CARNAVAL BIKE MANTIQUEIRA 2014

6 de março de 2014
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Grupo em viagem de bicicleta pela Serra da Mantiqueira no Carnaval. Da esquerda para a direita… Cleber, Igor e Marcelo puxando o bike trailer

A minha alegria não atravessou o mar, nem ancorou na passarela… Subiu e desceu montanhas, acampou pendurada em rede, tomou chuva na cabeça, se bronzeou ao sol e percorreu 175 quilômetros pela Serra da Mantiqueira – que pode muito bem ser chamada de “o maior show da Terra”.

O carnaval é um importante feriado no Brasil, um dos mais importantes. Mas, nem todo mundo gosta de folia, multidão, barulho e, em especial, da tendência de transformar essa festa cultural em uma orgia de consumo e autoconsumo.

Pensando assim, resolvi montar um roteiro de cicloturismo em mountain bike que unisse a beleza natural da Serra da Mantiqueira, o feriado de carnaval, desafio físico e uma experiência de viagem e contato com a natureza que expandisse horizontes. Proposta pretensiosa, eu sei. Mas, acho que deu certo…

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O grupo saindo da Fazenda Campestre, onde fica o REFÚGIO KALAPALO, em Gonçalves (MG)

O percurso escolhido foi Gonçalves (MG) – São Francisco Xavier (SP) – Joanópolis (SP) – Monte Verde (MG) – Gonçalves (MG). O ponto de partida e chegada foi o REFÚGIO KALAPALO, o abrigo de montanha e o campo escola de aventura onde vivo há seis meses. O estilo de cicloturismo selecionado foi o autossuficiente – levamos café da manhã e jantar para três dias em duas carretinhas de carga para bicicletas BoB Trailer Yak, um rede e um toldo Kampa para cada pessoa ao invés de barracas (link: http://www.kampa.com.br/). Levamos também um fogareiro de acampamento estilo “espiriteira a álcool”, duas panelas, cuias e colheres para todos.

Os oito participantes que me acompanharam foram escolhidos com cuidado. Como acontece em todos meus eventos, todos preencheram uma detalhada ficha de inscrição e passaram por uma entrevista individual. Os critérios de seleção não eram complicados…

1) Ser fisicamente ativo, não necessariamente um atleta.
2) Ter uma bicicleta decente, em bom estado, com um mínimo de tecnologia (nada de bicicleta de supermercado).
3) Estar disposto a encarar uma “roubada” com um sorriso no rosto.

Os valentes foram:

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Alexandre, Cleber, Arno, Igor, Joscelino, Marcelo, Deise, José, Guilherme e Nala (nossa nova cadelinha) em frente ao REFÚGIO KALAPALO, em Gonçalves (MG)

Deise Maria Renó de Carvalho, Arno Buchli Junior, Joscelino Celso de Oliveira, Marcelo de Castro Pereira, José Maria da Silveira, Alexandre Cavalheiro Liba, Igor Alexandre Martins, Cleber Andreolli Bueno da Silveira.

1º DIA / GONÇALVES – SÃO FRANCISCO XAVIER

Todos chegaram na sexta-feira, 28 de fevereiro, e ficaram hospedados ao REFÚGIO KALAPALO. Acordamos cedo, às 6h00, tomamos café da manhã reforçado e arrumamos as bicicletas rapidamente. Às 9h30 já estávamos pedalando.

Do REFÚGIO KALAPALO subimos até a Pedra do Forno em 12 quilômetros de “aquecimento forçado”. Eu puxei um dos bike trailers e o Alexandre o outro. Cada carretinha pesava cerca de 20 quilos. Como sempre faço nessas aventuras, não obrigo o grupo a pedalar junto, deixo cada um pedalar no seu ritmo e marco pontos de reencontro. Acho essa estratégia mais eficiente e mais digna, por não tratar os membros de uma viagem de aventura como crianças, ou a viagem como uma empreitada de altíssimo risco. Sem a presença próxima e às vezes sufocante de um guia, cada membro do grupo se sente mais responsável e ganha autoconfiança.

