
Narrativa de uma visita ao histórico navio RRS Discovery, na cidade de Dundee, na Escócia.
TEXTO / FOTOS: Guilherme Cavallari
Quando eu estava na Escócia, depois de percorrer a Cape Wrath Trail — uma travessia de 450 km de extensão pelas Highlands, considerado “o trekking mais difícil da Grã-Bretanha”, narrada em detalhes no livro HIGHLANDS, POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS — estiquei a permanência no país para fazer pesquisas e fui visitar um navio, o RRS Discovery, ancorado na cidade portuária de Dundee.
O RRS Discovery foi o último veleiro clássico de madeira com três mastros a ser construído na Grã-Bretanha. Lançado ao mar em 1901, sob a tutela do depois famoso capitão Robert Falcon Scott, sua função era servir de transporte e de base de apoio a pesquisas científicas na Antártica — por isso a sigla RRS que precede seu nome: Royal Research Ship, ou “Navio Real de Pesquisa”, em português. O barco foi uma importante ligação entre a Inglaterra e a Antártica, a continuação de uma longa história.
Desde sua descoberta definitiva, entre 1772 e 1775, quando o capitão britânico, explorador e cartógrafo James Cook circum-navegou a Antártica, a região entrou de vez nos planos da Grã-Bretanha. Ainda hoje o continente gelado é motivo de muita especulação e de manobras políticas engendradas por sua influência geopolítica e seu imenso potencial em riquezas naturais. Sob a desculpa de pesquisas científicas, os países poderosos vão tentando, palmo a palmo, meter as mãos nesse patrimônio internacional.
Entre 1839 e 1843, o capitão inglês James Clark Ross (1800-1862) – filho do aristocrata escocês Sir John Ross (1777-1856), que chegou a almirante da Marinha Real Britânica e foi um famoso explorador no Ártico — liderou os navios HMS Erebrus e HMS Terror em três extensas expedições de exploração e mapeamento de uma importante região da costa da Antártica. Dessa longa investigação geográfica ficaram os nomes de batismo de imponentes marcos do continente, como o Mar de Ross, os montes Erebrus e Terror, a Plataforma de Gelo de Ross e a Ilha de Ross.
No final do século XIX e começo do século XX, os países mais desenvolvidos e mais expansionistas aumentaram seu interesse pela Antártica. De repente, Estados Unidos, Suécia, França, Alemanha e até a pequena Escócia enviaram expedições ao extremo sul. Pra não ficar atrás, a Grã-Bretanha idealizou a maior de todas as expedições, batizada de British National Antarctic Expedition, mais tarde conhecida simplesmente como Discovery Expedition — a Expedição Discovey, em homenagem ao famoso navio.
Duas importantes entidades científicas britânicas, a Royal Geographic Society (RGS) e a Royal Society, uniram forças para montar uma expedição científica com força de operação militar. Um navio de 172 pés (52 metros de extensão), movido a vela e com motor auxiliar a carvão, todo reforçado para suportar as imensas pressões do gelo, foi encomendado ao cais da cidade de Dundee, no nordeste da Escócia. O valor do investimento chegou, na época, a 51 mil libras esterlinas, o que corresponderia, em dinheiro de hoje, a mais de 4 milhões de libras.
À frente do projeto estava Sir Clements Robert Markham (1830-1916), então presidente da RGS, principal responsável pelas mais importantes expedições britânicas à Antártica e o homem que projetou o nome do capitão Robert Falcon Scott no cenário mundial. Markham havia começado sua carreira de geógrafo e explorador na Marinha Real Britânica e defendia a hierarquia e a organização militar em expedições científicas.
A Expedição Discovery foi muito bem organizada e equipada. Nunca antes, ou depois, na Grã-Bretanha um navio foi construído exclusivamente com esse fim exploratório e científico. Embarcações famosas como o Endurance, Nimrod, Morning, Adventure, Aurora e Terra Nova, para citar apenas alguns, eram barcos de guerra ou de comércio adaptados para expedições polares e muitos levavam a sigla HMS antes do nome, por serem His/Her Majesty Ship, ou Navios de “Sua Majestade Real”, em português, propriedades da Royal Navy, a Marinha Real.
O RRS Discovery foi equipado com tudo o que havia de melhor e mais moderno disponível na época. Vinte e cinco cães de trenó foram comprados na Sibéria, um balão de ar quente foi incorporado para pesquisas aéreas, as roupas eram da melhor lã de ovelhas Merino e de plumas de gansos siberianos, e grande parte dos custos da expedição foi bancada pelo milionário Llewellyn Wood Longstaff (1841-1918), membro da RGS, cujo filho mais velho, Dr. Thomas George Longstaff (1875-1964) participou de importantes expedições de montanhismo nos Himalaias, inclusive a histórica British Mount Everest Expediton de 1922, a primeira expedição a tentar alcançar o cume do Monte Everest e que tinha entre os membros George Mallory (1886-1924), desaparecido no Everest dois anos mais tarde e talvez o primeiro ser humano a pisar no cume da montanha mais alta do planeta.
