11 de dezembro de 2009 / 13° dia de viagem /5.298 km rodados
Os parques chilenos têm muita personalidade. A palavra é exata: personalidade. Há um modelo de uso da terra pública que se foi aplicado, até onde minha experiência alcança, em todo o país. Alguém ou alguma instituição o aplicou.
Existem áreas protegidas e restritas, como no Brasil, mas existe sempre uma trilha, bem usada e bem marcada, equipada não apenas com indicadores de direção mas também, às vezes, com cabanas chamadas de “refúgio”. Um refúgio pode ser um barraco em estado cru – piso, paredes e teto – ou pode ser uma pousada com facilidades e funcionários. Essas normalmente são concessões feitas por longos períodos de tempo, sob pagamento de taxas ou royalties. Um negócio lucrativo para todo mundo.
Quase não existe parque nacional gratuito no Chile. Paga-se para entrar – em geral 1.000 pesos chilenos (hoje em torno de R$ 3,50) e paga-se para acampar (geralmente 3.000 pesos chilenos, ou hoje R$ 10,50) com facilidades simples como latrinas secas e chuveiro de água fria. Não existe um exército de guarda-parque com uma frata de veículos, mas sempre há um funcionário bem informado, uniformizado, simpático e solícito para o atendimento. Trabalhadores são mão-de-obra local, contratada por dia ou por empreitada, sem vínculos empregatícios com o Estado. Isso pelo menos foi o que observei até agora, tanto nessa região quanto no extremo sul do país.
O fluxo regular de turistas, circulando por trilhas bem marcadas e conservadas, concentra o impacto ambiental e promove a preservação da unidade como um todo. Proteção sustentável. Muito diferente dos parques brasileiros – nacionais, estaduais ou municipais – com raras exceções. No Brasil a palavra de ordem parece ser: restringir para proteger.
Nos parques estaduais Carlos Botelho e PETAR, em São Paulo, flagrei diversas situações de mal uso da terra pública enquanto treinava e participava de corridas de aventura. Vi palmiteiros, barracos de caçadores e pescadoes ilegais, trilhas de moradores locais que usavam a área do parque como o quintal de suas casas. Quando mencionei isso à direção do parque a resposta, óbvia e repetitiva, era que “não havia pessoal suficiente para fiscalizar, nem equipamento”. Resposta fácil. Fácil demais. Minha análise é que não havia vontade.
Não faz muito tempo, enquanto mapeava a trilha ao cume do Pico Paraná para o Guia de Trilhas TREKKING 2 (lançado há duas semanas), flagrei com um montanhista paranaense um grupo de uns oito jovens que usaram uma pequena clareira de acampamento como latrina. Fezes e montanhas de papel higiênico abandonados ao lado da trilha. Fotografamos e filmamos tudo. Chamamos os garotos e dissemos sem o menor temor: limpem tudo, agora, na nossa frente, ou desceremos a montanha e denunciaremos vocês à Polícia Florestal e às autoridades responsáveis pelo parque.
Não houve replique, discussão ou gesto de agressividade por parte dos meninos. Nós também fomos respeitosos, embora duros e firms. Filmamos os garotos recolhendo o papel higiênico (não permitimos que eles enterrassem esse lixo) e enterrassem as fezes, ainda frescas de seus amigos. Um nojo. Um trabalho ingrato. Mas o resultado foi aquele que pretendem as autoridades, sem sucesso quando depende exclusivamente delas: uso fiscalizado da terra pública. Na descida informamos o dono da fazenda que serve de principal acesso ao parque e que, na ausência absoluta do Estado no local, faz o papel de guarda-parque.
Usuários bem informados, conscientes, ativos são a melhor forma de fiscalização, não tenho dúvida. Lembro da história que ouvi em 1980 – quando morava em Boston, nos EUA – sobre o Central Park, em Nova Iorque. O parque, na década de 70, era um antro de estupradores, ladrões, drogados e assaltantes. Quando começou a onda de corrida de rua e os corredores começaram a usar o parque para treinar, dia e noite, mudou o cenário. Hoje o Central Park é bastante seguro, muito mais vigiado do que quando sua guarda estava integralmente nas mãos da polícia. Hoje cada cidadão é um vigilante.
Tenho a impressão que o Estado no Brasil trata o cidadão como um incapaz, como uma criança, deficiente mental ou índio (segundo a constituição o índio é incapaz). Isso parece gerar um ciclo vicioso que termina por se refletir na atitude do próprio funcionário público, que também é um cidadão antes de qualquer outra coisa, fazendo-o sentir-se realmente “incapaz”. Parece sempre faltar alguma coisa que torne sua função possível.
No Brasil existe o dogma da gratuidade. Sou da opinião que parque gratuito e abandonado não é política de uso inteligente da terra pública. Nem sempre (na verdade, raramente) o gratuito é sinônimo de qualidade. Gostaria de ver um dia parques nacionais como, por exemplo, o Itatiaia, totalmente abertos ao público, sem restrições; onde a participação ativa da sociedade, organizada em instituições ou não, dêem ao cidadão a oportunidade de exercer seu papel tanto de usuário quanto de fiscalizador – fiscalizando inclusive e especialmente as atitudes e políticas do Estado.

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