DICAS PRA TREKKING ULTRALEVE

15 de setembro de 2021
Texto: Guilherme Cavallari
Fotos: Javier Cencig (Ruta de los Pioneros 2020)
 
DICA 1: Não confunda conforto com segurança. Usar um sistema de rastreamento via satélite é segurança, lanterna de cabeça é segurança, roupa impermeável é segurança. Levar uma camiseta por dia de trekking é conforto, levar shampoo é conforto. O maior erro na montagem da mochila em travessias autossuficientes, chamadas também de “thru hiking”, é o excesso de roupas e de comida. Em nossas casas tomamos banho todos os dias, na cidade tomamos banho depois de cada atividade esportiva. Na natureza isso não nem sempre é possível. A adaptação à situação de menos higiene, sem riscos para a saúde, é também um exercício de flexibilidade e de respeito. Se não mudarmos nossa atitude urbana quando estamos na natureza, a tendência é que urbanizemos o meio natural até sua extinção. Mochila leve significa poder andar mais rápido, ir mais longe ou simplesmente poder curtir mais o caminho. Seus joelhos agradecem!
 
 
DICA 2: Se eu fosse escolher três vilões em trekking, apenas três itens de equipamento que fazem as mochilas ficaram maiores e mais pesadas, eu diria que são: barraca (abrigo), saco de dormir e isolante térmico. Mas nem todo roteiro de trekking exige uma barraca. Estude a possibilidade de usar redes de dormir ou sacos de bivaque, por exemplo. Redes de dormir para acampamento vêm com toldo e mosquiteiro, compondo um conjunto completo de proteção. Sacos de bivaque nada mais são do que sacos de dormir impermeáveis, usados normalmente junto com sacos de dormir convencionais e isolantes térmicos. O termo “abrigo” abrange todas as possíveis modalidades de proteção para dormir em aventura. Sacos de dormir de pluma de ganso têm normalmente metade do volume e do peso de sacos com enchimento sintético, dependendo, obviamente, da qualidade de ambos. Isolantes infláveis são compactos e leves, muito mais confortáveis também do que os tradicionais isolantes de EVA.
 
DICA 3: Quanto menor e mais leve a mochila, menos estruturados e pesados precisam ser os calçados. Botas altas e robustas, com solados agressivos, combinam com mochilas pesadas e terreno rude, pedregoso e acidentado. Se seu roteiro de trekking não tiver as características do montanhismo, um par de tênis ou de botas curtas de trekking, leves e minimalistas, resolvem bem a questão da proteção dos pés. Essa equação passa desapercebida pra muita gente. Levada ao extremo, dá inclusive pra fazer trekking descalço, quando o equipamento chega ao mínimo peso e volume possíveis. Isso, inclusive já acontece! Existem pessoas, poucas é verdade, que fazer longas travessias em trekking sem calçado algum. Não estou aqui recomendado a postura, apenas comentando. Mas serve pra desmistificar a questão. Vale lembrar que existem maratonistas que correm descalços também. 
DICA 4: Não carregue água se não for necessário. Se o roteiro de trekking oferecer amplas possibilidades de coleta de água, não precisa encher o sistema de hidratação até a boca ou levar mais de uma garrafinha de hidratação. Alguns praticantes de trekking ultraleve carregam apenas uma caneca, que usam para se hidratar no caminho. Existe no mercado outdoor diversos itens de equipamento apropriados para essa atitude, como garrafas de hidratação com filtro de água acoplados, ou filtros que são ajustados à mangueira do sistema de hidratação. Fato é que a água é um dos itens mais pesados de qualquer mochila. Caminhar e coletar água no caminho é, inclusive, um ótimo exercício de atenção e conexão com a trilha e seu entorno. Cada barulhinho de água corrente vai chamar sua atenção do caminhante e o trekking será mais focado. 
 
