Estou de luto. Ontem, 8 de dezembro de 2015, terça-feira, morreu o norte-americano Douglas Tompkins (1943-2015) de hipotermia depois que seu caiaque virou no Lago General Carrera. Tompkins chegou a ser levado de helicóptero a um hospital, mas não resistiu. Ele tinha 72 anos e ficou famoso no meio empresarial outdoor por ter fundado a marca The North Face. Tompkins foi um grande montanhista e fez parte da equipe que abriu a clássica Via dos Californianos, em 1968, no Monte Fitz Roy, em El Chaltén, na Argentina.
Quem leu meu livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS (link para a página oficial) sabe bem como estou me sentindo agora. Tompkins é um capítulo importante do livro. Sua atuação pela preservação de áreas naturais na Patagônia é única e exemplar, embora também seja controversa. Ele fundou a Consevación Patagónica (link para a página oficial) om sua esposa, Kris Tompkins, e adquiriu uma imensidade de terras. Seu padrão de preservação ambiental segue a escola da Deep Ecology (Ecologia Profunda), fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess (1912-2009) em 1973.
Tompkins e a Conservación Patagónica adquiriam terras estrategicamente localizadas entre áreas naturais já protegidas como parques e reservas. Uma vez compradas, as terras eram preparadas para receber ecoturistas e turistas de aventura – velhas trilhas eram refeitas, áreas de acampamento instaladas, zonas altamente impactadas eram restauradas. Rapidamente a fauna e a flora davam sinais de recuperação. E depois de montada toda a estrutura de recepção do tipo certo de turista, Tompkins e sua fundação doavam as terras ao governo local com a única imposição de que fossem transformadas em parques nacionais e anexadas aos parques e reservas já existentes.
Mas nem tudo era um mar de rosas para Tompkins na Patagônia. Sua estratégia de aquisição de terras para conversação ambiental caminha contra a economia extrativista local, contra as fazendas de pecuária, mineradoras, piscicultura industrial, etc. Acusado de “destruir a cultura local”, traduzida na criação de gado e ovelhas, para “salvar a fauna, identificada pelo puma”, Tompkins chegou a ser apontado como “criador de pumas”. Uma acusação sem sentido. Mas ele e seu grupo foram diretamente responsáveis pelo aumento não somente do número de pumas na Patagônia, mas também de todos os demais animais da pirâmide alimentícia natural.
Tive o privilégio de usufruir das terras protegidas por Tompkins mais de uma vez em minhas andanças pela Patagônia, como no caso da Expedição Parque Patagônia (link para relato e fotos) que organizei em 2013, quando inclusive pude apertar a mão desse grande homem. O mundo perdeu um visionário e alguém que realmente fazia a diferença.
Estou de luto, embora também alimente o sentimento de que Tompkins viveu uma vida plena, cheia de realizações, morreu cercado de amigos – inclusive Yvon Chouinard, seu companheiro na antológica escalada do Fitz Roy em 68 e fundador da marca Patagonia – fazendo o que mais gostava: esportes de aventura.

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