para quem acredita nelas).

Fomos a um albergue. Precisámos urgente de um banho quente e camas limpas. Acabamos convidados para uma deliciosa ceia com um casal de chilenos donos da melhor hospedagem de Villa Cerro Castillo, Soledad e Mario, e mais cinco jovens mochileiros alemães.

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