LITERATURA DE AVENTURA, VIAGENS E REENCARNAÇÕES

1 de novembro de 2018

No livro MISSION MONGOLIA, que acabei de ler, dois cinquentões ingleses, jornalistas precocemente aposentados pela recessão mundial de 2008, abandonaram seus empregos na BBC de Londres e resolveram viver uma grande aventura. Sedentários, bebedores contumazes de cerveja, frequentadores assíduos de pubs, eles decidem viajar até a Mongólia e participar de uma ação de caridade promovida por uma ONG em benefício de crianças de rua da capital mongol, Ulaanbaatar.

Biblioteca Mongólia no REFÚGIO KALAPALO

David e Geoff compraram um 4×4, uma perua Nissan Frontier de dez anos de idade, consertam o que estava errado e dirigiram quase 13.000 km, cruzando Bélgica, Alemanha, Polônia, Ucrânia, Rússia e Cazaquistão até chegar à Mongólia, que eles cruzaram também, até a capital, onde o 4×4 foi doado à uma ONG que reverteu o veículo em dinheiro para seus fundos filantrópicos.

Esse livro, MISSION MONGOLIA, é uma espécie de diário de viagem, simples, direto, bem escrito, morno na primeira metade, envolvente e divertido na metade final, repleto de referências à cultura pop inglesa. Tem sempre alguém no caminho que se parece com alguém famoso na Inglaterra, um comediante, um político, um artista de TV. A dupla leva barracas para acampar, mas acabam preferindo dormir sentados no carro por acharem “mais confortável”; descrevem os quartos de hotéis e seus respectivos banheiros em detalhes pitorescos, como se descrevessem a arquitetura da capital visitada; comem batatas fritas quase que o tempo todo, com medo de provar a culinária local.

Meu interesse por esse livro é óbvio. Estou estudando para minha viagem à Mongólia ano que vem, quando pretendo cruzar o país sozinho de bicicleta acampando selvagem ao longo do percurso. Como fiz nos projetos TRANSPATAGÔNIA e HIGHLANDS, montei uma biblioteca sobre a Mongólia e estou lendo cada volume adquirido. Ao todo tenho 70 livros na coleção, sendo que já li 25 até o momento. Tudo bem, eu viajo só em junho do ano que vem.

Essas expedições que realizo têm um modelo com objetivos claros. Eu viajo para conhecer lugares distantes e exóticos, pelo menos para mim, com vasta áreas de natureza preservada e pouca habitação humana, cultura local rica e vibrante. Viajo sozinho, com a força do meu próprio corpo, de forma simples, leve e dinâmica. A viagem acaba funcionando como um laboratório, onde pesquiso e experimento equipamento de aventura, tecnologias de navegação e comunicação, mas onde também pesquiso e experimento formas de pensar e viver. Nessas viagens, tenho a possibilidade rara de viver vidas que não estavam até então no meu repertório pessoal. Na Patagônia, fui um patagão; nas Highlands, fui highlander; na Mongólia pretende ser mongol. 

Isso, obviamente, não é real. Nasci brasileiro e seguirei sempre brasileiro, não importa para onde eu vá. Mas encaro esses projetos basicamente como projetos artísticos, onde depois destilo a experiência da viagem num livro de aventura, em que a experiência é vivida por opção e planejamento, não apenas como destino.

Deixa eu ver se consigo explicar melhor.

Existem heranças compulsórias, traços que não conseguimos mudar ou apagar. Nossa genética, a raça à qual pertencemos, a cultura que aprendemos na infância, nossa língua materna, a forma como aprendemos a enxergar o mundo. Esses traços fincam raízes profundas em nossa formação individual e acabam por definir que somos. Se opto por me expor a ambientes diferentes, naturais, geralmente desconfortáveis e livres de aparatos mediadores que me façam relaxar; se opto por passar períodos mais extensos exposto a esse ambiente; se sou confrontado por formas de existência humana diferentes daquela que aprendi a considerar como “normal”; se opto por conviver com religiões, línguas, arquiteturas, culinárias, enfim, culturas diferentes da minha; abro uma janela no meu cérebro para, momentaneamente, viver alguém diferente de mim dentro de mim mesmo. É como se fosse uma reencarnação ainda em vida. É como viver mais de uma vida nessa única vida que tenho.

Segue abaixo outros livros que já li sobre a Mongólia e que recomendo:

DRAGON HUNTER é a biografia do explorador norte-americano Roy Chapman Andrews. Aqui no Brasil, o britânico Percival Fawcett ficou erroneamente conhecido como “O Verdadeiro Indiana Jones”, embora o criador do personagem, George Lucas, nunca tenha divulgado quem foi sua inspiração. Mas nos Estados Unidos o consenso geral é que Andrews oferece o melhor modelo para o “caçador da arca perdida”… Roy Chapman Andrews ficou famoso nos anos de 1920 por explorar o deserto de Gobi na China e na Mongólia e descobrir exemplares de ovos de dinossauro. Ele enfrentou tempestades de areia, frio e calor intensos, bandidos, golpes de estado, guerra civil e uma invasão de serpentes em um de seus acampamentos. Minha intenção na expedição é percorrer parte do percurso explorado por Andrews. 

GENGHIS KHAN. Impossível falar de Mongólia e não falar de Gêngis Khan, o homem que conquistou o mundo no século XIII. Essa biografia do autor norte-americano Jack Weatheeford é aclamada como a melhor e mais completa já escrita sobre o imperador mongol. Enquanto me preparo para a Expedição Mongólia Bikepacking 2019, estudo sobre a história e a cultura do país. Nesse livro descobri, por exemplo, que Gêngis Khan praticamente inventou o livre comércio, o dinheiro em papel, a imunidade diplomática, a liberdade religiosa e o impoato único. Só que na escola nós aprendemos que os mongóis eram bárbaros estupradores e assassinos. 

THE BLOODY WHITE BARON. Depois da Revolução Bolchevique de 1917, o Império Russo ruiu e os aristocratas se espalharam pelo mundo. O barão Robert Friederich Nickolaus von Ungern-Sternberg, que passou para a história como “O Barão Sanguinário”, decidiu lutar contra os comunistas na Sibéria e depois na Mongólia. Sua intenção era reestabelecer a monarquia russa com ele próprio ocupando uma posição de destaque logo abaixo do tzar. Mas seus planos logo mudaram e ele decidiu ser o novo imperador mongol. Ungern-Sternberg descobriu, em sonhos, ser a reencarnação de Gêngis Khan, converteu-se ao budismo tibetano e passou a usar livremente o terror e a tortura como ferramentas de trabalho. Ele queimou inimigos e camposese acusados de ajudar os bolcheviques lentamente, arrancava seus olhos, orelhas e línguas enquanto precedia com interrogatórios, e nas batalhas arrancava a roupa e lutava com o peito desnudo. O barão acabou entrando para o panteão budista tibetano como um deus-demônio implacável e impiedoso. Hoje ele é tema de tatuagens neo-nazistas em jovens russos xenófobos e homofóbicos. 

 

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