A previsão era 120 mm de chuva para o sábado e tempo seco no domingo. Mas a chuva do dia anterior prometia barro no domingo. Mesmo assim marquei uma trilha com o Valério (um dos representantes da marca Deuter no Brasil) e o Renato (que conheci na Adventure Sports Fair e é consumidor voraz de meus livros).
Meus amigos 100% mountain bikers não costumam fazer trilha quando o tempo está assim… Molhado, lameado, escorregadio. Você, leitor, pode estranhar eu dizer 100% mountain bikers e me excluir dessa categoria. É um pouco estranho mesmo, concordo. Tenho um vasto currículo como mountain biker, inclusive com nove livros publicados, é verdade, mas não tenho esse perfil 100% mountain bike. Gosto também de trekking, escalada em rocha, canoagem oceânica, corrida de aventura, corrida em trilha e até vela. Esse gosto eclético de certa forma interfere na minha relação com a trilha quando pedalo. Sou, por exemplo, um dos poucos mountain bikers que conheço que gosta de barro.
Pedalar com muito barro na trilha é praticamente outro esporte. MTB com uma pitada de esqui. Não dá para andar muito rápido, no limite. Não dá para aproveitar as curvas em alta velocidade ou as descidas técnicas sentindo sua técnica e seu equipamento dando tudo de si. Não dá par não sentir pena da bike, dos freios, suspensões, marchas, corrente, etc. A cada pedalada dá para ouvir a areia moendo a relação e a conta na bike shop ficando cada vez mais alta…
Essa desculpa (fica caro pedalar no barro) eu ouço regularmente. É verdade, não discordo, mas não deixa de ser uma desculpa. Barro, chuva, frio, vento, sol forte, insetos e outros temperos fazem parte do esporte e acrescentam sabor. Mountain bike sem isso tudo fica muito parecido com aula de spinning em academia com ar condicionado.
E assim foi, domingo.
E agora chegou a hora de fazer uma confissão… Sou o cara mais perdido que conheço!
Pedalo há oito anos essa trilha (secreta, a mesma do domingo passado) e se não tiver um amigo que conhece bem o local, eu me perco. Não sei o que acontece, se é algum bloqueio, se não tenho senso de direção, se essa trilha é realmente confusa, mas o fato é que eu sempre me perco quando tento pedalar sozinho por lá.
E assim foi, domingo.
Tudo parecia igual, familiar e ao mesmo tempo confuso. Subimos um morro pouco acentuado e de repente eu via uma trilhazinha convidativa saindo para direita e me jogava nela, patinando montanha abaixo no mar de barro com meus dois companheiros logo atrás. Sem saída. Empurrávamos as bikes montanha acima (não dava para pedalar de jeito nenhum). Aparecia outra entradinha atraente e lá íamos nós novamente e empurrávamos as bikes de volta…
Nesses momentos eu reparo em duas coisas: na minha desorientação e na reação de quem estiver comigo. Chego a dar risada de mim mesmo, andando em círculos. Mas o bom humor desaparece se quem estiver comigo não está se divertindo com a brincadeira. Então fico apreensivo quando me perco. Mas nesse domingo de MTB e barro meus companheiros também não eram 100% mountain bikers, eram mais “aventureiros bem dispostos”, como eu. Os dois pareciam também estar se divertindo (ou pelo menos disfarçaram muito bem) e o clima de diversão se manteve intacto.
O relatório final ficou assim: 22 quilômetros em 2:11 e 804 metros acumulados subidos e o mesmo tanto descido (a trilha era circular). Nenhum tombo memorável, só aquelas escorregadas básicas na lama.
Depois do pedal conversamos sobre as próximas aventuras e os dois amigos se interessaram em me acompanhar no feriado de 9 de julho no mapeamento da travessia em trekking Marins-Itaguaré, que vai constar do Volume 2 do Guia de Trilhas TREKKING.
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