Onde estou?
Décimo-quarto dia de travessia. Quatorze dias de trekking cruzando as Highlands na Escócia e esse é o primeiro texto que escrevo tentando descrever o que já aconteceu até o momento.
Bom sinal. Sem tempo de escrever é resultado de muito trabalho na trilha.
Comecei minha caminhada da cidade de Fort William no dia 19 de outubro, uma segunda-feira. Gostaria de ter começado a jornada até Cape Wrath no dia anterior, mas a pequena lancha que transporta passageiros para o lado de lá do braço de mar em frente da cidade não funciona aos domingos.
Cape Wrath, meu destino final, é um promontório rochoso projetado para dentro do Mar do Norte e municiado com um farol e nada mais. Quando os vikings começaram a saquear a Grã-Bretanha, no começo do século VIII, eles usavam esse cabo como referência de navegação. Assim que avistavam a proa rochosa da grande ilha, eles gritaram: “Hvaf!”, que extinta língua Norse Antiga, que os vikings falavam, significa “mudar de direção”.
O roteiro que estou seguindo ganhou o título de “a travessia em trekking mais difícil da Grã-Bretanha”, mas essa não foi a razão que decidi fazê-la. O trajeto de aproximadamente 400 km cruza toda a extensão das Highlands, a maior região de natureza ainda selvagem da Grã-Bretanha e um importante destino de turismo de aventura no mundo.
De onde vim?
De Fort William até aqui já caminhei 263 km e subi um total acumulado de 9.964 metros e posso dizer que, agora, conheço um pouco da região e entendi o propósito desse roteiro.
As Highlands são chamadas assim, de “Terras Altas”, porque aqui estão concentradas a maior parte das montanhas escocesas, também chamadas de “Munros”. Esse apelido aconteceu porque, em 1891, Sir Hugh Munro, o 4º Barão de Lindertis e um dos fundadores do Clube Escocês de Montanhismo (Scottish Mountaineering Club), publicou uma lista com todas as montanhas de mais de 3.000 pés de altura, ou 914,4 metros acima do nível do mar. Abaixo dessa altitude a elevação não é considerada uma montanha.
“Subir Munros” é um esporte popular na Escócia.
A Cape Wrath Trail, ou “Trilha do Cabo Wrath” em português, na verdade é uma conexão de muitas trilhas, algumas tradicionais e outras novas, formando um desenho que possibilite ao caminhante chegar de uma extremidade a outra das Highlands evitando estradas de asfalto e conectando áreas selvagens. O caminho não é marcado, como acontece que a maioria das trilhas oficiais no país. É preciso navegar para encontrar o caminho.
O mais impressionante, no entanto, além da paisagem e do isolamento é claro, é que ainda é possível ir de um canto a outro da região evitando os efeitos civilização e vendo a terra como seus habitantes mais antigos a viram. Algo difícil de fazer na Europa.
Como vou?
Apesar de, em teoria, o roteiro possa ser feito sem acampamentos, dormindo em vilas e cidadezinhas ao longo do caminho ou nas várias cabanas de montanha – bothy no singular, bothies no plural, em inglês – espalhadas pelos vales, seria muita arriscado não ser autossuficiente.
Esses bothies são espetaculares. Velhas casas centenárias, abandonadas por décadas, restauradas por uma associação sem fins lucrativos, a Mountain Bothies Association (http://www.mountainbothies.org.uk/) e atualmente abertas para uso público e gratuito. Fundada em 1965 por um grupo de entusiastas por caminhadas na natureza, a entidade detém hoje pouco mais de 100 casas sob controle. Todo trabalho administrativo e de manutenção dos edifícios é voluntário e todo o dinheiro vem de anuidades dos associados ou de doações. Apenas um dos edifícios é de propriedade da associação, os demais são cedidos pelos proprietários.
Agora, imagine caminhar 6 a 8 horas por dia debaixo de chuva e vento, pisando em charcos e pedras o tempo todo, chegar a um vale isolado e encontrar uma casa sólida com lareira, mesa, cadeiras e um tablado de madeira para esticar o saco de dormir? Como diria uma certa publicidade de cartão de crédito… “Isso não tem preço”. E neste caso é verdade.