Nós nos reagrupamos no bairro rural do Juncal, já no município de Sapucaí Mirim. Seguimos então em direção ao bairro do Paiol, onde paramos para comer coxinhas de galinha em um boteco estrategicamente localizado em uma bifurcação importante. As coxinhas estavam deliciosamente crocantes, quentes e bem fritas por fora, mas ainda geladas por dentro. Elas foram provavelmente do freezer para a frigideira sem escalas. O boteco tinha uma grande variedade de paçocas e pés de moleque, um festival de doces de amendoim. Como nós já tínhamos pedalado então 32 quilômetros, coxinhas de temperatura esquizofrênica e potporri de amendoim foram recebidos como um banquete.

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Bar das coxinhas frias, no bairro do Paiol, Sapucaí Mirim

Nesse ponto o Alexandre passou o trailer dele para o Marcelo e eu continuei com o meu. A ideia era que todos pudessem experimentar puxar uma carretinha em viagem. Um rodízio que aconteceu sem percalços, todos ajudando no esforço de transportar o equipamento coletivo morro acima e serra abaixo. Cada um ainda levava seu equipamento individual em pequenas mochilas, bolsas presas a bagageiros ou alforjes. Tudo muito controlado para não ter peso ou volume em excesso.

Paramos para acampar na divisa entre os municípios de Sapucaí Mirim e São Francisco Xavier, exatamente no topo da Serra de Santa Bárbara. Eu já havia escolhido antecipadamente um bosque de eucaliptos nesse ponto, um reflorestamento, para esticar nossas redes e toldos. Um tanque de lavar roupas encontrado em uma casa deserta forneceu a água que precisávamos, embora tivéssemos 14 litros de água conosco desde o bar das coxinhas.

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Acampamento KAMPA no reflorestamento da divisa entre Sapucaí Mirim e São Francisco Xavier

O acampamento ficou ótimo! As ótimas redes Joy e os toldos TarpOca da KAMPA (http://www.kampa.com.br/index.htm) nos acomodaram para a noite e nos protegeram da chuva, que por sorte não caiu. Cada participante ajudou a esticar sua rede e toldo usando fitas de escalada e mosquetões para fixação nas árvores. Eu cozinhei polenta com atum e uva passa para o jantar, que a fome terminou de temperar no prato de todos. Os elogios nessas horas eu sempre descarto como resultado do excesso de apetite.

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Arno e Guilherme preparando o jantar da primeira noite

2º DIA / SÃO FRANCISCO XAVIER – JOANÓPOLIS

Do acampamento ao centro de São Francisco Xavier foram 14 quilômetros de descida íngreme na Serra de Santa Bárbara. Quando nos reagrupamos no asfalto da rotatória da estrada que entra na cidade, atacamos uma goiabeira carregada ao lado de um ponto de ônibus como praga de gafanhotos. Os passarinhos devem ter passado fome depois da nossa passagem.

Em São Francisco Xavier tomamos um segundo café da manhã na melhor padaria da cidade. Ciclistas não resistem a pão fresco e café expresso. Foram mais de duas horas de padoca para encarar, na sequência, a subida de 12 quilômetros até a entrada da Fazenda Santa Maria, uma rota alternativa que evita o trânsito mais intenso até Joanópolis.

Eu e o Arno puxamos os trailers até o topo da subida, com bastante esforço e as veias dos pescoços estufadas. A vista nessa subida de serra é especial e quem teve tempo (quem não puxava 20 quilos morro acima) pode se refrescar nas bicas que brotam da montanha ao lado da estrada.

O trecho seguinte do nosso caminho alternativo conecta fazendas, é deserto de veículos e ligeiramente em declive. A Deise, a única mulher do grupo, e o Joscelino puxaram os trailers nesse trajeto entre bosques de mata nativa e áreas de reflorestamento, lagos e casas de fazenda isoladas. Faltando cerca de 10 quilômetros para o ponto escolhido para nosso segundo acampamento, uma curva do Rio dos Pretos, começou a chover forte. Fazia calor e a chuva era quase bem-vinda. Quando passamos em frente à Pousada de Romeiros de Maria Alferes, um tradicional ponto de hospedagem de cavaleiros em romaria, decidimos parar para dormir ali. A chuva dificultaria demais o jantar.

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Redes KAMPA na Pousada de Romeiros de Maria Alferes, Joanópolis

Alguns esticaram suas redes no quarto coletivo da pousada, outros preferiram as camas simples em outro dormitório coletivo. Todos puderam tomar banho quente e o jantar de talharim de Yakisoba e molho de tomate foi enriquecido com dois frangos assados clandestinos, importados da padaria de São Francisco Xavier.

