A MOCHILA SEMPRE PRONTA

26 de maio de 2019

Texto: Guilherme Cavallari

Quando eu morava na Inglaterra, em Londres, no final dos anos 80, eu era um squatter. A palavra, traduzida literalmente, significa “alguém que está agachado”, “alguém acocorado”, mas é uma gíria para designar “alguém que invade e vive num imóvel vazio, geralmente de propriedade do Estado”. Trata-se de um conceito bem visual, porque quando ficamos acocorados, estamos provisoriamente num lugar.

A primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher, a Dama de Ferro, assumiu o governo e começou a fechar diversos imóveis de propriedade do Estado. Eram locais usados para fins sociais, residências para cidadãos de baixa renda, para doentes, para desabilitados e afins. Thatcher colocou esses imóveis no mercado, pôs tudo à venda. Do dia pra noite, agentes oficiais lacravam endereços com pesadas portas e janelas de chapas de ferro maciço e residências se transformava em caixas vazias, meros objetos de especulação imobiliária.

Eu era o único latino-americano num grupo de uma ou duas dúzias de ingleses, escoceses, irlandeses, australianos, neozelandeses e norte-americanos. Nós invadíamos esses imóveis e passávamos a habitá-los. Era um processo perigoso, que envolvia localizar esses espaços e abri-los à noite, usando ferramentas pesadas e um bocado de força física. Tudo muito rápido porque se a polícia nos pegasse, era cana na certa. Mas, uma vez dentro do imóvel, só poderíamos ser retirados através de ação judicial de despejo, que demorava vários meses ou até anos.

Para nós, aquilo não era só uma economia de aluguel, embora representasse enorme vantagem, já que éramos todos subempregados em funções de baixa renda. Era também uma forma de protesto contra o sucateamento da política de bem-estar social, a destruição de uma rede de proteção para cidadãos necessitados. O movimento punk ainda tinha força e representava nossa postura de não alinhamento, de resistência e contragolpe. Alguns dos meus amigos eram punk, eu era apenas um viajante.

Num período de mais de um ano e meio, vivi em meia dúzia de endereços. Às vezes invadíamos um lugar, dormíamos algumas noites e passávamos adiante a alguém mais necessitado — um jovem casal desempregado com filhos pequenos, um conhecido com problemas de dependência de drogas em tratamento, um grupo que acabara de ser despejado pelo governo. Vivi em grandes casas com dez amigos, com um quarto só para nossas bicicletas. Morei num enorme edifício popular de apartamentos muito pequenos, populares, onde ocupávamos vários apartamentos. Não tínhamos móveis. Catávamos nas ruas aquilo que encontrávamos e as calçadas de Londres eram verdadeiras lojas de promoções, com colchões em todo estado de conservação, manchados de humanidade, mesas de pernas bambas, sofás retalhados por gatos anônimos e molhados por inúmeros cafés derramados.

Nesses endereços, minha mochila ficava sempre meio pronta, já que podíamos ser despejados a qualquer momento. Quando isso acontecia, em geral éramos avisados com alguma antecedência e evitávamos o contato com agentes públicos carrancudos e policiais pouco amistosos. Sempre tínhamos outro imóvel para habitar. Londres parecia um infinito mercado imobiliário em oferta. Podíamos até escolher os distritos de nossa preferência. Morei em Shepherd Bush, Candem Town, King’s Cross e Bayswater, para citar apenas alguns bairros.

Naquela época eu me considerava um aprendiz de escritor. Nada muito diferente de hoje, com a diferença que agora consigo viver desse eterno aprendizado. Por precisar de algumas ferramentas básicas de trabalho, eu carregava comigo uma pequena máquina de escrever Olivetti, comprada ainda no Brasil, e um exemplar em estado cada vez mais precário do Grande Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Minha biblioteca particular tinha sempre mais meia dúzia de títulos, comprados em sebos na Charing Cross, o paraíso dos livros usados na época. A Olivetti e o Aurélio foram meus companheiros inseparáveis por muito tempo, viajaram comigo por Israel, Grécia, Turquia e Itália. Eles ocupavam boa parte da minha grande mochila e eu nunca os identifiquei como peso morto. Viajar leve não fazia parte do meu repertório então.

Essa experiência de ser squatter em Londres se repetiu, com outras nuances, em Berlim no começo da década de 90, quando herdei de um hippie alemão um apartamento em Prenzlauer Berg com aluguel social. O muro de Berlim havia caído a menos de três anos e imóveis do lado oriental ainda pertenciam ao Estado, à extinta Alemanha Oriental, e custavam uma fração do valor de imóveis similares do lado ocidental. Nesse caso, vivi uma situação de luxo puro. Eu morava sozinho num imóvel de quarto, sala, cozinha e banheiro. O amigo alemão que decidiu viver nas Ilhas Canárias deixou ainda sofá, mesa, cadeiras e cama com colchão para trás.

