BIKEPACKING: TIPOS E ESTILOS

11 de agosto de 2016

BIKEPACKING: TIPOS E ESTILOS

por Guilherme Cavallari

Depois de oferecer a introdução e os conceitos do bikepacking no primeiro artigo dessa série e depois de apresentar uma proposta de kit de mecânica de emergência num segundo post, nesse artigo a ideia é discutir os três tipos de bikepacking existentes e seus respectivos estilos.

O tipo de bikepacking mais comum é aquele diretamente relacionado com o cicloturismo. Mas qual a diferença básica entre o cicloturismo convencional, também conhecido por bike touring, e o cicloturismo proposto pelo bikepacking? Embora isso já tenha sido abordado pelo primeiro artigo da série, vale aprofundar a questão…

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Bicicleta de competidor da prova Tour Divide, de 4.418 km de extensão, do Canadá à fronteira com o México, cruzando os EUA pelas Montanhas Rochosas.

No cicloturismo convencional o viajante raramente acampa, em geral por acreditar que o equipamento necessário seria pesado e volumoso demais para ser transportado na bicicleta ou ainda por falta da cultura de camping no país. Quando acampa, o cicloturista convencional não possui equipamento ultraleve ou não domina as técnicas necessárias, caso contrário seria bikepaking, o que acaba confirmando sua teoria de excesso de peso e volume. A própria bicicleta, no cicloturismo convencional, normalmente não é uma bike de trilha, mais leve e de melhor desempenho que uma bike de turismo, híbrida ou similar. E, por último, cicloturistas convencionais não costumam investir muito em condicionamento físico específico e no aprimoramento de técnicas sobre a bike, como faz  um ciclista esportista por exemplo. O resultado então, somando todas essas características, é que o cicloturista convencional acaba por enfrentar as seguintes restrições:

  • Basta o terreno ou o relevo piorarem um pouco e a bicicleta (por não ser uma bike de trilha), o peso do equipamento (por não ser ultraleve), o condicionamento físico do ciclista (por ser mais recreativo que esportivo) e seu nível técnico (não tão aprimorado) limitam, impedem ou dificultam muito seu progresso.
  • Por não levar equipamento de acampamento (geralmente por acreditar que é pesado e volumoso demais, não custa repetir) o cicloturista fica limitado a certos roteiros, distâncias e terrenos.
  • O excesso de peso do equipamento (por não ser ultraleve ou por ser excessivo) e da bicicleta (por não ser uma bike leve de trilha com melhor desempenho) forçam e desgastam a musculatura e as articulações, em particular os joelhos, reduzindo a vida útil do cicloturista.
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Mais uma bicicleta de competidor da prova Tour Divide, de 4.418 km, do Canadá à fronteira com o México, cruzando os EUA pelas Montanhas Rochosas.

Hoje em dia, podemos dizer que existem três tipos de bikepacking:

1) Micro-aventureiro ou bikepacker de uma noite

microadventuresO aventureiro inglês Alastair Humphreys, autor do livro Microadventures – Local Discoveries for Great Escapes, que também é uma interessante série de vídeos disponíveis no YouTube, popularizou o conceito desse tipo de aventura, para a qual não é preciso grande preparo físico, técnico ou muito equipamento (nos padrões britânicos, claro).

A ideia é “aventuras de final de semana”, onde às vezes o principal objetivo é simplesmente acampar no topo de uma montanha relativamente fácil de subir. Ou mesmo fazer um piquenique numa praia com amigos, tudo dentro do conceito de “contato íntimo com a natureza”, sem veículos motorizados, reduzindo o impacto ambiental e mantendo as “coisas simples”.

No bikepacking isso é muito fácil, basta por exemplo levar uma rede KAMPA com toldo, um saco de dormir e um isolante térmico (tudo pesando menos de 2 kg e de reduzido volume) e dá pra acampar selvagem em qualquer lugar, mesmo onde não há árvores, usando a rede como piso e o toldo como cobertura.

2) Cicloviagens

Nada muito diferente do tipo anterior de bikepacking, mas com mais noites de acampamento quando necessário ou por opção. Nesse caso talvez seja interessante incluir também uma cozinha de acampamento, algo leve e compacto segundo os preceitos do bikepacking (mais detalhes sobre isso num próximo artigo).

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Acampamento selvagem usando toldo Kampa, saco de dormir e isolante térmico, tudo com peso inferior a 2 kg e de volume reduzido.