A chuva embalou o sono de todos.

3º DIA / JOANÓPOLIS – MONTE VERDE

Mudança de planos! A proposta inicial era descermos até a Cachoeira dos Pretos com toda a bagagem, continuar descendo até perto de Joanópolis, e talvez até visitar a cidade, para subir até Monte Verde pelo bairro do Cancan. Esse seria o dia mais longo e fisicamente mais árduo a viagem. No final, arriscamos uma estratégia de menor desgaste físico, porém mais ousada.

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Marcelo, puxando o trailer e Igor, na trilha

De Maria Alferes sai uma estrada de terra pouco movimentada, em condições mais precárias, que corta caminho até perto de Monte Verde. Uma economia de talvez 15 quilômetros no roteiro original. Eu não conhecia esse caminho. Seria uma exploração coletiva. Outro problema era que, seguindo essa variante, não passaríamos na Cachoeira dos Pretos.

A solução encontrada foi descer até a cachoeira sem bagagem, nadar e tomar café expresso (ninguém resiste) com bolo de cenoura no bar na área de estacionamento local, subir de volta até a Pousada dos Romeiros, pegar o equipamento e seguir para Monte Verde. Dito e feito. Os 16 quilômetros sem bagagem foram feitos como um passeio. As bicicletas pareciam feitas de pluma!

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Rio dos Pretos, em Joanópolis (SP)

Em compensação, a subida mais curta até Monte Verde se revelou também mais íngreme. Quem puxou os trailers nesse trecho (eu consegui me livrar do meu nesse dia), Cleber e José, ganhou o respeito geral do resto do grupo. No asfalto que vai de Camanducaia a Monte Verde descobri que havia um camping a 4 quilômetros da vila e decidimos todos seguir para lá.

Chegamos às 17h00 e encontramos os restos do almoço sobre um fogão a lenha apagado e frio. Arroz com frango, feijão, carne de panela com batatas. Tudo frio. O tipo de comida que ninguém comeria em situação normal. Mas, nós éramos ciclistas famintos no terceiro dia de viagem por uma região montanhosa e limpamos as travessas de comida enquanto encomendávamos jarras e mais jarras de suco, de qualquer fruta que houvesse! Mais um vexame para a coleção…

As redes foram montadas debaixo da estrutura de madeira de um deque e no portal de entrada do camping. Também teve quem preferiu alugar uma barraca dormir mais perto do chão. Os mais festeiros – Igor, Alexandre, Marcelo e Cleber –, ainda encontraram energia para ir de taxi até Monte Verde para uma rodada de cerveja artesanal. Nessas horas eu me dou conta que já virei tiozinho…

4º DIA / MONTE VERDE – GONÇALVES

Herdei de volta meu trailer nesse último dia. Minhas pernas já estavam cansadas e cheguei a duvidar que daria contar de puxar a carretinha mais uma etapa. O José, o mais velho do grupo, fez questão de começar o dia levando um carrinho. Um sinal de que os “tiozinhos” ainda dão no couro, hehehe…

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José, incansável, puxando o trailer no último dia da viagem

Esse trecho é especialmente bonito, de natureza preservada com muitos rios cristalinos, alguns bairros rurais discretos e raro movimento de veículos. O sol se escondeu atrás de nuvens claras e não choveu. Um dia luminoso e fresco, ideal para pedalar.

Depois de uma pausa de almoço no deque de um restaurante bem localizado, aconteceu o único momento de estresse da viagem. Eu fiquei esperando meia hora no ponto de reagrupamento escolhido e nem sinal do Alexandre e do Igor. Ninguém no grupo tinha certeza se eles haviam ficado para trás ou se estavam na frente. Para piorar, passou um carro com um casal dentro e me disse que “não havia ciclista nenhum para trás”. Concluí, erradamente, que os dois estariam então para a frente. Todo mundo já estavam cansados e esse era o dia de maior quilometragem da viagem, então decidi não segurar o grupo e mandei que todos seguissem adiante. Marcamos de nos reagruparmos no bairro do Juncal, ponto que já havíamos passado no primeiro dia. De lá eu poderia dispensar o grupo para casa e voltar na trilha para procurar os dois sumidos.