Para capitanear o navio e liderar as pesquisas, Sir Markham conseguiu junto ao Almirantado Britânico a liberação do jovem oficial Robert Falcon Scott. Da Marinha Mercante, vieram Albert Armitage, segundo em comando, e Ernest Shackleton, terceiro em comando e responsável pelos suprimentos e diversão a bordo. Shackleton foi aceito na Expedição Discovery por meio de uma indicação pessoal de outro filho de Llewellyn Wood Longstaff, Cedric Longstaff, estabelecendo entre o futuro capitão do Endurance e a família Longstaff uma proveitosa relação.
Entre os marinheiros escolhidos para a expedição estavam nomes mais tarde famosos na exploração polar como Edgar Evans, Ernest Joyce, Frank Wild e Tom Crean, último a entrar no time depois da deserção de um marinheiro quando o navio já estava na Nova Zelândia.
A Expedição Discovery foi um sucesso total, ou quase.
Scott construiu uma cabana de madeira, pré-fabricada e transportada em pedaços a bordo do RRS Discovery, que mais tarde viria a ser fundamental na vida de Shackleton, e o navio passou dois invernos presos no gelo. Importantes pesquisas magnéticas foram realizadas e, no dia 30 de dezembro de 1902, Scott, Shackleton e Wilson alcançaram o marco de 82˚ 17’ S, o ponto mais austral atingido por seres humanos até então. Na caminhada de volta Shackleton quase morreu debilitado pelo escorbuto e, assim que foi possível, Scott o enviou de volta para a Inglaterra no navio de apoio Morning, abalando fortemente a relação entre os dois. A partir desse desentendimento, Shackleton decidiu investir na própria carreira como explorador e líder de expedições, o que resultou, anos mais tarde, na famosa Expedição Endurance, de 1914-1917. Esse divórcio pode ter salvado Shackleton de morrer ao lado de Scott na Antártica, durante a Expedição Terra Nova de 1910-1912.
Ou seja, tudo começou com a Expedição Discovery, esse fantástico navio, cheio de história e de fantasmas, hoje ancorado e instalado como museu num cais seco em frente à estação de trem na cidade escocesa de Dundee, para onde eu me dirigia num fim de tarde gelado de novembro.
A viagem de trem desde Edinburgh, a capital do país, não foi exatamente tranquila. Meu vizinho de poltrona era um escocês magro que cheirava a cigarro e carregava um telefone celular numa mão e uma lata de cerveja aberta na outra. Assim que a lata ficava vazia ele corria até o vendedor ambulante — que arrastava um trailer de rodas com quitutes e guloseimas de vagão a vagão, nada natural ou saudável —, e comprava outra. Assim que uma longa ligação no telefone terminava ele começava outra. Minha diversão era tentar entender o que ele dizia. Eu não tenho dificuldade alguma com a língua inglesa e menos ainda com o sotaque escocês, mas o cara falava quase em dialeto, carregado de gíria, com a língua pesada de álcool.
Desembarquei do trem e me vi no meio da chuva fina, de noite, em pleno sábado, numa avenida movimentada de uma cidade estranha para mim. Fui perguntar a um grupo que fumava e conversava na calçada onde ficava o centro. Eram dois casais, os homens estavam completamente bêbados e as mulheres tentavam dissuadi-los de voltar para o pub.
— Por favor, onde posso encontrar um hotel por aqui?
— Vá se foder! — respondeu o maior dos dois bêbados.
— Vai tomar no cu! — completou o outro, também maior que eu.
Fiz de conta que não entendi as ofensas e perguntei de novo com ainda mais calma. Uma das mulheres segurou o grandalhão maior, que fez menção de partir para cima de mim. O outro bêbado entendeu minha pergunta e traduziu para o amigo:
— Esse turista de merda só quer saber onde fica a bosta do hotel.
— Aaah! — fez o outro, imediatamente calmo. — Por que ele não disse isso antes?
Todos os quatro começaram então a falar juntos, indicando a mesma direção mas usando diferentes referências. O centro da cidade ficava logo ali virando a esquina e os pubs também. Agradeci as informações e eles me convidaram para conhecer um pub no caminho, para onde eles estavam indo. Agradeci a gentileza e segui meu rumo.
