A melhor coisa que aconteceu nas últimas eleições — marcadas por baixarias, mentiras, desequilíbrios emocionais e índices negativos de consciência e cidadania —, foi a campanha espontânea de ir votar carregando um livro. Um gesto nada sutil e de coragem beirando o revolucionário nas atuais conjunturas globais.
Livros são bandeiras que proclamam nosso compromisso com tudo aquilo que é etéreo e fundamental, impalpável e essencial, profundamente humano. Bandeiras devem ser carregadas em lugar visível, hasteadas acima de nossas cabeças. Livros são ideias, ideais, conceitos, teorias, possibilidades, culturas, olhares e vozes. Vidas encadernadas e organizadas para serem perscrutadas e absorvidas. Quem lê livros vive muitas vidas.
Nunca gostei de estudar, porque estudar pra mim estava vinculado à escola, ao excesso de disciplinas e ao excesso de respeito aos professores, que eram seres carrancudos e distantes, inacessíveis. A escola era sinônimo de aulas obrigatórias de moral e cívica, onde só se ensinava o patriotismo burro ao estilo “Brasil, ame-o ou deixe-o”, sem pensamento crítico e construtivo, nada com intuito de melhorar o país. Ou então as enfadonhas aulas de religião, que na verdade eram catecismo mal-disfarçado, onde só se ensinava sobre cristianismo como se isso resumisse o mundo. Na escola, nunca tive aulas sobre budismo, hinduísmo, islamismo ou qualquer outra religião fora do aceitável e promovido pelo sistema. Nenhuma informação sobre como outras culturas enxergavam a vida. Aulas de educação física resumiam-se a jogar futebol na quadra de cimento áspero, com as traves sem rede, e quem, como eu, não ligava a mínima pra futebol, era visto como alienígena. Pra completar, havia ainda as intermináveis aulas de física, química e matemática, onde tudo o que se exigia era que decorássemos fórmulas que nunca utilizaríamos na vida, com exceção talvez das provas de vestibular. Por isso tudo, nem pensei em fazer faculdade. O que eu queria aprender, a escola não queria ensinar. Enfim, estudar nesse ambiente confinado e mofado, em plena ditadura militar, era um saco!
Pra minha infinita sorte, no entanto, minha mãe me ensinou a gostar de livros.
Assim que aprendi a ler, ganhei uma linda coleção de quatro volumes com contos infantis clássicos — O Gato de Botas, Ali-Babá e os Quarenta Ladrões, Aladim, Cinderela, A Bela Adormecida, Rapunzel, O Barba Ruiva, etc. Lembro que cada capa de livro, todos grandes, mal cabiam no meu pequeno colo, com os títulos dourados como se fossem de ouro puro, tinha uma cor diferente. Eram tão bonitos — e custaram tão caro, pelas repetidas críticas em voz alta do meu pai — que eu temia tocar suas páginas. Se tivesse luvas brancas, usaria um par para ler todas as noites.
Li tudo e sonhei um dia conhecer “as arábias”, navegar os sete mares, visitar a Sibéria, viver num bosque sombrio e silencioso onde com certeza haveriam bruxas… E, de certo modo, estou até hoje cumprindo essa promessa.
Depois veio a fase Júlio Verne e mergulhei nas 20.000 léguas submarinas, passei cinco semanas num balão, viajei ao centro da terra, dei a volta ao mundo em 80 dias e fui da Terra à lua. Verne transformou o mundo aos meus olhos em algo acessível e ao mesmo tempo mágico, meu destino absoluto desde então, mesmo porque não existe outro disponível, nem precisa haver.
Jack London incentivou que eu vivesse dois anos nos Estados Unidos, onde fui limpador de chaminés em Boston, sonhando ser lenhador no Canadá ou garimpeiro no Alasca. William Shakespeare, Charles Dickson, Thomas Hardy, Virginia Woolf e as irmãs Brönte, para citar apenas alguns nomes, praticamente me obrigaram a passar dois anos na Inglaterra, onde carreguei malas num hotel em Londres e catei batatas em Cambridge. Os filósofos alemães exigiram que eu passasse dois anos como mensageiro de bicicleta em Berlim, respirando o ar que eles respiraram e bebendo da água que eles beberam. Exodus, do Leon Uris, fez com que eu morasse nove meses em Israel, para depois perder o encanto pelo país, infelizmente. Mas o melhor complemento de qualquer livro é mesmo a realidade vista com nossos próprios olhos. Dostoiévski, Tolstoi e Gogol fazem minha boca salivar quando penso na Rússia. Kipling e Rushdie ainda vão me levar à Índia. A lista é gigantesca.
Olhando pelo lado prático e até utilitarista, essas andanças pelo mundo possibilitaram que eu aprendesse inglês, espanhol, alemão e italiano — algumas línguas fluentemente, outras o suficiente para ler e me comunicar. Mas, novamente, foram os livros que me ensinaram de verdade esses idiomas estrangeiros. Nas ruas, aprendi a entender e falar de qualquer jeito, mas lendo, aprendi a entender a gramática, expandir meu vocabulário e compreender a cultura que essas línguas simbolizam. Mais tarde, acabei dando aulas de inglês para executivos por anos, vivendo confortavelmente, enquanto meus projetos pessoais não decolavam. Hoje pesquiso e traduzo material inédito em português para engrossar meu trabalho.
Não foi por acaso que, ainda muito criança, já sonhava em ser escritor e aventureiro. Acho que era como, hoje em dia, sonhar em ser Harry Potter, ser mágico e desconhecer barreiras, fronteiras e limites. E quem já leu meus livros, minhas humildes narrativas de viagem e aventura, percebe claramente que meus verdadeiros e únicos companheiros de viagem são os livros. Os livros que escrevo são também sobre livros que li e que me ajudaram a entender o lugar visitado. Considero a experiência literária tão importante quanto a experiência de vida. Aliás, mal consigo enxergar a diferença entre as duas.
Por isso, tudo o que sei, aprendi nos livros. Livros são minha pátria, minha família e minha religião. E quem não concordar, pode virar a página, mas continue lendo por favor!
Texto: Guilherme Cavallari