DICA 5: Em nossas casas nós comemos até encher o bucho, às vezes comemos o dia inteiro. Usamos a comida como válvula de escape psicológico pra amenizar nossas frustrações e ansiedades. Em trekking, abre-se a possibilidade de lidarmos com a questão do alimento de forma mais prática, mais científica. A alimentação no trekking tem a função clara de nos manter saudáveis e fortes, não de fornecer conforto psicológico ou de compensar perdas. Essa abordagem, em trekking, pode inclusive ser terapêutica e ajudar a resolver questões de desarmonia na relação com o alimento. Comer menos em travessias autossuficientes em trekking significa carregar menos comida e menos combustível. Trekking ultraleve é também um treinamento pessoal de resignificação de conceitos urbanos. 
 
DICA 6: Cuidado com itens na mochila que têm apenas uma função. O exemplo clássico, e controverso, é o “liner”, ou “lençol” de saco de dormir. Essa peça só tem a função de ser acoplada ao saco de dormir. Se o objetivo é acrescentar proteção térmica, aumentar a capacidade do saco de dormir de proteger do frio, um conjunto de calça e blusa de “segunda pele” cumpre o mesmo papel, mas ainda serve pra uso durante o dia, se for preciso. Existem vários outros exemplos, como levar um conjunto completo de talheres e também uma lâmina no canivete. Redundância. Ou ainda levar calçados de acampamento quando o calçado de trilha é bastante confortável. A lista é imensa. Em trekking ultraleve tudo dever ter, preferencialmente, dupla ou tripla função. Eu, por exemplo, deixei de levar um pegador de panela (equipamento que imita uma alça para manusear panelas quentes) quando percebi que um alicate cumpre o mesmo papel. 
 
DICA 7: Equipamento específico de trekking ultraleve pode diferir muito do equipamento de trekking convencional. Sacos de dormir no trekking ultraleve se transformaram em “quilts”, que não têm zíperes, não têm capuzes e não têm material com enchimento na região que ficará nas costas do usuário. Isso significa 30% menos peso e volume nesse item de equipamento, cumprindo o mesmo papel. Basta usar um gorro e a cabeça fica aquecida enquanto dormimos. As barracas de trekking ultraleve muitas vezes não têm varetas, pois foram projetadas para serem usadas em conjunto com bastões de caminhada. Ou seja, vale pesquisar equipamento específico de trekking ultraleve se o objetivo é deixar a mochila mais leve e mais compacta. 
DICA 8: Trekking ultraleve é muito mais uma mudança de mentalidade do que um conjunto de equipamento. Deixar itens em casa, ou simplesmente não adquirí-los, é mais eficiente do que comprar itens mais leves. Esse detalhe faz toda a diferença porque coloca o praticante de trekking ultraleve numa postura de constante crítica e questionamento: Será que preciso desse item? Será não consigo usar algo que já tenho pra cumprir a mesma função? Construir uma espiriteira a partir de uma lata vazia de Coca-Cola ou de cerveja é, indubitavelmente, mais barato que comprar qualquer fogareiro. Uma pequena espiriteira de alumínio de latinha é o equipamento mais leve que já vi para aquecer comida em aventura. Carregar o álcool necessário numa pequena garrafa PET completa o conjunto, quase sem peso ou volume, definitivamente sem custo. 
 
DICA 9: Trekking ultraleve não é sobrevivencialismo. Praticantes de trekking vão pra natureza preparados e não dependem de encontrar nada além de água no caminho. Essa atitude de preparo e planejamento resulta em menor impacto ambiental e maior preservação do meio ambiente. Precisar fazer fogueira pra se aquecer é sinônimo de não ter escolhido as roupas adequadas, por exemplo. Quem não consegue escolher roupas tampouco vai conseguir cuidar de fogo. Ter algum abrigo portátil pra dormir à noite, sem precisar cortar galhos ou folhagem para construir um abrigo improvisado, economiza tempo e degrada menos a natureza. Vale lembrar que sobrevivencialismo é uma expressão da paranóia do fim do mundo, enquanto trekking é a expressão do convívio harmonioso com a natureza. Sobrevivencialistas sobrevivem, praticantes de trekking vivem intensamente. 

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