— Bem-vindo à Escócia! — gritou um deles enquanto eu me afastava.
Na manhã seguinte, depois do café improvisado no albergue da juventude onde passei a noite, fui direto ao Discovery Point, como o museu foi batizado. Dez minutos de caminhada e cheguei ao meu destino. Um veleiro de madeira de 172 pés e três mastros é realmente impressionante. A altura dos mastros é de deixar qualquer um tonto em terra, agora imagine pendurado nas travessas das velas, onde os marinheiros tinham que subir para baixar e recolher as grossas e pesadas lonas em qualquer clima e a qualquer hora…
Controlei meu desejo inicial de entrar imediatamente a bordo e visitei primeiro o museu vizinho ao barco. E não me arrependi. A praça de concreto na entrada do edifício apresentava um lindo mosaico de seixos rolados formando uma rosa dos ventos. Quatro estátuas e pinguins cabisbaixos em tamanho natural — grandes, por serem pinguins imperiais — marcavam os pontos cardeais. A rosa dos ventos e o pinguim imperial de cabeça baixa eram elementos do brasão oficial da Expedição Discovery.
O prédio hexagonal de grandes tijolos amarelados e aparentes apresentava também grandes vidraças de metal e vidro do chão ao teto. Uma cúpula metálica, também hexagonal e fechada no topo em forma de abóboda arredondada, dava ares de observatório estelar ao edifício. A construção tinha a imponência e a praticidade típicas do estilo inglês de prédios públicos, desenhados para durar, servir e impressionar.
Dentro do museu, a exposição era bem montada, didática e divertida, começando pela descrição da construção do RRS Discovery em Dundee, passando pelo enorme conjunto de mantimentos e equipamentos transportados até a Antártica, apresentando a tripulação e terminando com o dia a dia no continente gelado. Havia até um cinema no museu, onde assisti a filmagens originais da British National Antarctic Expedition. Mas o que eu queria mesmo era subir a bordo do navio…
Depois de voltar da Antártica e aportar em Londres, no dia 15 de setembro de 1904, o RRS Discovery passou por uma longa fase difícil em sua vida. De 1905 a 1979 o navio histórico passou de mão em mão, foi navio mercante navegando entre o Canadá e a Inglaterra, foi escola naval e foi base de operações do Sea Scout, o braço marítimo do Movimento Escoteiro. Em 1979, a embarcação foi adquirida pela Maritime Trust Restoration, uma entidade sem fins lucrativos que restaura e preserva o patrimônio histórico naval britânico. Depois disso até virar o museu que é hoje, foi um longo e lento processo de pesquisa e restauração.
Apesar de ser domingo e do clima, quase ameno para novembro na Escócia, eu era um dos únicos visitantes em todo o museu. Antes de pisar a bordo do RRS Discovery, depois que caminhei pela tradicional passarela de madeira, mentalmente pedi permissão ao capitão Scott para subir a bordo. Também imaginei a tripulação atarefada, cada um cumprindo sua função, indiferentes à minha presença, um mero visitante. Permissão concedida, pisei no convés e voltei no tempo.
O convés estava limpo, livre das toneladas de caixas de suprimentos que decoravam a embarcação no momento de sua partida para a Antártica, em 1901. Nem sinal dos 25 huskies siberianos que uivavam em uníssono a qualquer hora do dia e, particularmente, da noite. Esses cachorros, inclusive, foram enviados a pedido do capitão Scott por ninguém menos do que o norueguês Fijdtjof Nansen (1861-1930), famoso explorador polar e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1922. Mas, na minha mente, eu via cachorros, marinheiros, oficiais, a figura brincalhona de Shackleton, o silencioso e prestativo Dr. Wilson e os brilhantes olhos azuis, penetrantes e intimidantes, do capitão Scott.
O navio era menor do que eu imaginava, ou talvez eu não tivesse ideia alguma do tamanho exato, embora soubesse suas medidas. É engraçado como a imaginação não é controlada pela matemática ou a lógica. De certo modo, eu me sentia como se voltasse a um lugar visitado na infância, embora nunca tivesse estado antes nesse barco ou em nenhum barco parecido. Tudo parecia menor do que minha memória de quanto tudo era grande e eu era pequeno.
A cabine de comando estava fechada, trancada, proibida para visitação pública. Eu lembrava, dos inúmeros livros já lidos, que ali ficava uma estação de medição magnética. A Expedição Discovery tinha como uma de suas missões tentar estabelecer a posição do Polo Sul Magnético, feito que só foi conquistado em 1909 pela Expedição Nimrod, dirigida por Shackleton. E o irlandês gozador parecia me olhar e sorrir com seus botões, em algum canto do convés.
