CLUBE DE LEITURA – QUER LER COMIGO?

19 de julho de 2026

Eu tenho várias histórias com livros… Nos idos de 1988 e 89, no século passado, quando eu morava em Israel e trabalhava como mão de obra barata — fui coveiro, carregador em caminhão de mudança, limpa-fossas, servente de pedreiro suando ombro a ombro com britânicos bêbados e palestinos desesperados —, eu carregava diligentemente na mochila uma edição impressa do Novo Dicionário Aurélio. Edição completa, não resumida, em formato grande e capa dura.

Meses mais tarde, quando viajei de carona em caminhões por 6.000 km por toda a Turquia, eu carregava também um exemplar de O Grande Sertão: Veredas, aumentando um bocado o peso da minha mochila. As paisagens literárias e reais se misturam criando estranhas harmonias. Diadorim escorria amores por Riobaldo enquanto o Monte Ararat ocupava o horizonte distante, com a insólita promessa da Arca de Noé. As refregas pela aridez espinhosa da caatinga ficavam ainda mais rudes enquanto eu me banhava nas águas do lago Van, hiperalcalinas, com textura de detergente diluído. O Aurélio se mostrou útil então, ajudando a entender um pouco melhor Guimarães Rosa. Juntos, os dois volumes deviam passar dos 4 kg. Eles nem eram os únicos comigo. Lembro de ler o Rubaiyat, de Omar Khayyam, enquanto transitava pela Mesopotâmia, emprestando contexto à poesia. Um tipo de privilégio que me fazia sentir orgulho. Era como se eu tivesse, enfim, encarnado momentaneamente a desejada fantasia do poeta viajante, do soldado trovador, do explorador literato; de Camões, Cervantes, Burton ou Chatwin — guardadas as devidas proporções da minha mera condição de mochileiro que carregava livros.

Muitos meses antes, eu já tinha lido o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, o egípcio Naguib Mahfouz, no Cairo; em Alexandria; nos oásis de Farafra, Baharya, Dakhla e o distante Siwa; em Aswan; deitado em esteiras de palha numa felucca, enquanto descia com a correnteza do rio Nilo. Leituras acompanhadas de tâmaras frescas que derrubei a pedradas de árvores, meditações em mesquitas forradas de velhos tapetes puídos, muito chá preto e a incômoda fumaça de narguilés. Paguei caro por essa edição de Mahfouz, em inglês. Um dos poucos livros novos que comprei nessa época de mochileiro pelo mundo. Pelo mesmo preço, eu poderia ter dormido uma semana nos hostels mais baratos do país. Hoje, lembro mais dos lugares onde li essas obras do que os textos em si. Os títulos se tornaram mapas muito mais do que histórias.

Desde que aprendi a ler, aos sete anos de idade, livros se tornaram meus melhores amigos. Companheiros fiéis em momentos e lugares inusitados. Sempre me senti acolhido entre suas capas. Como que envolto num abraço. Livrarias, em especial aquelas de livros usados, os sebos, logo adquiriram a emoção transcendental de templos. Lugares sagrados onde uma infinidade de coisas poderia acontecer, ou coisas numericamente bem definidas — como A Volta ao Mundo em 80 Dias, As Mil e Uma Noites, Os Três Mosqueteiros, Cem Anos de Solidão, Os Sete Pilares da Sabedoria.

Se tenho um preconceito, é acreditar que a humanidade pode ser dividida entre aqueles que leem livros e os que não leem.

Meninos sonham em ser astronautas, exploradores, soldados, capitães de navio. Também Sonhei essas coisas lendo Júlio Verne, Joseph Conrad, Herman Melville, Ernest Hemingway, Jack London. Mas, até onde me lembro, meu primeiro sonho infantil, visando o adulto que eu gostaria de ser, foi o desejo ardente de ser escritor. Eu queria ser capaz de contar histórias, preferencialmente histórias vividas por mim, que envolvessem, inspirassem e transportassem os leitores para além das prisões do cotidiano. Escritores, para mim, na infância, eram seres mágicos, xamãs, bruxos, alquimistas. Demorei muitas décadas para entender que escrever é um ofício. Algo talvez mais próximo da carpintaria.

Livros me guiaram por momento importantes da vida, com os exageros e faltas de seus autores. Explorei minha sexualidade inspirado em Henry Miller, busquei a liberdade com a obsessão de Kerouac, fiquei mais politizado pelas mãos de Galeano, Leon Uris me levou a Israel e a realidade palestina me salvou da fantasia literária. Anos mais tarde, Ilan Pappé esclareceu o que eu vi e senti, mas não consegui entender. John Steinbeck abriu meus olhos para as raízes do racismo que encontrei nos anos que vivi nos EUA. Quando senti na pele o frio invernal da Sibéria, imediatamente lembrei de Dostoiévski e Tolstói. Comecei a aprender alemão, enquanto morava na Alemanha, lendo uma tradução de O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry. Li Mi Vida Con la Ola, do mexicano ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Octávio Paz — uma das obras mais lindas que tive o privilétio de ler —, trabalhando na colheira de maçãs no extremo norte da Itália, quase na Áustria. Livro emprestado por um colega de labuta argentino, que nunca devolvi, confirmando o velho provérbio árabe que diz: “Tolo é quem empresta um livro; mais tolo ainda é quem o devolve”.

Atualmente posso dizer, com uma ponta de orgulho, que vivo da minha produção literária. Não é fácil, mas facilidade nunca foi um objetivo para mim. Além de escrever, editar, publicar e distribuir cada exemplar, tenho que me expor em redes sociais para construir a ponte com os leitores. Especialmente depois da chegada do comércio digital e dos e-books, que destruíram o ecossistema das livrarias físicas e das bibliotecas. Muitas vezes enxergo o trabalho de autor e editor como um tipo de artesanato. Por que não? Escrever não é um ofício? Então que fique ainda mais próximo da carpintaria.

Minha mais recente ação artesanal foi começar um Clube de Leitura e servir de mediador a outros amantes de livros, como eu. Obviamente, não para ler minhas próprias obras — eu não faria essa desfaçatez — mas para ler obras que marcaram minha trajetória de alguma forma, títulos que conheço como velhos amigos, livros com os quais tenho intimidade e desenvoltura. Nada acadêmico ou formal. Apenas o prazer de ler e dialogar com livros, porque eles são tão vivos quantos eu e você.

Quer ler comigo? 

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