Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

Trecho do Valle Exploradores quando as geleiras começam a ficar mais visíveis. Quase não há trânsito de veículos na estrada.
Antes da Carretera Austral chegar a Puerto Río Tranquilo, na metade da década de 1970, o Valle Exploradores era a principal conexão da pequena vila com o resto da civilização. Vaqueiros levavam um mês para levar seu rebanho até um atracadouro às margens do portentoso Rio Exploradores e voltar pra casa. Do rio, as embarcações chegavam ao Oceano Pacífico e ao resto do Chile. Com a chegada da carretera, o Valle Exploradores caiu no esquecimento até ser redescoberto pelo turismo de aventura.

Ponte sobre o Rio Exploradores. Até chegarmos à região eu não sabia se havia ponte sobre esse rio. Faz pouco tempo, um senhor atravessava os turistas numa balsa a remo guiada por um cabo de aço. A ponte só permite a passagem de um carro por vez.
Fez sol o dia todo, no quarto dia de pedal e pela primeira vez na viagem, justamente em nosso dia de descanso em Puerto Río Tranquilo. Ricardo aproveitou para visitar a Capilla de Mármol, uma famosa formação rochosa como um cogumelo de mármore brotando das águas do Lago General Carrero. Como eu já havia feito o passeio anos antes, de caiaque, fiquei na vila lavando roupas. Quando ele voltou, fizemos a manutenção das bikes juntos.

A estrada do Valle Exploradores rasgou um caminho estreito nos bosques, com fileira contínuas de árvores dos dois lados.
No dia seguinte, pedalamos 57 km para dentro do Valle Exploradores, parando para fotos a cada quilômetro. As montanhas que ladeavam o vale eram altas e íngremes, nitidamente esculpidas pela ação de geleiras do passado. Florestas densas cobriam tudo até a altura das rochas nos topos dilacerados dos montes. Cachoeiras gigantes despencavam das alturas. Geleiras pendiam precárias. Rios cristalinos ou opacos de sedimento cortavam nosso caminho e eram vencidos por sólidas pontes de concreto. O lugar era um sonho.

Lago Bayo visto do mirante da Geleira Exploradores. Desse ângulo fica evidente como esse vale é fechado e de acesso difícil.
Fizemos uma parada para visitar o Glaciar Exploradores, uma geleira enorme visível de um mirante no topo de um morro. O local é turístico e oferece a possibilidade de passeios no gelo aos turistas mais ativos e endinheirados. Optamos por seguir viagem de bike. Um pouco depois da geleira, a chuva começou a cair e decidimos montar acampamento ao lado de uma ponte. O terreno era pedregoso demais e exigiu que ancorássemos bem as barracas contra o vento. Era impossível fixar as estacas no solo duro. Choveu a noite toda e na manhã seguinte nosso acampamento estava alagado. Havia meio dedo de água dentro da minha barraca. Tudo bem, meu isolante térmico era alto o suficiente para me manter seco.

Geleira Exploradores, vista do mirante da entrada do parque. Essa geleira dá acesso ao Campo de Gelo Patagônico Norte.
Chegamos ao fim da estrada, às margens do Rio Exploradores, onde algumas casas simples de madeira marcavam o ponto de onde partiam as excursões diárias até a Laguna San Raphael, outro importante atrativo turístico da região. Também muito caro. Um velho pontão de madeira era a única testemunha dos tempos em que ali rebanhos de vacas e ovelhas eram embarcados. Fomos recebidos por Daniel Torres, proprietário da agência Destino Patagonia, e o grande especialista na região do Valle Exploradores e do pouco conhecido Istmo de Ofqui.
Faz alguns anos que venho pesquisando sobre o Istmo de Ofqui, uma língua de terra vizinha à Laguna San Raphael, onde na década de 1920 tentaram abrir um canal marítimo de navegação. O acesso ao istmo é complicado e o lugar é deserto de gente. Resquícios do fracassado trabalho de construção do canal pontuam a passagem do homem pela região. Por coincidência, descobri que a esposa do Daniel, Emilia Astorga, era coautora do único livro de pesquisa histórica sobre o Istmo de Ofqui, que mais tarde comprei direto dela em Puerto Río Tranquilo. Daniel mostrou numa carta topográfica diversas possibilidades de aventuras no Valle Exploradores usando botes de packrafting — um equipamento que já adquiri e que está no meus planos de uso futuro.

Scott Scale 710 Plus de Guilherme Cavallari em acampamento selvagem no Lago Bayo, Valle Exploradores.
Pedalamos de volta na direção de Puerto Río Tranquilo e acampamos selvagem às margens do Lago Bayo, diante de um cenário ameaçador de tempestade no horizonte. Assim que terminei de montar a barraca nas areias da praia, o vento que corria solto na superfície do lago me obrigou a transferir o acampamento para dentro do bosque. No final, não pude dormir olhando a paisagem como queria. Esse foi um dia de 68 km, premiado com um dos acampamentos mais bonitos que já fiz.

O vento não permitiu que minha barraca ficasse na beira do lago, de onde eu poderia desfrutar da vista.
No terceiro e último dia no Valle Exploradores, pedalamos 49 km e chegamos de volta a Puerto Río Tranquilo para mais um dia de descanso. Chegamos completamente molhados e hipotérmicos, depois de sermos surpreendidos por muita chuva em cima das bikes. A chuva sempre causa um dilema quando pedalamos. Meu conjunto impermeável e respirável, de jaqueta e calça comprida TEMPEST da marca brasileira SOLO, não fica atrás de nenhuma marca gringa, consegue me defender de qualquer tempestade, mas o esforço físico de pedalar agasalhado com que eu transpire muito e termine molhado do mesmo jeito. Uma equação sem solução que roupa nenhuma consegue resolver. Nesse dia, preferi deixar a chuva me molhar enquanto eu mantinha o corpo aquecido pedalando cada vez mais forte. Deu certo, até eu parar para esperar o Ricardo, que vinha dois quilômetros atrás de mim.
Parei no único comércio do caminho, a CAFETERIA LA NUTRIA, onde já havíamos parada na ida para tomar café e comer tortas. O proprietário, também chamado Ricardo, quando me viu todo molhado e tremendo de frio, correu na cozinha e trouxe uma xícara grande preto fumegante e uma dose generosa de aguardente de uva.

Cafeteria La Nutria, quando paramos para café e tortas ao entrarmos no Valle Exploradores. Foto: Ricardo Bueno de Paula.
— Vira a aguardente num só gole — ordenou ele, — ou você vai ficar doente!
Obedeci sem resmungar e minutos depois o vale parecia mais verde, balançando levemente como o convés de um barco à deriva. A bagaceira de uva tinha teor alcoólico próximo de 60%.
Só reencontrei Ricardo no camping de Puerto Río Tranquilo, espalhando suas tralhas no gramado para secar. Fora do vale, o sol brilhava como rei absoluto.

Para mim, poucas alegrias se comparam a explorar um lugar novo, identificar e vencer obstáculos, sentir força e saúde exalando de todos os meus poros. A liberdade do tamanho dos meus braços, dependente apenas da firmeza dos meu pés.
Visitar o Valle Exploradores estava há anos nos meus planos e nossa incursão valeu cada quilômetro rodado, além de abrir as portas da imaginação para aventuras futuras. A Patagônia tem esse jeito manso de seduzir lentamente, revelando-se devagar e convidando sempre para mais uma viagem.
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Até o próximo capítulo!
Guilherme Cavallari e a KALAPALO EDITORA contam com o apoio das marcas:


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