Fogareiros de acampamento a gás costumam ser bastante leves e compactos, além de econômicos tanto no combustível quanto no investimento no próprio equipamento. Eles são compostos basicamente de um bocal pequeno, parecido com a boca de um fogão de cozinha convencional, e um pequeno bujão de gás específico para acampamentos. Eu, particularmente, venho  usando há anos um outro sistema, uma espiriteiras a álcool, menor, mais leve e mais fácil de usar, como a o modelo Spirit Burner da tradicional marca sueca TRANGIA.

Panelas de alumínio são as mais baratas do mercado, além de bastante leves. O problema delas é que é preciso cuidado no manuseio e na lavagem, já que o alumínio libera partículas na comida que são altamente prejudiciais à saúde. Na verdade, ninguém deveria usar panelas de alumínio, nem em casa! A segunda opção, não tão barata, mas extremamente resistente e saudável, é usar panelas de aço inox. A terceira e última opção, bem mais cara e bem mais leve, além de difícil de encontrar no Brasil, é usar panelas de titânio. No conceito do bikepacking, uma pessoa pode usar apenas uma caneca de metal de meio litro e mais nada!

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Competidores na prova Iditarod, de 1.609 km de extensão, em pleno inverno no Alasca.

3) ITT ou Corridas Autossuficientes (Self-suficient Races)

ITT (Individual Time Trials, pronunciado como “ai-ti-ti”) indica um percurso onde cada competidor tenta fazer o melhor tempo. Nada diferente do “contra o relógio” de modalidades de ciclismo de velódromo ou provas de ciclismo de estrada como o Tour de France. No bikepacking essa é uma modalidade esportiva em franco crescimento no mundo, embora com menos ênfase em chegar primeiro e mais focado em simplesmente completar o percurso. Conseguir terminar a prova já é vitória suficiente!

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Participante da prova Navad 1000, na Suíça.

A ideia é fazer sozinho, sem apoio externo, grandes roteiros, alguns com mais de 4.000 km de extensão, compostos de terreno variado que pode incluir singletracks (caminhos por onde só passa uma bicicleta por vez), subidas de montanhas altas, pedalar em pleno inverno no Alasca, cruzar desertos no verão, ou simplesmente conectar caminhos bonitos e bucólicos de ponta a ponta em algum país da Europa, por exemplo.

As regras são bem simples e comum a quase todas essas competições:

  • Existe um ponto específico de largada e um ponto específico de chegada.
  • Existe uma data de largada geral, chamada de Grand Depart, e cada um termina a prova quando puder. Mas indivíduos também podem começar em qualquer outra data, apenas avisando os organizadores do percurso.
  • Na maioria das provas, pelo menos na Grand Depart, cada participate é obrigado a carregar consigo um rastreador individual via satélite, como o SPOT GEN-3.
  • Não existe taxa de inscrição, prêmio em dinheiro, medalha ou troféu.
  • Todo competidor deve completar o percurso com a força do próprio corpo, sem ajuda externa.
  • Não é permitido qualquer suporte externo, como carro ou outro veículo de apoio, mesmo que seja apenas para “acompanhar sem interferir”.
  • Não é permitido pegar caronas ou usar meios de transporte coletivo (com exceção para se dirigir a um médico ou hospital, quando o participante pode se retirar da prova e retornar quando puder, dentro de uma lógica simples).
  • Nenhum equipamento é obrigatório ou proibido.

 

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Participantes da Tuscany Trail, competição de bikepacking na Itália.

 

Algumas das provas mais famosas, divididas por continentes, são:

AMÉRICA DO NORTE:

  • Tour Divide – Talvez a mais famosa e todas, com 4.418 km de extensão, início na cidade de Banff, no Canadá, e término no Estados Unidos, no vilarejo de Antelope Wells, no estado do Novo México, bem na fronteira com o México. O percurso segue por cima das Montanhas Rochosas e tem mais e 60.000 m de subidas acumuladas, sete vezes a altura do Monte Everest. (http://tourdivide.org/)
  • Arizona Trail (AZT) – 1.207 km de extensão, cruzando o estado norte-americano no Arizona, carregando a bike nas costas por 38 km quando o percurso cruza o Gran Canyon, onde é proibido pedalar. Essa trilha é considerada altamente técnica porque quase todo percurso é em singletrak. (http://topofusion.com/azt/race.php)
  • Colorado Trail Race – Similar à AZT, essa trilha também cruza um estado norte-americano de ponta a ponta, no caso o Colorado. Com 804 km de extensão e cerca de 23.000 m acumulados de subidas. (http://www.climbingdreams.net/ctr/)
  • Iditarod – A mais famosa corrida de trenós puxados por cachorros também pode ser feita de bicicleta, em pleno inverno, só que de fat bike, esquis ou a pé, usando raquetes de gelo. São 1.600 km de extensão seguindo a trilha histórica dos garimpeiros do século XIX, entre eles o famoso escritor Jack London. Talvez o maior desafio da prova seja enfrentar temperaturas de até -30˚C em cima de uma bicicleta. (http://www.iditarodtrailinvitational.com/)

