TEKENIKA / GIULIANO GIONGO

3 de dezembro de 2013

TEKENIKA

No inverno austral de 1988, o experiente escalador italiano Giuliano Giongo decidiu dar um passo para além do abismo. Ele não se suicidou, mas levou a limites extremos sua já elástica noção de conforto e segurança.

Depois de haver cruzado sozinho, durante o inverno, o Campo de Gelo Continental Sul, da Patagônia chilena até a Patagônia argentina, depois de haver escalado o Monte Fritz Roy, a Agulha Egger no inverno e tentado escalar o Cerro Torre também no inverno, Giongo se propôs navegar por outros mares, literalmente.

A bordo de uma canoa inflável de três metros de cumprimento, a roupa do corpo e uma muda reserva, sem quaisquer mantimentos, pouquíssimo equipamento (ele nem levou um cantil para água), Giuliano Giongo desembarcou, clandestinamente, no Estreito de Magalhães e navegou cerca de 500 quilômetros até próximo à Baia Orange, vizinha ao arquipélago do Cabo Horn.

Não bastasse a proeza de haver sobrevivido à inanição por 70 dias se alimentando quase que exclusivamente de algas marinhas e frutos do mar, sem complicações renais por se hidratar com água do mar, não ter morrido afogado por estar flutuando em uma embarcação “cheia de vento” em um dos mares mais perigosos do planeta… Giuliano Giongo fez essa travessia em pleno inverno.

Chamá-lo de “inconseqüente” é puro pleonasmo. Claro que ele foi inconseqüente!
Mas, tanto o livro quanto o projeto por trás dele fazem todo o sentido do mundo, se levarmos em conta a filosofia de vida pregada pelo autor.

Escaladores do nível de Giongo, que realizaram façanhas em paredes verticais no Himalaia e na Patagônia, idealizados pela mídia como super-heróis, tendem a se achar indestrutíveis. Com o passar do tempo, o acúmulo de experiências sempre de altíssimo grau de exposição ao perigo, a convivência rotineira com o desconforto absoluto, o cansaço com a mesmice da vida urbana cotidiana quando fora de expedições, é normal que os limites para esse tipo de gente se tornem turvos.

Até onde eu consigo chegar? Qual meu limite físico? Psicológico? Onde as regras médicas e estatísticas científicas deixam de ser aplicadas a mim? E assim por diante.

Nesse estágio, o aventureiro passa a usar a si mesmo como um laboratório de pesquisas em movimento, em tempo real, assumindo todos os riscos e não fazendo concessões.

Nessa travessia, Giongo se compara inúmeras vezes aos índios nômades canoeiros yamanas, que habitaram por milênios os canais da Terra do Fogo, vivendo seminus expostos a um clima desumano. Mas, nem de longe o italiano se parecia com os pequenos yamanas. Enquanto Giuliano viveu essa aventura por tempo determinado, por opção própria, a título de autoconhecimento ou seja lá qual foi sua motivação pessoal, os yamanas só buscavam a sobrevivência e nada mais. Enquanto a Giongo sobram expectativas e possibilidades, aos yamanas todo dia era dia de sobreviver e nada mais. Essa bagagem cultural Giongo não conseguiu deixar em terra.

Giuliano Giongo pode ser considerado um “herói” entre aventureiros, pela façanha digna de mérito que realizou, mas seu exemplo não deixa lições maiores à raça humana do que uma aula de perseverança e autoflagelo. O livro tem importância específica a pessoas, como eu, interessadas além da conta pela Patagônia e Terra do Fogo, estudiosos de expedições de exploração e autoconhecimento usando a natureza como campo de provas, mas, fora isso, não dá para ser considerado uma obra de arte.

Minhas pesquisas na internet não revelaram mais informações sobre Giuliano Giongo. Embora ele tenha sobrevivido essa viagem de canoa pelos mares do Cabo Horn, parece que ele desapareceu do mapa depois dessa viagem. Talvez a experiência tenha sido reveladora demais e ele virou um ermitão vivendo em alguma caverna perdida do planeta – o que combinaria muito som seu discurso antisociedade de consumo, antiindustrialização e antitecnologia.

Tekenika é boa leitura de aventura. A gente chega a sentir frio, fome, sede e exaustão lendo suas páginas. Um livro que eu recomendo.

TEKENIKA – setenta dias sozinho em uma canoa no mar do cabo horn
Giuliano Giongo
José Olympio Editora
1995
280 páginas
www.record.com.br/

2 respostas para “TEKENIKA / GIULIANO GIONGO”

  1. Diogo disse:

    Este livro é massa!!!

  2. Wilza Brosig disse:

    Gostaria muiiiito de ler esse livro, me foi muito bem recomendado, mas não estou encontrando para comprar. Alguém tem para vender, ou pode me dar alguma dica de onde posso encontrá-lo?

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Wilza Brosig
Gostaria muiiiito de ler esse livro, me foi muito bem recomendado, mas não estou encontrando para comprar. Alguém tem para vender, ou pode me dar alguma dica de onde posso encontrá-lo?Diogo
Este livro é massa!!!

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