No Juncal um carro nos informou que dois ciclistas estavam atrás de nós, a mais ou menos 4 quilômetros de distância, mas que estavam “parados descansando na beira da estrada”. Fiquei tranquilo então, nada sério havia acontecido aos nossos companheiros e daquele ponto para frente já era terreno conhecido, sem chances de alguém se perder. Eu indiquei ao grupo que seguisse viagem até o REFÚGIO KALAPALO e fiquei esperando mais um pouco com o José e o Marcelo. Nós tínhamos os dois trailers e uma subida absurdamente íngreme pela frente, do Juncal até a Pedra do Forno.

Calculei que o tempo que nós demoraríamos para subir essa parede com os trailers seria mais do que suficiente para que a dupla de desgarrados nos alcançasse. Seguimos viagem. Obviamente, nós empurramos as bicicletas morro acima muito lentamente, eu e o Marcelo. Dávamos meia dúzia de passos e parávamos para respirar dois minutos. Demorou uma eternidade e chegamos ao topo da serra, bastante cansados. Na descida meu freio traseiro superaqueceu e acabou. Eu já não tinha o freio dianteiro por desgaste das pastilhas. Desci muito devagar fritando metal contra metal na roda da frente por mais de 5 quilômetros.

Faltando cerca de 6 quilômetros para o REFÚGIO KALAPALO, o Marcelo disse que “estava enxergando a luz”, que estava morrendo… Acabou a pilha dele. Miraculosamente, passou um carro nesse exato momento e alguém ofereceu ajuda. Nós enfiamos um bike trailer dentro do carro e o casal de bons samaritanos levou nossa carretinha até a minha casa!

Sete dos aventureiros, contando comigo, chegaram sãos e salvos antes do fim do dia ao ponto final da viagem. Os dois “perdidos” terminaram no centro de Gonçalves e tiveram que pedalar 14 quilômetros a mais para chegar ao REFÚGIO KALAPALO, já à noite, bastante transtornados de cansaço. Descobrimos então que eles tiveram algumas panes mecânicas e intestinais ao longo do caminho e estavam, todo o tempo, a poucos minutos atrás do último membro do grupo. Eles foram para o centro de Gonçalves porque erraram a entrada para o refúgio…

Fiquei chateado com o ocorrido, com a série de mal-entendidos e desinformações e lamentei não ter esperado mais até a chegada dos dois. Seguir adiante foi uma decisão que tomei pensando na maioria do grupo, mas não “no grupo todo”. Um erro. O desenconbro não teve maiores consequências, ninguém corria riscos ou estava em perigo, mas mesmo assim causou desgaste desnecessário a dois integrantes do time.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

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Guilherme chegando ao Refúgio Kalapalo

Meu principal objetivo com essa viagem era apresentar, na forma de uma pequena experiência, as realidades de uma expedição em cicloturismo. Muita gente tem vontade de “simplesmente pegar a bicicleta e viajar”, mas acaba colocando tantos obstáculos à iniciativa que termina por comprar ingresso em um roteiro de turismo convencional.

Para mim, a principal diferença entre turismo aventura e turismo convencional é a postura do turista. Tem gente que prefere viajar como “passageiro”, enquanto outros escolhem assumir a condição de “piloto” ou “co-piloto”.

“Passageiros” esperam ser servidos, exigem presteza e eficiência em troca do valor que pagam, seja ele qual for. São consumidores antes de tudo. Não se interessam muito pelo processo que faz chegar até eles o resultado que eles compram. “Passageiros” navegam pelo Mar do Mínimo Esforço. “Pilotos” e “co-pilotos” assumem responsabilidade e aceitam atrasos, obstáculos, impedimentos e até fracassos simplesmente como um resultado, entre os muitos possíveis. Quem assume a postura de “piloto” ou “co-piloto” sabe que o resultado final depende, quase que exclusivamente, de seu empenho pessoal. Todo sucesso é consequência de mérito e todo fracasso é uma excelente lição.

Meus oito companheiros de viagem nesse carnaval se mostraram responsáveis, solícitos, empenhados, bem dispostos e bem humorados. Acredito que a viagem tenha sido um sucesso, uma experiência rica, onde pessoas de círculos muito diferentes descobriram um universo em comum. Um carnaval diferente em que, ao invés de vestir fantasias, todos terminaram por se despir de suas fantasias cotidianas.

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