EUROPA:

  • Highland Trail 550 – Percurso que percorre praticamente toda a extensão das Highlands da Escócia, de 550 milhas ou 885 km, visitando alguns dos lugares mais bonitos da região, como a montanha mais alta da Grã-Bretanha, o Ben Nevis. É considerada a prova mais difícil da Europa. (http://www.highlandtrail.net/)
  • The Navad 1000 – Faz um ziguezague por trilhas, montanhas, lagos e vilarejos na fronteira sul da Suíça, de Romanshorn, às margens do Bodensee, até Montreux, famosa por seu festival internacional de jazz. São 1.000 km de extensão e cerca de 31.000 m acumulados de subidas. A corrida é considerada preparatória para a Tour Divide. (http://www.navad1000.ch/Hallo/)
  • Italy Divide – De Torbole, às margens do Lago di Garda, na fronteira com a Suíça, até Roma, a Cidade Eterna. São 850 km de extensão e cerca de 20.000 m de subidas acumuladas, passando por Bolonha, Florença, Viterbo, num tour por uma das regiões mais lindas da Itália. Um percurso com grandes possibilidades de comer e beber bem no caminho. (http://www.italydivide.it/)
  • Tuscany Trail – A Trilha da Toscana, talvez a região mais turística e cinematográfica, no sentido de já ter sido cenários de incontáveis filmes. Com 560 km de extensão e 11.000 m acumulados de subidas, 65% de caminhos não pavimentados, da cidade de Massa à cidade de Capalbio. (http://www.tuscanytrail.it/it)
  • Rovaniemi 300 – Na fria Finlândia, com 300 km, 150 km ou 66 km de extensão, em pleno inverno, rodando numa floresta na selvagem Lapônia, próximo à cidade finlandesa Rovaniemi, no Círculo Polar Ártico. (http://www.rovaniemi150.com/rov300/)
  • Transcontinental – A mais longa corrida europeia, uma épica travessia de 4.000 km de extensão, de Geraardsbergen, na Bélgica, até Çanakkale, na Turquia e próximo do local onde um dia existiu a cidade de Troia. Não existe rota fixa, mas existem pontos obrigatórios de passagens, checkpoints, por onde cada participante deve passar. (http://www.transcontinental.cc/)
  • Bikepacking Trans Germany – A largada acontece na simpática cidade suíça Basiléia, próximo da fronteira com a Alemanha e a França. O caminho segue pelo vale do Rio Reno até o Mar do Norte, perto da divisa com a Dinamarca. São 1.647 km de extensão e muita cerveja com salsicha no caminho. (http://btg.voidpointer.de/de/index.html)
  • 1000 MileBikepacking na República Checa, 1.600 km de extensão, autossuficientes, difícil de entender qualquer coisa no site dos caras, já que tudo está em checo. (http://1000miles.tv/)

ÁSIA:

  • Holyland MTB Challenge – Do Monte Hérmon, próximo à fronteira do Líbano, à cidade de Eilat, no Mar Vermelho, em Israel. São 1.400 km de extensão, pedalando por lugares históricos e bíblicos como o Mar da Galileia, Monte Carmel, o deserto do Negev e as cidades de Tel Aviv e Jerusalém, para citar apenas duas. (http://holylandmtbchallenge.com/)
  • The Japanese Odissey – De Tóquio a Osaka, por um ziguezague que visita áreas montanhosas e rurais. As duas cidades são bem próximas uma da outra, por isso o roteiro percorre praticamente toda a extensão do país. Uma peculiaridade dessa prova é que existe um limite de 14 dias para completar o percurso. (http://www.japanese-odyssey.com/)

OCEANIA

  • Monaro Cloudride – Prova australiana de 1.000 km de extensão e 18.000 m de subidas acumuladas, que começa e termina na capital do país, Camberra (http://www.cloudride1000.com/).
  • Kiwi Brevet – São 1.100 km na Ilha Sul da Nova Zelândia com o máximo possível de caminhos fora-de-estrada. (http://kiwibrevet.blogspot.com.br/)

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