Mountain bike pra mim é uma forma de transgressão.
Segundo o pouco venerável ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, “A América é viciada em petróleo”. Mas não é só a América do Norte, porque o veneno já foi exportado para o mundo todo! Meu sobrinho de três anos de idade, por exemplo, é capaz de dizer a marca de qualquer carro na rua, do jeito dele. Ford é “vamos nessa” e Chevrolet é “Chigolé”. Tão pequeno e o mundo já ensinou a ele que o que importa é o carro e não exatamente o que (ou quem) vai dentro. Mas ele ainda é novo.
Nossa transgressão, como mountain bikers, começa aí: não idolatramos o carro, o motor, a Lei do Mínimo Esforço. Veneramos nossas magrelas turbinadas com a força do nosso próprio corpo.
Domingo de sol e pode ter certeza, se não estou explorando novas trilhas pra algum dos meus livros, vou pra minha trilha secreta. Todo mountain biker deveria ter sua trilha secreta… A eterna busca pela perfeição. O singletrack perfeito. Os surfistas buscam a “Onda Perfeita”, o Marcelo D2 procura a “Batida Perfeita”, né? Cada um na sua.
Então, num desses domingos ensolarados, lá estava eu na minha trilha secreta, que é um reflorestamento proibido pra ciclistas. Outra transgressão. Trilha dura, subidas íngremes e longas, terreno técnico, a roda da frente escapando do chão, suor escorrendo no rosto, batatas das pernas assando. Depois vem os muitos downhills suicidas, velozes, kamikazes, cheios de pedras soltas, erosões, galhos secos dos pinheiros. Uma piscada errada e é chão na certa. Meu companheiro de domingo em Sampa é dedicado como eu. Nos esforçamos ao máximo nessa trilha proibida. Papo sério. Muitas vezes a gente dá mais energia do que tem nesses pedais, voltamos pra casa acabados.
Foi num desses domingos que aconteceu.
Eu estava no meio de uma daquelas subidas duras. A pior de todas. Eu havia passado um obstáculo que normalmente não consigo vencer, um degrau no meio de uma erosão em diagonal à trilha. Fiquei orgulhoso e já imaginava que completaria a subida toda sem pisar no chão. Seria a histórica primeira vez. Mas, bem nesse momento, vencido o obstáculo, vejo um arbusto carregado de amoras ao meu lado. Gordas, vermelhas, escuras, chegavam a ser peludas, as safadas! Acho que titubeei um quarto de segundo, se muito. Freei a bike, encostei apenas um pé no chão, me equilibrando na ponta da sapatilha feito bailarino e, ainda bufando, detonei o arbusto! Para não dizer que não comi todas as frutas, deixei uma, grandona, suculenta, obesa, pra meu parceiro apreciar também, se ele quisesse parar.
Terminei o pedal meditando sobre prioridades. Mountain bike, para mim, é coisa séria. Amoras silvestres também..
Amoras possuem um vermelho muito mais intenso do que aquele das placas de PARE