Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

Ricardo Bueno de Paula e Guilherme Cavallari na entrada da sede do Parque Patagônia, no Valle Chacabuco.
Na Patagônia, um vendaval que arranca telhas das casas e tomba carros nas ruas é chamado la brisa. O frio inesperado que congela poças d’água em pleno verão e racha a tinta das casas é la fresca. Um dilúvio que faz rios transbordar, arrasta pontes e afoga galos que cantam com o bico apontado para o céu é la lluvita — a chuvinha.
Ricardo e eu enfrentamos variações de la brisa, la fresca e la lluvita em todos os dias que pedalamos, muitas vezes as três pragas juntas. Mas sobrevivemos, como sobrevivem todos os gauchos locais, os caubóis dos pampas gelados.

Trecho da Carretera Austral que margeia o grande Lago General Carrera. Foto: Ricardo Bueno de Paula.
De Puerto Río Tranquilo pedalamos 69 km até Puerto Bertrand, onde acabamos nos hospedando numa pensão familiar por falta de camping no vilarejo. Paramos para almoçar nesse dia na entrada do Valle Leones, abrigados do vento forte — la brisa — num ponto de ônibus de três paredes e teto.
De Puerto Bertrand seguimos direto, debaixo de la lluvita e enfrentando muita lama na estrada, até o Valle Chacabuco, 17 km antes da cidade de Cochrane. Esse vale tem grande importância histórica na região. Foi a partir dele que ocorreu a colonização da região do Rio Baker, o rio de maior volume d’água do Chile. Em 1913, Lucas Bridges, o pioneiro de Ushuaia, desbravou caminhos até o vale e se instalou ali com dezenas de milhares de ovelhas, dando início à Era da Lã nas redondezas. O vale foi finalmente comprado, no começo da década de 2000, pelo multimilionário norte-americano Douglas Tompkins, fundador da marca de roupas e equipamento de aventura The North Face, com o objetivo de iniciar um grande projeto de preservação ambiental: o PARQUE PATAGÔNIA.

Os guanacos são comuns no Valle Chacabuco, onde está o Parque Patagônia. Esses animais formam a principal dieta dos pumas.
Ricardo e eu passamos horas no bar e terminamos por almoçar no restaurante do parque, antes de seguirmos até a área de camping. A estrutura do PARQUE PATAGÔNIA é monumental, quase luxuosa. Toda a área, de 809 km2, foi doada ao governo do Chile no dia 29 de janeiro de 2018 (semanas depois de nossa passagem) para a formação do futuro Parque Nacional Patagônia. A TOMPKINS CONSERVATION, criado por Douglas Tompkins e sua segunda esposa, Kristine MacDivit Tompkins, comprou ainda muita terra na Argentina para estender o parque até o país vizinho. Estima-se que Tompkins tenha investido cerca de meio bilhão de dólares americanos em seus projetos de preservação na Patagônia.

Bar na sede do Parque Patagônia. Tudo é de muito bom gosto, até luxuoso, nesse imenso projeto de preservação ambiental.
No dia seguinte, pedalamos 30 km no Valle Chacabuco até outra área de camping, conhecido como Casa de Piedra, onde passamos a noite. Em breve eu passaria por esse mesmo lugar com o grupo que faria a TRAVESSIA DO PARQUE PATAGÔNIA em trekking comigo.
Voltamos a dormir mais uma noite na sede do parque, antes de pedalar os 30 km finais do PARQUE PATAGÔNIA até Cochrane e o fim de nossa aventura em bikepacking. Na saída do parque nos encontramos com um grupo de cinco brasileiros, todos paranaenses, que percorriam a Carretera Austral usando meu GUIA DE TRILHAS CARRETERA AUSTRAL como referência. Num exemplo doloroso, para mim, de como o brasileiro médio não lê, mesmo sobre assuntos de seu interesse pessoal, nenhum deles havia lido meu livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS.
Ao final da jornada, Ricardo e eu pedalamos 609 km em 12 dias, com 9.165 m acumulados de subida e 8.980 m acumulados de descida, acampamos nove noites sendo três acampamento totalmente selvagens e percorremos a Carretera Austral de Coyhaique até Cochrane. Minha avaliação da viagem é obviamente positiva. Meus objetivos eram oferecer o máximo de experiência ao meu companheiro, orientar e direcionar seu desenvolvimento pessoal rumo à autonomia e à liberdade de pedalar sozinho em qualquer lugar. Sinto que essas metas foram alcançadas. Essas pequenas expedições que organizo não têm por objetivo serem divertidas, não são pacotes de turismo aventura, mas também não precisam ser maçantes e recheadas de sofrimento. A diversão acaba fazendo parte do programa simplesmente porque pedalar, caminhar e acampar em contato com a natureza é divertido. Terminei a viagem com a impressão de que Ricardo evoluiu e foi fisgado pelo vício do bikepacking. Em diversos momentos ele listou viagens que gostaria de fazer, lugares que gostaria de explorar de bike, e essa é a maior recompensa que eu poderia pedir.

Sede e restaurante do Parque Patagônia, no Valle Chacabuco. O pequeno avião pertencia a Douglas Tomkins. Os guanacos não.
A narrativa continua no próximo capítulo, descrevendo a TRAVESSIA DO PARQUE PATAGÔNIA, realizada em trekking com um grupo de 8 pessoas, fora eu.
PARA LER OS DEMAIS CAPÍTULOS DESSA NARRATIVA, ACESSE MEU BLOG
Até o próximo capítulo!
Guilherme Cavallari e a KALAPALO EDITORA contam com o apoio das marcas:


Deixe um comentário