Outro dia, uma pessoa interessada em participar de um dos nossos cursos e treinamentos em aventura, aqui no REFÚGIO KALAPALO, questionou se havia cobertura de celular na região. Expliquei, via Whatsapp, que não havia cobertura, que vivíamos numa fazenda em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira, a 1.585 m de altitude, entre araucárias e riachos cristalinos, 13 km da cidade mais próxima. Digitei ainda que, durante o curso, não teríamos tempo disponível para nos conectarmos com o resto do mundo. E nem deu tempo de explicar que tínhamos WiFi em casa, quando o cara digitou:
“VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO. EU NÃO POSSO FICAR DESCONECTADO!!!”
Parei de teclar. Pensei alguns segundos com os dedos em riste, perguntando para mim mesmo se valia a pena receber aqui em casa alguém assim. Em seguida, questionei minha repulsa. Será que eu não estava fazendo julgamento precipitado? E se o interessado fosse um médico, alguém com problemas graves de doença na família, pai de crianças muito pequenas, marido de uma mulher extremamente ciumenta e possessiva, presidente de uma multinacional? De repente, o cara não podia mesmo ficar desconectado…
E chacoalhei a cabeça, como quem quer expulsar piolhos ou pensamentos negativos. Como assim, pensei, “não posso ficar desconectado”? Como assim, “talvez ele não possa mesmo ficar desconectado”? Que absurdo é esse???
“Melhor você não vir para cá então” — teclei e desliguei o celular.
Tirei o resto da manhã para refletir sobre o ocorrido. Nada parecia tão importante.
Em primeiro lugar, fiz questão de dizer para mim mesmo que eu não estava certo, o tal cara não estava errado, nenhum dos dois tinha razão e não havia um conflito entre nós. Isso estabelecido para mim mesmo, ficou mais fácil analisar a situação e tentar entender o desconforto. Realmente, concluí, existem pessoas e situações que exigem conexão constante. Mas, por outro lado, o serviço que ofereço, aquilo que chamo de “trabalho”, propõe um final de semana em contato estreito com a natureza aprendendo técnicas e conceitos de aventura que pressupõe isolamento e introspecção. Assim, por maior que fosse a exigência de conexão do tal interessado no meu curso, a exigência não fazia sentido naquele contexto.
Suspirei aliviado. Eu não tinha sido intransigente.
Mas, e se o sujeito estivesse pedindo socorro? Se seu nível de estresse estivesse num nível tão elevado que ele precisava tentar se desconectar, mesmo que momentaneamente? Imediatamente, lembrei de diversos exemplos, em cursos anteriores, em que pessoas manifestaram uma espécie de descoberta, um insight, depois de caminhar por trilhas e acampar selvagem por uma noite no topo da montanha. Gente que percebeu que a vida pode ser bem mais simples, que a natureza revigora e restaura, que saúde e disposição valem mais que qualquer moeda forte, que às vezes tudo o que precisamos na vida pode caber dentro de uma mochila.
Será que fui insensível? Indiferente? Desumano?
Lembrei então de alguns exemplos, casos bem mais raros, de gente que participou de atividades que organizei e terminou frustrada. Lembrei de um cara que passou frio num acampamento durante uma viagem de bike e ficou muito irritado. Outro que não aceitou com bom humor o fato do grupo não ser tão forte quanto ele e não conseguir cumprir o roteiro proposto. Um terceiro que perdeu a paciência porque nos perdemos por algumas horas num bosque à procura de uma trilha alternativa. Enfim, gente que tinha muita expectativa e pouca flexibilidade. Gente que tinha objetivos a cumprir e não aceitava simplesmente a experiência como meta final. Em todos esses casos, tudo o que fiz no final foi pontuar que “nosso compromisso era com o esforço, não com o sucesso”. Uma frase que aprendi com um velho amigo e que vem me acompanhando há décadas.
Se nosso compromisso for com o esforço e não com o sucesso, nunca vai existir fracasso se nos empenharmos ao máximo. Simples assim.
Não, eu não tinha sido insensível. Em qualquer relação somos responsáveis por metade das realizações e das frustrações. Se o cara interessado no curso tivesse feito a parte dele, flexibilizando a metade do caminho que lhe cabia, nós teríamos nos encontrado em algum ponto do trajeto de aproximação. Eu não sou responsável pela intransigência dele, concluí. Relaxei.
Mas, e o dinheiro que deixei de ganhar por não ter acomodado esse cliente? Fui irresponsável? Negligente? Idealista?
Não nasci rico, preciso trabalhar e ganhar dinheiro para sobreviver, isso ficou claro pra mim muito cedo na vida. Talvez até cedo demais. Mas, por outro lado, também aprendi cedo a não supervalorizar o dinheiro, entendi a relação entre tempo e dinheiro. Ficar rico custa muito caro. Tem milionário tão pobre que tudo o que ele tem é dinheiro e nada mais. Flexibilizar e acomodar interesses conflitantes com meus valores, só para garantir renda, nunca me pareceu uma boa taxa de câmbio. Novamente, eu só tenho obrigação de ir metade do caminho numa relação com outra pessoa. E, também, o segredo da autossuficiência não está em ter tudo, mas em precisar de quase nada.
Horas mais tarde, quando religuei o celular, nem li as diversas mensagens, longas e cheias de maiúsculas e exclamações, do tal cara interessado no meu curso. Ele obviamente estava espumando de raiva e vomitava verdades, indignado com minha última resposta. O sujeito realmente não conseguia ficar desconectado, nem de alguém que claramente não tinha conexão alguma com ele…
Texto: Guilherme Cavallari