A escolha de Scott para dirigir a Expedição Discovery causou muita controvérsia. Ele era, sem dúvida, um brilhante e promissor oficial da Marinha Real, mas não tinha experiência prévia alguma em expedições polares. Seu padrinho político, o presidente da Royal Geographic Society, Sir Clements Markham, praticamente obrigou a mesa diretiva do projeto a aceitar essa nomeação. Segundo Markham, era preciso pulso firme e disciplina para alcançar objetivos e só um oficial da marinha conseguiria tal proeza. Em contrapartida, a tripulação seria formada também por marinheiros da marinha mercante e cientistas civis, algo que Markham, relutantemente, foi obrigado a aceitar.
Abaixo do convés, o Discovery parecia ainda menor, mais apertado, quase claustrofóbico. A réplica do grande motor a carvão original, vendido como sucata pouco depois do navio voltar da Antártica, era um verdadeiro dinossauro do princípio da Revolução Industrial. Apesar do tamanho monumental, sua potência era de apenas 450 HP. O estoque de carvão era o calcanhar de Aquiles da embarcação, que navegava de forma desajeitada apenas em velas, obrigando a constantes paradas para reabastecimento. Na partida para o continente gelado, havia 240 toneladas de carvão nos porões e mais 30 toneladas no convés. Combustível suficiente para aproximadamente 6.000 milhas náuticas, ou 11.112 km. A distância mais curta, por mar, de Londres até a Península Antártica, é cerca de 14.000 km.
Fiquei um tempo admirando o motor e imaginando, sem grande dificuldade, o trabalho dos “fornistas”, que alimentavam a fornalha da máquina com pás de combustível sólido, dia e noite sem parar. O mesmo calor produzido para fazer funcionar o motor, aquecia água e o próprio barco.
Perto da proa, um corte didático na parede do navio mostrava sua construção interna. As vigas e travessas de estruturação eram gigantescas, maciças, feitas com as madeiras mais nobres disponíveis na época, como carvalho inglês, pinho de Riga e olmo inglês. Tudo pensado para que o navio fosse indestrutível no ambiente gelado e povoado de icebergs da costa da Antártica.
O lugar mais interessante do navio, para mim, foi a sala de refeições dos oficiais e cientistas. No centro, havia uma imensa mesa de madeira, fixada ao chão de tábuas. Em torno, cadeiras giratórias de madeira também fixas ao piso. Em três, dos quatro cantos do salão retangular, havia portas para pequenas cabines dormitórios, todas com portas de venezianas para ajudar na ventilação. A maior cabine, obviamente, pertencia ao capitão, cuja porta permanecia aberta mas a entrada proibida ao público. Um sinal de respeito ao comandante que me pareceu adequado.
Bonecos de cera, bem-feitos e vestidos com roupas de época, ofereciam ao cenário pseudo-realista um tom de realidade que achei desnecessário. Eu não precisava deles para imaginar a tripulação viva e ativa. Mas bati de ombros, afinal a instalação foi pensada também para crianças de escolas, que com certeza apreciariam todos os detalhes.
Durante três anos completos, 35 homens viveram dentro desse navio. Mesmo depois de construída a cabana de madeira na Antártica — que permanece quase intacta no gelo, apesar de todo o tempo transcorrido — , o barco continuou sendo usado como residência por ser mais quente e confortável. A cabana era uma espécie de centro de convivência onde festas e reuniões eram regularmente organizadas para manter a tripulação entretida. A dinâmica do dia a dia, dentro de uma embarcação relativamente pequena, devia ser massacrante. Olhando por essa perspectiva, chego a concordar com Sir Clements Markham em sua insistência por militares na expedição. Só a vida espartana, metódica, subordinada e extenuante do baixo escalão de uma caserna pode preparar alguém para três anos dentro de um navio como o Discovery.
Acabei conhecendo bem, através dos livros, muitos dos homens que viveram anos de aventura e desconforto a bordo do Discovery. Visitar o navio era também como visitar velhos amigos. Nunca fui fã do capitão Robert Falcon Scott. Biografias e relatos de seus companheiros de expedição, em particular aqueles próximos a Ernest Shackleton, pintam sua figura como alguém teimoso, insensato, explosivo, irredutível mesmo diante de erros inegáveis, orgulhoso e desnecessariamente formal. Ele tinha qualidades inegáveis, com certeza, e também era descrito como um homem educado, afável
quando calmo, vibrante, sincero até demais e extremamente justo. Ele comandou a Expedição Discovery com pulso firme e obstinação, o que resultou no sucesso geral da empreitada. Mas na tentativa de chegar ao Polo Sul, realizada por ele, Dr. Wilson e Shackleton, sua inexperiência somada à sua teimosia quase matou o grupo. Em sua segunda jornada à Antártica, na Expedição Terra Nova, de 1910 a 1912, Scott errou de forma arbitrária a logística da tentativa de chegar ao Polo Sul e morreu, levando para a tumba de gelo, outros quatro companheiros, inclusive o Dr. Wilson. Essa investida, chamada de “A Corrida ao Polo Sul”, foi ganha com muita folga pelo norueguês Roald Engelbregt Gravning Amundsen (1872-1928).