Lembrei disso tudo quando visitei São Paulo outro dia e passei na frente de um edifício ocupado pelo MTST — o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Eu estava dentro de um ônibus e reparava na movimentação na porta do grande edifício. Mãe e filha pequena saíam pra rua, enquanto um senhor idoso entrava, eles pararam uns segundos para se cumprimentar. Outros moradores estavam na calçada, havia um catador de lixo reciclável entre eles, com o característico carrinho de madeira. Todos pareciam ocupados com seus afazeres diários, mas estavam de alguma forma mais relaxados do que normalmente vejo na cidade grande. Voltei no tempo e me vi em Londres e Berlim. O passageiro sentado ao meu lado, percebeu meu olhar fixo e deve ter imaginado que eu pensava o mesmo que ele. De repente, ele disse:

— Comunistas! Maconheiros! Esses esquerdistas estão acabando com o país!

Demorei alguns segundos pra sintonizar no sujeito que falava. Demorei ainda mais tempo para compreender o conteúdo do que ele dizia. Depois fiquei surpreso com minha total falta de emoção, minha total ausência de intercâmbio. Normalmente, meu sangue ferveria imediatamente com tamanha agressividade gratuita, tamanho preconceito e ignorância, mas para minha surpresa não havia sentimento algum em mim. Nada. Era como se o sujeito não falasse a mesma língua que eu. O que, de fato, era verdade.

Desci no meu ponto e esqueci completamente o rosto do meu interlocutor. Ele e seu discurso de ódio se perderam na avalanche de pensamentos que se seguiu na minha cabeça. Em Londres, eu também senti essa animosidade, essa censura agressiva, esse ódio alheio por viver de forma diferente dos demais habitantes da cidade. Mas lá eu era um turista residente, estava ali de passagem. Eu me considerava um viajante e via o mundo como uma escola onde deveria transitar e aprender. Jamais estabelecer raízes ou permitir que minhas raízes brasileiras interferissem na experiência vivida.

Esse trânsito por situações alienígenas, essa oportunidade que agarrei de viver outras possibilidades de vida, abriu um importante canal de compaixão dentro de mim. Por ter abandonado meu país de origem ainda muito jovem, deixando família, língua, cultura e outras referências, terminei por expandir muito minha zona de conforto. De repente, julgar e condenar alguém simplesmente por ser diferente já não era possível nem aceitável.

Hoje me considero um cidadão do mundo que decidiu, por livre e espontânea vontade, viver no Brasil — coincidentemente, meu país de origem. Porém, sinto cada vez mais desconforto no Brasil. Um país rico, povoado de gente pobre que alimenta preconceito contra outros pobres. Um país enorme, que empilha gente em cima de gente para que o gado possa pastar em paz. Um país de natureza exuberante, onde os rios são esgotos abertos, o ar é pestilento e o solo é cancerígeno. Um país de índole pacífica, doutrinado diariamente para se tornar agressivo, armado até os dentes, incapaz de senso comunitário. Um país de infinitas possibilidades, condenado a um eterno presente de mediocridade alimentado por promessas de privilégios. Um país de muitos, dominados por poucos, onde, no final, todos perdem. 

6 respostas para “A MOCHILA SEMPRE PRONTA”

  1. Junior Menini disse:

    Excelente crítica!! O senso de cidadania brasileira nunca vai existir enquanto a educação familiar sempre for calcada no individualismo. É triste! Por isto que não ultrapassamos a barreira que nos separa para sermos desenvolvidos culturalmente.

  2. Gus disse:

    Em tempos onde nas redes sociais as pessoas compartilham apenas momentos de sucesso e felicidade Guilherme tem a primazia de dividir com todos reflexões muito pessoais. Para muitos sua vivência em imóveis abandonados com pessoas “desprevilegiadas” poderia ser uma fase ruim na vida de qualquer um. Mas com tranquilidade o “seu” Guilherme humaniza tais situações e aproxima as pessoas em uma época tão polarizada com tantas certezas em assuntos tão desconhecidos. Os ditos Homo Sapiens devem lutar, incansavelmente, para que nos momentos como os atuais nos lembremos de sermos Homo Empaticus.

  3. Diego disse:

    Triste cenário que atravessamos. As vezes não consigo enxergar futuro.
    Outro dia lendo uma história do descobrimento e povoação do brasil nos séculos 15 e 16 me dei conta que não houve evolução humana em relação aos exploradores de escravos, mercadores, tiranos, reis e rainhas…. Continuamos devastando o meio ambiente por recursos baratos “hoje”, matando nativos, empurrando os menos favorecidos para periferias onde a situação gera outras desgraças. Impressionante! Só mudou a forma de fazer, o resultado é o mesmo.
    Acho que já batemos um nível seguro de conhecimento e tecnologia para atravessar alguns seculos pela frente. O esforco poderia ser revertido para rever os erros e impactos.
    Valeu por compartilhar a experiência

  4. Eduardo Bortolini Segatto disse:

    Guilherme, que ótima reflexão, triste e real. O maior incomodo é que perdi o otimismo no Brasil, não existe mudança, pelo menos para a nossa geração.

  5. Luciene Ruiz Raddatz disse:

    Bela analogia “a mochila sempre pronta” é assim que deveríamos viver! Sucesso sempre…

  6. Quésia Cunha disse:

    Perfeito! Brasil onde a cada dia nos dstanciamos do conceito de comunidade e intensificamos o sentimento individualista.

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