AVENTURAS AUSTRAIS 2017-2018 (PARTE 3)

15 de fevereiro de 2018

Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

El Salto, cachoeira do Rio Polux no começo da viagem pela Carretera Austral logo depois de Coyhaique. 

O começo de toda aventura dá friozinho na barriga, é normal. O começo da EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA BIKEPACKING 2017-18 deu friozinho no corpo inteiro e não era nervosismo… Chovia fino, ventava gelado, o sol aparecia e desaparecia e o clima não parecia amistoso. Apesar do calendário indicar que era “verão”, a Patagônia oferecia todas as estações num único dia.

Ricardo Bueno de Paula em trecho da Carretera Austral próximo de Villa Cerro Castillo. 

Coyhaique havia nos recebido muito bem e nos dois dias que passamos na cidade, de 60 mil habitantes, pudemos nos fartar de boa comida e ótima cerveja, além de comprar tudo o que faltava para nossa aventura. Partimos da Plaza de Armas em direção sul, pela Carretera Austral, em direção à cidadezinha de Villa Cerro Castillo, a 98 km de distância. O caminho seria todo por asfalto, mas não tínhamos nem intenção nem obrigação de chegar a lugar específico algum. Viajávamos autossuficientes e poderíamos acampar onde quiséssemos. Esse é o espírito do bikepacking.

Diferente de Ricardo, meu parceiro nessa empreitada, que treinou sério para a viagem, eu não estava na minha melhor forma física. Nos últimos dois ou três meses eu havia concentrado tempo e forças na produção final e no lançamento do livro HIGHLANDS, POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS e, como resultado, estava pelo menos 6 kg acima do peso. Ricardo havia feito a lição de casa completa e além de treinar e adquirir todo o equipamento necessário, havia lido também meu livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e o excelente livro EL ÚLTIMO CONFÍN DE LA TIERRA, do pioneiro de Ushuaia, Lucas Bridges. Esse último é talvez o mais importante texto sobre a colonização da Patagônia já escrito e leitura obrigatória a quem se interessa pela história local. Como eu sempre digo: aventura também é cultura.

Nosso primeiro dia de pedal nos levou por 62 km, com 1.330 m de subidas e 650 m de descidas acumuladas, até a Laguna Chiguay, na Reserva Nacional Cerro Castillo, onde fizemos um acampamento com direito a banho quente e privada com descarga na área oficial de camping da reserva. Um luxo! Acredito que o primeiro acampamento é determinante numa expedição, nele são apresentados, de forma nem sempre sutil, o estilo, o ritmo, as prioridades e muito da personalidade de cada integrante. Num grupo pequeno, de apenas duas pessoas como era nosso caso, essa dinâmica é simples e suave, mas num grupo maior pode ser complicada. Algumas pessoas demostram seu entusiasmo acima do cansaço, outras colocam o conforto pessoal acima do bem-estar coletivo, tem gente que se perde em conversas e pequenos afazeres pessoais e demoram demais a completar as tarefas de acampamento impondo atraso aos demais, outros fazem tudo rápido e nem sempre bem feito, enquanto existe sempre aquele que trabalha dobrado para que tudo e todos estejam bem. Enfim, não é questão de certo ou errado, apenas uma demonstração espontânea de valores, que ficam mais acentuados com o inevitável cansaço. A adaptação desses esses diferentes valores individuais aos objetivos do grupo determinam muito do sucesso ou do fracasso de uma expedição. O papel do líder muitas vezes é apenas apontar alternativas de ação, sem julgamento ou autoritarismo, e isso funciona melhor através do exemplo. O ambiente de expedição é essencialmente prático, onde ações contam muito mais que palavras.

Trecho da Carretera Austral no vale do Rio Murta.

No dia seguinte, pedalamos mais 61 km, com 850 m de subidas e 1.490 m de descidas acumuladas, até um ponto indistinto na Carretera Austral, onde horas de chuva e frio finalmente nos causaram desconforto extremo. O asfalto havia terminado em Villa Cerro Castillo e já pedalávamos por terra e cascalho solto. O temido “rípio” chileno. Eu estava um ou dois quilômetros à frente de Ricardo, quando o frio começou a esfriar o suor acumulado nas minhas roupas, empacotadas pela jaqueta e pela calça impermeáveis. De repente o frio passou do limite e senti meu sangue esfriar. Esperei até que o Ricardo chegasse e li no seu rosto um desconforto talvez maior do que o meu. Ele vive no cerrado brasileiro e está menos acostumado ao frio que eu, que vivo no topo da Serra da Mantiqueira.

Tradicional cemitério patagônico nas proximidades de Puerto Rio Tranquilo.

— Vamos procurar onde acampar! — eu informei gritando contra o vento.

Não me lembro o que ele respondeu, mas havia alívio em seu rosto.

Duzentos metros adiante encontramos uma grande porteira de madeira, que dava acesso a um pasto plano e gramado perfeito para acampar. Na Patagônia ninguém se importa com essas pequenas invasões de propriedade. Numa terra onde ainda existem vaqueiros, gente que é regularmente pega desprevenida no mau tempo, essas transgressões são vistas como “coisas da vida”. Pulamos a porteira e começamos a montar nossas barracas atrás de árvores que nos protegessem do vento. Não demorou e apareceram os verdadeiros donos da terra: vacas e touros robustos e curiosos.

Nós estávamos em algum lugar no vale do Rio Murta, onde praticamente qualquer lugar é área de camping e todo lugar é bonito.

Esses dois primeiros dias de pedal serviram para definir a dinâmica da viagem. Cada um seguia no seu ritmo e marcávamos reencontros a cada 10 ou 15 km. Assim, quem pedala mais forte não se sente constrangido e quem pedala mais devagar não se sente pressionado. Havia algum trânsito de veículos na estrada, então não estávamos completamente isolados. Havendo necessidade, podíamos pedir ajuda a alguém. Por segurança, eu mantinha todo o tempo meu localizador pessoal via satélite ligado, o SPOT GEN-3. Minha localização e deslocamento podiam ser acessados por qualquer um através da minha página no site da SPOT. 

Início da viagem, a chuva nos vales próximos a Coyhaique produziram um grande arco-íris, visível da Carretera Austral.

Enquanto nossos corpos se adaptavam às exigências do terreno e do percurso, nossas mentes também entravam em sintonia com o entorno. O ritmo de nossas pernas passavam a ditar o ritmo de nossas vidas. Preocupações, obrigações, expectativas e frustrações de nossas vidas urbanas eram gradualmente deixadas pra trás a cada quilômetro rodado.

Famoso trecho da Carretera Austral conhecido como Cuesta del Diablo, um pouco antes de Villa Cerro Castillo.

No dia seguinte nós cairíamos numa armadilha, que resultaria num encontro bizarro e bastante desconfortável. Mas isso é assunto para o próximo capítulo…

PARA LER OS DEMAIS CAPÍTULOS DESSA NARRATIVA, ACESSE MEU BLOG

Até breve! 

Guilherme Cavallari e a KALAPALO EDITORA contam com o apoio das marcas:

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