Faz um tempo, depois de um evento de lançamento de mais um livro e mais um filme de aventura que produzi, a mãe de um querido amigo meu, companheiro de aventuras e desventuras, comentou com seu neto adolescente, o filho desse meu amigo:
— O Guilherme é um cara legal, mas não tome ele como modelo para a sua vida, viu?
Meu amigo deu risada e depois me contou. Rimos juntos. Era realmente engraçado, mas também revelador…
Não fiquei ofendido com o comentário, longe disso. Talvez tenha até ficado surpreso por essa senhora (que, na verdade, tem quase a mesma idade que eu) ter pensado, e se angustiado, que seu neto pudesse seguir meus passos trôpegos e incertos pela vida. Nunca havia imaginado essa possibilidade.
Mas que trajetória foi essa? Quando me perguntam o que faço da vida, qual minha profissão, onde trabalho, fico sempre sem graça e demoro mais do que o normal pra responder. É comum as pessoas se definem segundo sua profissão. Quando alguém se apresenta, vai logo dizendo: “Sou advogado, sou arquiteta, sou empresário, sou professora…”. Tudo bem, isso ajuda a posicionar o interlocutor no cenário, cria uma sensação imediata de segurança como se pisássemos terreno familiar. Mas, no meu caso, se respondo: “Sou aventureiro”, acontece o inverso. Fica todo mundo me olhando como se eu tivesse dito: “Sou marciano”.
Também não ajuda nada dizer: “Sou escritor, faço filmes, dou aulas de técnicas de esportes de contato com a natureza”, porque ninguém entende e ninguém se sente à vontade comigo nesse diálogo. Não existe terreno comum.
Esse desconforto que testemunho tem tudo a ver com o comentário da mãe do meu amigo com o seu netinho. Pensei um bocado sobre o assunto e cheguei a algumas conclusões. Primeiro, ela deve ter gostado do filme que assistiu e deve ter ficado bem impressionada com o lugar do lançamento do filme e do livro. O evento aconteceu num centro cultural de muito prestígio em São Paulo e havia bastante gente. Digo isso porque o sucesso ou a percepção do sucesso podem de fato seduzir e ela por certo temia que seu neto fosse seduzido. Segundo, o temor dessa possível sedução é legítimo. Numa idade em que o jovem começa a pensar em profissão, que faculdade gostaria de fazer, onde gostaria de trabalhar, como vai ganhar dinheiro, o exemplo de um sujeito que aparentemente ganha a vida “de férias” viajando de bicicleta pelo mundo pode causar algum impacto. Pouco importa o quão distante da realidade isso seja. Terceiro, não acredito que o comentário da tal senhora tenha sido direcionado exclusivamente ao neto, acho que foi também direcionado ao filho, como um alerta. As pessoas mais velhas, como eu, tendem a supervalorizar a própria experiência, acham que tudo na vida, a partir de uma determinada idade, é repetição de situações já vividas ou conhecidas. O pai que leva o filho para assistir a um filme-documentário de aventura de um amigo próximo está, inegavelmente, expondo o filho a influências. Isso não acontece, por exemplo, quando um jovem assiste a mais um filme da série Star Wars, Star Trek, Transformers ou Game of Thrones. Essas bobagens fantasiosas não direcionam a vida de ninguém. São passatempos inofensivos, inodoros e insossos.
Imaginando um desdobramento da cena, fantasiei pra mim mesmo que o tal adolescente veio até mim e perguntou: “Como você consegue viver fazendo o que faz?”, o que na verdade era a pergunta velada: “Como eu faço para seguir seus passos?”
Na minha imaginação, respondo: “Não conte nada pra sua avó, mas se você, como eu, gosta de aprender mas acha a escola uma burrica, não entende porque o trabalho tem que ser algo chato e repetitivo, não consegue aceitar viver trancado num escritório, correndo atrás de dinheiro para comprar coisas que você não precisa de verdade, se você quer conhecer o mundo, quer explorar e expandir seus limites físicos e intelectuais, quer aprender línguas e viver culturas exóticas, quer ser o mais livre possível… Então, você já é um aventureiro! Não precisa fazer nada, só seguir sua intuição e não se deixar domar! A verdade é que não existe mapa para essa trilha…”.
O outro lado da moeda, a parte que eu explicaria como: “Não existe segurança na aventura, não existe previsibilidade, você vai estar sempre dividido entre parar e seguir adiante, não existe destino final, conquista absoluta, a coleção de dúvidas será sempre muito maior do que a de certezas e cada raiz fincada será também uma âncora pesando na vida…”, essa parte guardei pra mim. Caso contrário, estaria fazendo eco à voz temerosa da avó. Medo de que?
Aventureiro é um bicho destemido ou pelo menos finge ser.
Texto: Guilherme Cavallari






