A SOMBRA DE STALIN (FILME)

20 de dezembro de 2022

É temerário usar o excelente filme A SOMBRA DE STALIN para tentar entender a atual guerra na Ucrânia. O título original deixa claro a intenção da obra, que é atacar a Rússia, seja a stalinista ou a atual putinista. Em inglês, o filme se chama simplesmente “Mr. Jones” e conta a trajetória de um talentoso e controverso jornalista galês. 

Em março de 1933, Gareth Richard Vaughan Jones, Mr. Jones, aos 27 anos de idade, viajou a Moscou como jornalista autônomo. Ele havia sido demitido como assessor de assuntos internacionais do gabinete então do Primeiro Ministro britânico Lloyd George. Jones tinha entrevistado, com exclusividade, Adolf Hitler, recém-eleito chanceler da Alemanha. Começava em Berlim a campanha política interna que culminaria com a militarização total da Alemanha e a posterior deflagração da Segunda Guerra Mundial. O mundo via nascer o nazismo e o fascismo, movimentos de extrema direita com objetivos de autoritarismo absolutista que refreassem a expansão da democracia e do socialismo.

Jones queria saber de onde vinha o dinheiro da União Soviética que financiava uma imensa onda de industrialização na Rússia. A economia europeia vivia uma grande crise econômica, resultado da Grande Depressão causada pela queda da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929. Com as finanças mundiais em frangalhos, os investimentos russos soavam extremamente suspeitos.

A Revolução Bolchevique de 1917, liderada por Lenin, que destituiu a monarquia russa e instituiu um governo socialista, lutava para ser reconhecido pelo resto do mundo. A Grã-Bretanha já havia aceitado o novo regime e lucrava muito com a construção de ferrovias e fábricas na Rússia. Os Estados Unidos viviam um dilema entre reconhecer a nova realidade de Moscou e lucrar com potenciais grandes negócios, ou manter-se apegada a conceitos ideológicos pouco lucrativos. Ainda não existia a Guerra Fria, que começaria apenas depois da Segunda Guerra Mundial.

Em Moscou, socialistas do mundo todo trabalhavam para fortalecer Joseph Stalin e a Revolução Russa. Jornalistas famosos, como o anglo-americano Walter Duranty, ganhador do Prêmio Pulitzer de jornalismo em 1932, descreviam as maravilhas econômicas e sociais da União Soviética. Duranty influenciou fortemente a Casa Branca a reconhecer o governo bolchevique, o que finalmente aconteceu em 1933.

Também em 1933, Gareth Jones consegue fazer uma viagem clandestina à Ucrânia, maior produtor de trigo do planeta até hoje. A atual guerra na Ucrânia foi inclusive amplamente divulgada como uma potencial crise alimentar no mundo. O que Jones vê é um cenário de holocausto. Estima-se de entre 3,5 e 5 milhões de ucranianos tenham morrido de fome entre 1932 e 1933. Estimativas mais dramáticas elevam esses números para entre 7 e 10 milhões. Stalin exportava o trigo da Ucrânica para financiar a industrialização soviética. Esse evento entrou para a história com o nome, em ucraniano, de Holodomor (literalmente, “matar pela fome”).

De volta a Londres, Jones tenta divulgar seu testemunho sem grande sucesso, foi preciso a intervenção do magnata da mídia norte-americano William Randolph Hearst (imortalizado pelo cineasta estadunidense Orson Wells no filme “Cidadão Kane”), que comprou a matéria de Jones sobre a Grande Fome na Ucrânia para causar polêmica e vender jornais. Essa matéria jornalística histórica foi a primeira no mundo a denunciar a tragédia ucraniana e tornou Jones uma celebridade, um incômodo na diplomacia internacional e persona no grata na União Soviética.

Jones foi assassinado pouco tempo mais tarde, em agosto de 1935, um dia antes de seus aniversário de 30 anos. Ele estava em território da atual China, investigando a invasão japonesa da Manchúria. As suspeitas pela sua morte recaem sobre a polícia secreta soviética.

Esse filme tem especial importância pra mim por mostrar uma personalidade curiosa e comprometida com a investigação da verdade, valores que procuro incentivar em mim mesmo. Estive na extremo leste da Mongólia, fui até Khalkin Gol, ou Khalkgol, onde russos e mongóis lutaram e derrotaram os japoneses em 1939. Essa batalha mudou a estratégia imperialista japonesa, que desistiu de conquistar a Ásia e atacou a base de Pearl Harbor, que definiu a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Gareth Jones morreu investigando uma região que tive o privilégio de conhecer e estudar. Jones sabia da importância estratégica da região no cenário mundial.

O filme é uma obra de arte. As atuações são brilhantes, os cenários realistas e o espírito da época, o Zeitgeist, é capturado com maestria. O mundo vivia um momento único de liberdade e de criatividade e, ao mesmo tempo, de conflitos profundos. Ambiente perfeito para uma mente comprometida com a observação e a reprodução dos fatos. A Grande Fome na Ucrânia foi também resultado da retaliação de Moscou contra um movimento de libertação em Kiev, o que aproxima a atual guerra do Holodomor.

Desde os tempos do czarismo, a Europa sempre quis desestabilizar a Rússia. Além da desagradável ameaça de um vizinho forte demais, as riquezas naturais russas parecem presas fáceis da cobiça europeia. Lenin e a Revolução Russa estragaram os planos expansionistas do Velho Continente e Stalin terminou por industrializar e fortalecer a União Soviética a ponto de transformar a região em superpotência, competindo em pé de igualdade com os Estados Unidos. Um espinho na garganta do capitalismo internacional. A Ucrânia é a porta óbvia de entrada para a Rússia.

Do ponto de vista da luta por uma nova ordem mundial, um sistema econômico menos explorador e destrutivo, o sonho socialista precisava ser defendido pelos intelectuais ativos como Walter Duranty e tantos outros. No filme A SOMBRA DE STALIN, esse papel é executado de forma simbólica pelo romancista britânico nascido na Índia, George Orwell, autor de Animal Farm (traduzido para o português como “A Fazenda dos Animais”), que traz uma dura crítica ao stalinismo. Animal Farm só foi publicado pela primeira vez em 1945, muito depois dos eventos que envolveram Gareth Jones. Orwell nunca deixou de ser um ativista de esquerda, um sindicalista, um socialista.

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