Dr. Edward Adrian Wilson (1872-1912), segundo médico e zoologista da Expedição Discovery, tornou-se muito próximo de Scott nessa primeira viagem. Amado por todos a bordo, afável, tímido, acessível mesmo aos marinheiros mais humildes, ele era também um grande artista. Suas aquarelas das expedições são consideradas obras de arte dignas de exposição nos melhores museus.
Sir Ernest Henry Shackleton (1874-1922), terceiro oficial da Expedição Discovery, acabou se tornando o mais famoso de todo o grupo. Além da já mencionada Expedição Nimrod, de 1907 a 1909, ele também organizou e liderou o “maior fracasso bem-sucedido” da história da exploração polar: a Expedição Endurance, de 1914 a 1917. Oficialmente denominada Imperial Trans-Antarctic Expedition, ou Expedição Imperial Trans-Antártica, essa história é bem conhecida de quase todos e foi imortalizada em imagens espetaculares pelo grande Frank Hurley, fotógrafo oficial da expedição. Num resumo, o navio HMS Endurance ficou preso e naufragou, sendo esmagado pelo gelo antes de tocar a Antártica, obrigando seus tripulantes a viver mais de dois anos à deriva no gelo ou ilhados como náufragos. O próprio Shackleton se responsabilizou e organizou, por conta própria, toda a operação de resgate. Ninguém morreu.
Mas, dentre todos, meu personagem favorito é talvez o pouco conhecido marinheiro Tom Crean (1877-1938), um irlandês forte e bonachão que participou das expedições Discovery, Terra Nova e Endurance. Ele estava, inclusive, a bordo do pequeno barco baleeiro James Caird na épica travessia da Ilha Elefante até a Ilha Geórgia do Sul com Shackleton, depois do naufrágio do Endurance. Numa época em que todos os louros e prêmios, inclusive a imortalidade através de livros e títulos, recaíam apenas sobre oficiais e nobres presidentes de instituições, o simples fato de haver livros escritos sobre a vida de Tom Crean já é um reconhecimento acima da média. Incansável, humilde, bem-humorado, respeitoso sem ser serviçal, ele era uma constante nas listas de tripulação dos mais renomados exploradores. Era como se houvesse um consenso: se Tom Crean estivesse a bordo, não faltariam mãos para qualquer trabalho e não faltaria risadas depois do trabalho feito. O tipo de companheiro que eu também sonho para minhas aventuras. Um dia ainda vou visitar sua estátua no condado de Cork, na República da Irlanda.
Não me considero saudosista, não costumo romantizar o passado e não sou do tipo que sonha ter vivido em outros tempos. Sei que a vida no começo do século XX não era tão fácil e cômoda quanto é hoje para quem, como eu, não nasceu rico. Por outro lado, consigo admirar a fortaleza, bravura e obstinação de homens como Scott, Wilson, Shackleton e, em particular, Crean. Seus feitos nunca mais foram repetidos, embora tenham sido tentados várias vezes com muito mais informação, tecnologia e suporte disponíveis. Algo que me faz pensar se toda essa facilidade e comodismo, à nossa disposição hoje, não nos está transformando em pessoas mais fracas, menos empenhadas, menos comprometidas e apenas mais vaidosas de nós mesmos.
Tom Crean voltou para casa, no condado de Cork, depois de terminada sua carreira de explorador polar. Ele abriu uma hospedaria simples com a família, guardou seu uniforme e as muitas medalhas recebidas por seus feitos heróicos e nunca mais tocou no assunto Antártica. Não existe uma única entrevista dada por ele.
BREVE BIBLIOGRAFIA PARA QUEM QUISER SE APROFUNDAR UM POUCO NO ASSUNTO:
The Voyage of the Discovery – capitão Robert F. Scott (2 volumes)
The Voyages of the Discovery – Ann Savours
Tom Crean, an ilustrated life – Michael Smith
Scott, Shackleton and Amundsen – David Thomson
The Worst Journey in the World – Apsley Cherry-Garrard






























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