O princípio

Já dizia o matuto, “quem fica parado é mourão de cerca”. Ser aventureiro é se aventurar – é o que eu sempre digo. Para começar a gente só precisa sair de casa… Mas certos roteiros são quase uma obrigação para qualquer aventureiro que se preze e dar a volta à Ilha Grande de caiaque é um deles. É uma remada longa? Com certeza, mais ou menos 116 quilômetros. Técnica? Um pouco, o lado aberto para o oceano pode ser perigoso para remadores inexperientes ou despreparados. Complicada? Depende, hoje em dia nada é tão complicado assim, o acesso à informação está ao alcance de todos, com Internet e telefone qualquer um consegue saber a previsão climática para o Pólo Sul… Imagina para a Ilha Grande! É uma remada bonita? Bom, aí eu espero que as fotos falem por si mesmas.
A companhia
Com a Internet bombando, telefone na mão, fui atrás de um ingrediente essencial para qualquer aventura dar certo – boa companhia. Nisso posso dizer que tenho sorte, conheço um monte de gente que basta ligar e perguntar “você topa ir para…”, e o cara nem espera a frase terminar e já responde, “tô dentro!”. Aliás, acho que essa disposição é a principal característica de qualquer bom aventureiro. Cinco minutos depois, coloquei o telefone no gancho e já tinha arregimentado Guto Zorovich, Fábio Paiva e Eduardo Coelho. Além de gente boa, são todos nomes de tradição no cenário aventureiro nacional, cada um na sua praia.
A organização
Caminhar, escalar, pedalar ou remar são prazeres únicos. Para mim existe ainda o prazer de organizar uma viagem, ou uma expedição – sem querer ser pretensioso. Tomei para mim essa responsa. Fiz um checklist básico de equipo, completado depois pelos companheiros mais experientes em travessias de caiaque oceânico. Depois pensei um cardápio, já que a proposta da remada era sermos auto-suficientes. Sugeri um roteiro, que foi amplamente discutido. Tudo foi mudando e se adaptando aos demais participantes, ao tempo disponível, à proposta da viagem. Flexibilidade é sempre uma palavra-chave, a garantia de sucesso e prazer. Sendo flexíveis aceitamos limites e obstáculos, não criamos falsas expectativas e posteriores frustrações. Como resultado, não rola estresse. Ficou decidido, com o aparecimento surpresa de mais um(a) integrante à expedição, Carmen Silva , que a travessia começaria do continente, da Praia do Bonfim, em Angra dos Reis, e duraria três dias com dois acampamentos, terminando no mesmo ponto de partida.
Primeiro dia
Do outro lado da pequena baía da Praia do Bonfim a Ilha Grande parecia um colosso misterioso. Era terra que não acabava mais! O mar era um lençol recém-trocado e o dia pedia para ser remado. Zarpamos um pouco tarde, 9:00 da manhã. Primeiro dia de viagem é sempre assim, muita confusão para organizar todo o equipo, detalhes que não acabam mais. Levamos 14 sacos estanques, aonde tudo ia protegido e vedado contra a água.
Escolhemos a Enseada de Araçatiba como ponto de chegada na Ilha Grande, a 13,5 km do Bonfim. De lá faríamos a circunavegação à ilha no sentido horário. De cara a cor do mar me deixou besta. Mesmo nos pontos “menos bonitos”, no meio do canal por exemplo, a água era verde-esmeralda escura. Nos costões e ilhotas onde o mar batia, a coloração era turquesa. Tudo tão impressionante que vira-e-mexe eu perdia a sincronia com meu companheiro de caiaque duplo. Desculpa aí, Coelho!
Passamos por dentro da Ilha Longa, beirando a Ponta Grossa de Sítio Forte e depois costeando toda a Enseada de Sítio Forte. Não dava nem para fotografar tudo o que víamos de bonito. Ou a gente fotografava ou remava. Lembrei da resposta que o Fábio Paiva me deu, anos atrás, quando perguntei qual o prazo ideal para fazer a volta à Ilha Grande. “Um ano,” ele respondeu, sério. Agora eu entendia porque.
Próximos da vila de Freguesia passamos pelo Boqueirão, um estreito entre Lagoa Azul e Freguesia, por onde só se passa de caiaque. Lá compramos cocos gelados de um canoeiro (R$ 3,00 cada, um roubo!) que usava canudinhos de brotos de bambu. Simples e ecológico.
Costeamos a ilha e entramos no Saco do Céu, uma enseada bem estruturada com restaurantes e bares. Ao longo de todo o percurso vimos diversas casas, pontões e atracadouros. Iates e veleiros milionários não faltavam e nós lá, de caiaque de fibra de vidro. Às 17:18 chegamos na vila do Abraão, nosso ponto de primeiro pernoite, depois de 42 quilômetros remados no primeiro dia.
Segundo dia
Começamos a remar às 8:00 da manhã. A partir da Vila do Abraão a ilha fica toda mais remota, selvagem e despovoada. O tempo virou quando estávamos a meio caminho da Ponta de Castelhanos. Entrou um vento Sudoeste forte e mexeu o mar aberto. Isso é comum na região, o que torna a volta à ilha um pouco delicada. Nossos caiaques estavam pesados de mantimentos, água e equipo de acampamento, mas estávamos todos treinados e preparados. Fábio e Carmen conheciam bem a ilha, mas cada barco tinha um mapa por garantia. As ondas cresciam de todos os lados e várias estouravam contra os caiaques ou em nossos peitos. As remadas ficavam pesadas e não dava para descansar ou aportar. A ilha, do nosso lado direito, era só costões rochosos e mar mexido.
Paramos num dos lugares mais bonitos que eu já vi na vida, o Cachadaço, uma minúscula baía com praia de areia branca e mar turquesa. Bem escondida, seria fácil passar batido pela entrada. Lá tomamos banho de água doce na piscina natural de um riacho. Tudo tão perfeito que nem borrachudo tinha!
Profissionais que podem ajudar você a realizar essa aventura:
Caiaques Opium (Fábio Paiva): http://www.caiaquesopium.com.br/
Aroeira Outdoor (Christian Fuchs): http://www.aroeiraoutdoor.com.br/
Ficou com água na boca? Vai fundo nessa!











Puts que dahora,,,
Parabéns pela materia e fotos