AUTOSSUFICIÊNCIA E CORONAVÍRUS

11 de abril de 2020

Na aventura, autossuficiência é uma preocupação constante, um mantra que nós aventureiros repetimos constantemente para nós mesmos.

Mas qual o seu significado?

Quando nós, aventureiros, buscamos a autossuficiência não estamos falando da definição literal da palavra encontrada nos dicionários: “Condição do que se basta a si próprio, independente”. 

O que queremos dizer, então?

Pensando no tema e pra tentar explicar minha teoria pessoal sobre o assunto, cheguei à seguinte conclusão: posso dividir autossuficiência em dois tipos: 1) A definição literal, que se apoia nos verbetes dos dicionários, na etimologia da palavra e se encerra em si mesma, criando uma espécie de dogma. 2) A definição que chamo de ideológica, aplicada a um conjunto de valores pessoais ou coletivos.

As pessoas com menos imaginação vão se ater à definição dogmática, dizendo que é impossível alcançar autossuficiência total na aventura a não ser que o aventureiro fabrique sua própria roupa, os próprios calçados, todo seu equipamento, produza toda sua comida, etc.

Quem, como eu, busca a autossuficiência na aventura sabe que tudo isso são apenas detalhes. O que importa é a autossuficiência ideológica, aplicada ao próprio conceito de aventura.

Em nossas expedições (e aqui cabe até tentar definir expedição “como uma busca por autossuficiência”) buscamos, antes de tudo, eliminar bagagem. E por bagagem, digo coisas e ideias.

Quanto menor for minha dependência e mais consciente eu for em relação às minhas dependências, mais fácil será determinar o que é essencial e o que é supérfluo. Menor será minha bagagem.

Se quiser, posso costurar minhas roupas e produzir calçados para mim, posso construir uma barraca e uma mochila, posso até fabricar minha própria bicicleta. Faço a opção de não fazer essas coisas e comprá-las prontas de alguém mais habilidoso que eu, o que não interfere com minha autossuficiência ideológica.

Pra mim, mais importante é ser capaz de realizar sozinho projetos de aventura, travessias em trekking ou bikepacking, por lugares inexplorados por mim e colocando à prova minhas habilidades pessoais, como minha perseverança, minha resiliência, minha capacidade de entrega e de concentração. Ou seja, usar a aventura como laboratório para investigar meus potenciais e deficiências.

Mais de 40 anos praticando esportes e turismo de aventura, em contato estreito com a natureza, resultaram no acúmulo de experiências, de memórias físicas e emocionais, de habilidades aprendidas que, hoje, diante do desafio da pandemia de coronavírus, permitem que eu sofra menos.

O isolamento social não me assusta. Já passei dias e dias sozinho dentro de uma barraca esperando o clima inóspito passar. Já passei semanas e meses sozinho em roteiros de aventura, com ninguém além do meu diário de viagem pra dialogar.

A restrição de movimento não me atormenta. Já fui confrontado com inúmeros obstáculos naturais grandes demais pra mim. Já precisei dar a volta ou dar a meia volta e abortar deslocamentos por conta de desafios grandes demais pra mim.

O medo da doença e da morte não são novidade. A aventura já esfregou na minha cara inúmeras vezes a vulnerabilidade absoluta da minha vida, de qualquer vida. A natureza é mestre em mostrar, a quem quiser ver, nosso insignificância enquanto indivíduos.

O questionamento sobre qual a direção certa, que a atual crise do coronavírus deveria estar provocando em todos (afinal o vírus é uma resposta clara da natureza, do meio ambiente, aos descasos da nossa sociedade) apenas reforça minhas convicções.

Graças à aventura e meu compromisso com ela, acabei escolhendo viver uma vida mais simples, próxima da natureza, priorizando a saúde e a qualidade de vida acima da prosperidade material. 

O contato com a natureza produziu um tipo de questionamento em mim onde a pergunta essencial sempre foi: qual é minha natureza pessoal?

Quanto mais expedições eu realizava, mais acesso passei a ter à “minha bússola interior”. A parte mais íntima de mim que queria algo diferente daquilo que as forças sociais e econômicas impunham de forma mais ou menos sutis. Uma vez descoberta essa bússola, coube a mim ser fiel ao seu norte ou não.

Hoje, estou mais autossuficiente de tudo aquilo que, antes, me prendia aos grandes centros urbanos e sua ausência de qualidade de vida e saúde.

A vida, no seu sentido biológico mais básico, é composta de ar, água e luz solar. Não existe uma só cidade grande no Brasil que tenha ar puro, água potável disponível em todas as casas e acesso ao sol. Nas metrópoles, respiramos um composto gasoso mais próximo de cigarros comerciais do que de “ar”, bebemos água quimicamente reciclada e vemos o sol aos finais de semana, se houver tempo.

Não importa o tamanho da prosperidade econômica, essa é a realidade de quem vive, por exemplo, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Salvador. Mesmo cidades médias têm rios poluídos e ar contaminado. Banqueiros, grandes industriais e comerciantes de extreme sucesso vivem todos a mesma ausência de qualidade de vida.

Não sou ingênuo, mas desejo que essa crise provocada pelo coronavírus sirva para questionarmos nossas cidades, nossos trabalhos, nossos estilos de vida e nossa atitude diante do mundo natural, ao qual fazemos parte integral. Que essa crise nos permita discutir nossas prioridades.

O mundo nunca foi tão próspero, tão rico, tão confortável e tão seguro quanto é hoje, isso é inegável. Mas qual o preço dessa redoma de vidro que nos protege? E será que ela nos protege de fato ou é apenas uma ilusão de proteção? Será que se estivéssmos um pouco mais expostos aos elementos naturais não estaríamos melhor preparados contra esse pandemia natural e as demais pandemias que com certeza virão?

Quem é da aventura, sabe a resposta. 

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2 respostas para “AUTOSSUFICIÊNCIA E CORONAVÍRUS”

  1. Leonardo Moraes disse:

    Excelente texto que nos faz refletir e evoluir.

  2. José Patrício disse:

    Compartilhei no meu Facebook. Sou teu fã. Abraço.

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