Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18
Depois de cruzarmos grandes áreas de bosques densos e terreno úmido, sempre com a sensação de estarmos sendo observados por olhos furtivos entre as árvores, chegamos a um ponto da trilha que circunda a RESERVA NACIONAL TAMANGO, de onde tivemos uma visão panorâmica privilegiada. Desse ponto, conseguíamos ver o Valle Avilés, o Cordón Chacabuco, o Cerro Lucas Bridges na boca do Valle Chacabuco na divisa com a Argentina, a silhueta sinuosa do vale do Lago Cochrane serpenteando também em direção leste. Tudo diante dos nossos olhos. Era impressionante entender que havíamos caminhado tudo aquilo. Quase inacreditável…
Paramos para o almoço num mirante natural, um terraço de relva baixa com vista para o Lago Cochrane e as montanhas virgens na margem oposta. Raras construções — sedes de pequenas estâncias isoladas — pontilhavam a margem do outro lado da água. Minha mente, nessas ocasiões, sempre divaga e meus olhos levam meu pensamento por encostas empinadas, vales profundos e picos distantes. Imagino meus pés me levando lentamente até o fim do horizonte, enquanto faço contas muito precisas e elaboradas, calculando quanto levaria para dobrar a última cordilheira, onde acamparia, quanto de alimento preciso, etc. Às vezes acho que aventura é um vício como outro qualquer, um troço insaciável.
Descemos até a margem do Lago Cochrane sem pressa. Em alguns pontos a inclinação era acentuada e despencamos as ladeiras como cabras supercarregadas. Meus companheiros se moviam de forma segura e autônoma, cada um responsável por si, como se tivessem nascido com mochilas nas costas. Eu ainda tinha a imagem do relevo da nossa travessia na cabeça, aquela geografia vista do ponto estratégico da montanha que me encheu de espanto, e perguntava a mim mesmo se meus amigos tinham consciência da grandeza daquela travessia, do quanto eles haviam percorrido apenas com a força de seus próprios corpos, autossuficientes e independentes. Aos meus olhos eles eram todos heróis. Conquistadores do inútil, é verdade, mas conquistadores do mesmo jeito.
O acampamento que eu conhecia nessa região do lago, quando percorri as trilhas no mapeamento do GUIA DE TRILHAS CARRETERA AUSTRAL, já não existia mais. Os ciprestes esguios que marcavam o lugar onde antes havia construções estavam cercados de mato alto. Seguimos para leste até encontrar uma área plana vizinha à água. Numa clareira próxima encontramos uma espécie de mesa de piquenique, a única construção humana no local. Decidimos acampar ali, apensar do vento forte que soprava do lago. Era aniversário do Rodrigo, nosso companheiro carioca, e teríamos bolo de comemoração. Rodrigo trouxe um desses bolos prontos, tipo bolo Pullman, desde Coyhaique dentro da mochila. Ele tinha comprado também uma vela para o ocasião, mas ela sumiu. Improvisei com dois palito de fósforo. Cantamos o “Parabéns a você” e comemos uma fatia de bolo cada um depois do jantar. Esse aniversário o Rodrigo não esquece mais!
Sem intenção de maldade, eu havia dito ao grupo que nosso último dia de caminhada seria “um passeio ao longo do Rio Cochrane”, só alegria depois de termos camelado desde a entrada da RESERVA NACIONAL LAGO JEINIMENI até ali. Minha memória não é lá grande coisa, ou não registro as dificuldades, só as paisagens bonitas, sei lá… Fato é que os 10 km até a entrada da RESERVA NACIONAL TAMANGO acumularam mais de 500 m de subidas e de descidas. Um sobe e desce sem fim! A vantagem era a vista das águas do lago e do rio Cochrane, que revezavam tons de azul e verde com uma transparência que dava até vertigem! Pena que a água era tão gelada, porque cada curva de rio chamava para um banho…
Encontramos várias pessoas no caminho nesse trecho do trekking, gente que passava o dia no parque e desfrutava do sol forte e do tempo livre. Era domingo. Paramos para comer num mirante de madeira com dois bancos logo na boca do Rio Cochrane. A trilha era bem pisada e bem sinalizada, cada um seguia no seu ritmo e nos reencontrávamos a cada tanto. Nenhuma novidade. Num ponto de bosque ouvimos um ruído alto numa copa de árvore e Adriana viu um rabo cumprido descendo pelo tronco de uma grande árvore. Provavelmente um puma! Mas como a mata era densa, não pudemos ver mais nada. Não duvido tenha sido um puma, a região é lotada deles por conta da grande concentração de huemules (Hippocamelus bisulcus).
Chegamos à sede da reserva e fomos superbem recebidos por uma senhora rechonchuda com uniforme de guarda-parque. Ela queria saber todos os detalhes da nossa travessia, informou que estava aposentada mas foi chamada de volta à ativa para cobrir a falta de pessoal. “Ninguém mais quer ser guarda-parque”, censurou ela. “Ninguém consegue ficar muito tempo sem cobertura de celular hoje em dia”. E riu sozinha da triste conclusão. Depois ela nos convidou a visitar sua chácara na Ilha de Chiloé, no norte da Patagônia chilena. “Eu tenho minha própria micro reserva lá… Sem cobertura de celular!”. E riu novamente. Lili era uma figura! Alegre, entusiasmada, cheia de energia e generosidade. A criança dentro dela simplesmente não havia envelhecido.
Uma caminhonete que trabalhava de táxi fez duas viagens e nos levou até o centro de Cochrane. Na verdade, nos levou até a porta da pousada, com duas cabanas, onde ficaríamos hospedados uma noite. A turma da primeira viagem de carro pediu ao motorista indicações de lugares para se hospedar e ele gentilmente fez um tour pela cidade até resolver nosso problema. Essa gentileza simples dos chilenos sempre me toca. No dia seguinte tomaríamos um ônibus até Coyhaique e embarcaríamos num avião de volta ao Brasil. A aventura havia chegado ao fim.
Completamos 142 km em 11 dias de caminhada com 4.200 m subidos e 3.560 m descidos. Cruzamos da entrada da RESERVA NACIONAL LAGO JEINIMENI até a entrada da RESERVA NACIONAL TAMANGO, passando pelo PARQUE PATAGÔNIA. O Valle Chacabuco foi doado ao governo chileno exatamente no período em que estávamos na região e toda a área que percorremos a pé será transformada no futuro próximo no Parque Nacional Patagônia. Nosso roteiro um dia será considerado “oficial” e receberá visitantes de todo canto do mundo. Mas nós fizemos tudo antes dessa fama e antes dessa notoriedade… Então acho que podemos nos considerar “exploradores”, né?
Como gosto de escrever a título de dedicatória no meu livro HIGHLANDS, POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS, que narra uma longa e dura travessia que fiz sozinho pelas Highlands da Escócia: “A grande aventura é explorar o desconhecido dentro de nós mesmos”. E acredito que meus companheiros nessa travessia vão concordar comigo…
A história chegou ao fim… Obrigado aos companheiros de aventura e aos companheiros de leitura!
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