Mas, por conta de estar filmando para fazer um filme-documentário dessa trilha e dessa experiência, carrego bem mais peso do que deveria. Minha mochila completa deve estar com cerca de 22 kg.
Para onde vou?
Cape Wrath, é claro! Mas isso é apenas parte do caminho. Primeiro, porque uma vez chegando a Cape Wrath preciso caminhar mais dois dias para sair de lá! O lugar é realmente remoto…
Mas ninguém encara uma caminhada solo de 400 km pelo interior das Highlands escocesas, carregando 22 kg nas costas, simplesmente para “tomar um pouco de ar”, não é mesmo? Dizer que faço isso por trabalho também seria simplismo.
Estou aqui porque, como disse John Muir (1838-1914), filósofo preservacionista e amante da natureza fundador do Sierra Club nos Estados Unidos: “In every walk with nature one receives far more than one seeks”. Em português: “Em toda caminha na natureza recebemos muito mais do que buscamos”. Ou ainda, citando Muir mais uma vez: “The clearest way into the Universe is through a forest wilderness”. Traduzindo: “O caminho mais claro para o universo é através de uma floresta na natureza”.

Quando cheguei no pé da montanha em destaque na foto, havia uma trilha subindo a crista e uma trilha descendo para a direita, onde havia uma estrada de asfalto no fundo do vale… Mas o meu caminho seguia para a esquerda, sem trilha, na encosta encharcada do morro…
E depois?
Se tudo der certo, pretendo terminar essa longa caminhada em 22 dias. Vinte dias para chegar a Cape Wrath e mais dois dias para voltar à civilização. Depois disso, vou precisar de meses para digerir e entender tudo o que vi e vivi.
De imediato, deixo algumas imagens e cenas…
Faltava menos de uma hora para o por do sol e o vale profundo, alagado e sombrio onde eu caminhava parecia um túnel de vento. Eu não chegaria à próxima cabana de montanha antes do anoitecer e caminhar na escuridão, mesmo com lanterna, não estava nos meus planos. Decidi acampar. Do outro lado do rio que deveria atravessar enxerguei um pequeno campo pedregoso que parecia seco. Melhor dormir sobre pedras do que dentro do charco, disse para mim mesmo. Comecei a pular pedras para atravessar o rio e, no meio do caminho, três pequenas trutas que nadavam corrente acima para desovar saltaram da água por entre minhas pernas.
O dia estava nublado e a temperatura em torno dos 12˚ C. Eu vinha pisando em poças mal-disfarçadas pela relva por horas. Em algumas eu apenas molhava a sola das botas, em outras afundava até os tornozelos. Vi um portão de madeira e calculei que além dele haveria algo semelhante a uma trilha. Na frente do portão a mesma relva alagada de aparência inofensiva. Piso com a perna direita e não encontro o fundo. Minha perna mergulha até a metade da coxa e, sem ter onde me segurar, piso com a outra perna dentro do fosso. Atolado no barro grudento penso que, se o buraco fosse mais fundo, poderia ter submergido completamente.
Três dias sem ver o sol. Chuva e vento por companhia. Não vi ninguém na trilha desde que comecei a caminhada, duas semanas atrás. Quando cheguei a um lago depois de uma longa subida, vi uma barraca vermelha de acampamento. Era domingo, dia de subir Munros e o dono da barraca devia estar em algum pico, calculei. Faminto, parei para almoçar pão, queijo, amendoins e chocolate – as iguarias de trilha. Usando a grande mochila como encosto e aparador de vento, dei as primeiras dentadas na comida e, de repente, o sol rasgou as nuvens e encheu o cenário de luz dourada e limpa. Luz realmente celestial. Montanhas cinzas ganharam todos os tons de verde, o lago escuro ficou azul, o vermelho da barraca distante virou uma flor incandescente. Minha alegria foi tanta que lágrimas salgaram meu sanduíche.








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