Toda aventura tem um fim e ontem cheguei ao destino final dessa expedição. Cheguei ao ponto no extremo noroeste da Highlands escocesas, depois de caminhar sozinho, de forma autossuficiente, por 420 km. Caminhei e evitando rodovias, estradas, cidades e vilas por toda a extensão das Highlands, a região de menor densidade demográfica de toda a Europa.
Olhando em retrocesso e tentando resumir a experiência, que ainda terei que digerir lentamente, algumas coisas me vêm à mente…
Glenfinnan, Strathcarron, Kinlochewe, Ullapool, Inchnadamph, Rhiconich… Nomes que antes diziam absolutamente nada para mim e que, agora, são próximos e queridos como velhos amigos…
Em Glenfinnan acampei ao lado de um velho e respeitado monumento, visitado por escoceses de todos os cantos do país, uma torre medieval com um cavaleiro de kilt e espada no topo. Quando acordei à noite para fazer xixi, a torre estava iluminada pelos quatro cantos, chovia fino e a grande estátua no topo parecia me observar. Voltei no tempo e me senti em séculos passados…
Em Ullapool provei Cullen Skirk, uma sopa de arenque defumado com batatas e molho de creme de leite com croutons. Sopa marinheira, dessas que os marujos tomam depois de semanas no mar. Refeição com personalidade, substância e que alimenta também o espírito. Um dos pratos mais populares e queridos da Escócia e eu entendi o porquê…

Não, essa não é uma foto do Cullen Skirk, mas do prato mais popular em toda a Escócia… O famoso “Scottish Breakfast” que comi de manhã, de tarde e de noite… Sempre que havia oportunidade!
Chegar a Inchnadamph e montar a barraca no lusco-fusco do fim do dia, depois de caminhar 33 km, um dia depois de ter caminhado outros 34 km, teve gosto de vitória. Dei tudo o que tinha, física e psicologicamente, torcendo todo o tempo para não precisar usar lanterna na caminhada e não usei. Uma vez erguida a barraca, não tinha força de vontade para ferver água e cozinhar o jantar. Comi pão, sardinhas, amendoim, chocolate. O banquete dos campeões…
Mas Sandwood Bay e Cape Wrath, as últimas etapas da viagem e os últimos pernoites da viagem, ficarão para sempre comigo na memória. Sandwood é uma praia de ares tropicais, quase caribenha na aparência, mas com a força do Atlântico Norte, o mesmo oceano que afundou o Titanic. E Cape Wrath… Bem, Cape Wrath nem merece comentários, ou como disse Sir Walter Scott, em 1811: “Cape Wrath é um ponto impressionante… Não existe terra numa linha reta desse ponto até a América”. A proa rochosa de um imenso navio projetado para dentro do mar.
O vento que balançava meu corpo e fazia difícil caminhar ereto vinha direto do Canadá.
A Escócia é a terra natal de John Muir, o filósofo da natureza responsável pela criação de importantes parques nacionais nos Estados Unidos, como Yosemite e Yellowstone, além de fundador do Sierra Club. Pensei muito nele e em seu legado durante essa travessia pelas Highlands. Tenho certeza que ele aprovaria a proposta da Cape Wrath Trail que acabei de completar.
Mas a aventura chegou ao fim, como deve ser. Sem fim não pode haver recomeço e o que é a vida se não fim e recomeço?






Deixe um comentário