FAKE ART (MADE YOU LOOK)

5 de abril de 2021

Documentário disponível na plataforma Netflix, baseado em fatos reais, sobre a maior fraude do mercado de arte dos Estados Unidos. O título original é Made You Look: A True Story About Fake Art, lançado em 2020 e dirigido por Barry Avrich. De 1994 até 2009 uma misteriosa comerciante de arte vendeu à maior galeria de Manhattan, em Nova Iorque, mais de 60 obras até então desconhecidas dos mais famosos pintores expressionistas abstratos norte-americanos. Quadros nunca antes vistos de Pollock, Rothko, Motherwell, entre outros, surgiram regularmente a preços muito abaixo do mercado causando uma comoção no mercado. A história por traz das vendas era confusa, mas factível. Um obscuro colecionador havia deixado uma herança de obras que agora seria posta à venda. Multimilionários colecionadores de arte acreditaram na prestigiosa galeria, que acreditou em opiniões de especialistas que, por sua vez, acreditaram na imensa sorte do achado. Todos acreditaram que faziam um negócio da China, que resultou sendo exatamente isso: um negócios da China. A fraude causou um prejuízo aos investidores superior a 80 milhões de dólares e terminou numa série de acordos extrajudiciais e um processo jurídico que mexeu com os alicerces do mundo comercial das obras de arte. Pra mim, o filme oferece excelente terreno pra discutir o valor da arte, seja financeiro ou simbólico. A monetização da inspiração, a precificação da criatividade, a ganância, a vaidade — tudo se mistura nessa discussão sem resposta definitiva. Os valores desviados com intenções desonestas são astronômicos para 99% da população, mas sequer arranharam as fortunas das vítimas enganadas, argumento que obviamente não serve, nem deveria servir, de atenuante criminal. Todo crime merece punição, reclama, com razão, um investidor lesado no filme, mas deveria a punição ser proporcional ao valor da traição, proporcional ao tamanho do ego ferido? Ou deveria ser proporcional ao valor, em dinheiro, da fraude pura e simples? Ou ainda, ser proporcional à condição de pagamento do criminoso? Como quantificar e monetizar a punição pela traição ou pelo crime? Deveriam as intenções também serem analisadas, julgadas e eventualmente punidas? A intenção de quem forja, de quem vende um quadro falso como verdadeiro contam? Se sim, porque não a intenção de quem se deixa enganar pela vaidade e a cobiça de possuir um objeto muito a baixo preço também deveria contar? E a intenção do artista ao criar a obra? Caberia a inclusão dessa intenção original na discussão? Qual seria o papel simbólico da arte nessa trama complexa? Por que esse mercado galopa sem rédeas na maior corrida do ilimitado capitalismo financeiro? Seria a arte a representação máxima da futilidade e da frustração dos excepcionalmente ricos, se distanciando por completo da sua intenção original? Ficar meditando sobre esses temas fez, pra mim, o filme bastante instigante e inspirador. Bem elaborado num ótimo roteiro, bem filmado e carregado de diferentes vozes, quase sempre dissonantes e antagônicas, esse é um filme pra fazer pensar.  

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