LASTROS, ÂNCORAS E A AUTOSSUFICIÊNCIA

3 de maio de 2020

Autossuficiência, liberdade, independência e simplicidade são algumas das bandeiras da aventura e algumas das bússolas que direcionam minha vida…

Nesses tempos de quarentena e redução (às vezes ausência total) de recursos financeiros, precisamos pensar sobre o que é essencial, o que é importante, o que é supérfluo e o que é desperdício. Pelo menos é isso que tenho feito regularmente nesse momento. Um exercício que não deveria necessitar de uma crise sanitária global pra acontecer.

Olhando a fatura do cartão de crédito, reparei que pagava um série de serviços que utilizava muito pouco ou que poderia muito bem viver sem… Netflix, HBO Go, Amazon Prime Video, Google One, Spotfy, entre outros, foram os primeiros a ganharem o devido corte. Cancelei tudo!

Que fique claro, não estou dizendo que esses serviços são ruins, apenas que são supérfluos…

Supérfluos para mim!

Enxerguei há tempos (apenas relaxei e baixei a guarda por um tempo) que muitas dessas assinaturas são armadilhas ardilosas… Contratamos as plataformas, pagamos uma quantia inicial relativamente baixa, que parece subir gradualmente, em função do quanto a usamos e do quanto passamos a necessitar delas, até que a soma desses pequenos e inicialmente insignificantes gastos tiram nosso sono.

Falta dinheiro no fim do mês, não conseguimos pagar a fatura do cartão de crédito e sentimos que estamos fracassando na vida. Passamos a questionar nossas escolhas de trabalho. Por que não escolhi uma profissão que desse mais dinheiro?

Pronto! Sem perceber estamos onde alguém queria que estivéssemos: acreditando que a falta de dinheiro para as coisas não essenciais é o grande problema de nossas vidas. A insatisfação e o eterno desejo de mais consumo nos faz pensar que a economia é o grande regente da vida, do país, do planeta. Se a economia está bem, eu estou bem, tudo está bem.

Algo que o coronavírus está mostrando descaradamente não ser verdade. Tem um monte de coisas mais importantes que a economia! Saúde pública, boa governança, educação de qualidade, transparência nas informações, sanidade mental, solidariedade, espírito comunitário, ar puro, água potável, tempo livre… Enfim, a lista é enorme!

Tudo coisas que descobrimos que não tínhamos.

E a culpa, veja bem, não é da Netflix, da HBO Go, do Amazon Prime Video, do Google One ou do pobrezinho do Spotfy, coitado, que só canta música boa nos nossos ouvidos. 

Primeiro, a culpa é nossa! Sim, nossa, por nos deixarmos cair sorridentes nessas pequenas armadilhas. Nossa, por nos deixarmos cair em armadilhas bem maiores, como o plano de saúde privado, a escola particular, o carro importado, aquela frigideira francesa que precisa ser lavada com detergente especial e luvas brancas.

Ao contrário do que manda o catecismo da aventura, acumulamos peso morto na mochila, não cuidamos da manutenção da bike, deixamos o casco do caiaque furar, esgarçamos a corda de escalada.

Ao cancelar um monte assinaturas, além de economizar dinheiro, que não está sobrando hoje em dia, também economizei tempo e espaço mental. A TV desligada à noite livra tempo para um livro, para conversas, para fazer amor, para cozinhar, para dar mais atenção aos filhos e (em meu caso) cachorros. Consigo escrever mais, estudar, jogar, brincar ou fazer absolutamente nada! O que é fundamental para criarmos coisas novas, inclusive novos modelos de vida para nós mesmos.

Se eu quiser assistir a um filme em casa, será um único filme, escolhido a dedo, não essas novelas sem fim chamadas, hoje em dia, de “séries”. Roteiros simples e repetitivos esticados à exaustão com o único objetivo de nos prender na frente da TV, de nos fazer escravos e desperdiçar nosso precioso tempo.

Meu próximo objetivo agora é cancelar o plano de saúde privada. A crise do coronavírus expôs, pelo menos para mim, a precariedade do sistema de saúde e a ilusão que eu tinha de estar “protegido”. Penso em migrar para o SUS e oferecer uma contribuição voluntária mensal para isso.

A calamidade do coronavírus e suas imagens chocantes de mortos enfileirados em corredores de hospitais esperando espaço nos morgues e cemitérios, as covas abertas lado a lado a perder de vista, as aglomerações nas portas dos hospitais, o descaso e o escárnio do governo federal e de alguns governos locais, tudo isso expôs, pelo menos para mim, que o caminho tem que ser outro.

Só espero que uma dessas covas abertas seja para sepultar, de uma vez por todas, a ideia ridícula do neoliberalismo, do liberalismo econômico, do Estado pequeno. Nós sabemos agora (na verdade sempre soubemos, mas nos recusamos a acreditar) que o mercado, se deixado para escolher entre ficar menos rico e poderoso ou deixar a população morrer à míngua, não hesita em escolher a segunda opção.

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5 respostas para “LASTROS, ÂNCORAS E A AUTOSSUFICIÊNCIA”

  1. Hamilton Lacerda Carvalho disse:

    Muito bom gosto muito do seu trabalho, mas onde está os relatos da viagem a Mongólia

  2. Rodrigo disse:

    Texto maravilhoso. Corroboro com suas ideias. Apesar de ainda ser escravo da Panela francesa. Estou me desapegando!

  3. Emerson F. disse:

    Grande texto. sem querer caí de para-quedas por aqui, e fiquei muito feliz de encontrá-lo. esse terrível momento que o mundo está atravessando me faz reavaliar todos esses pontos que vc citou que produz uma ilusão que rouba o nosso precioso tempo de vida. Não podemos mais deixar que esse tipo de tecnologia controle de modo remoto a nossa forma de agir, ser e pensar. Um ponto curioso que eu noto nessas plataformas é o fato dessas séries – como vc bem ressaltou – tentar manter o espectador paralisado em seu sofá consumindo através dos aplicativos e evitando o mundo exterior. aliás, note as temáticas das séries. Não há nenhuma que traga esperança e motivação. apenas desgraça e niilismo. há ainda uma romantização do sofrimento e do uso da medicação tarja preta que tenta se passar como algo “normal” e de uma falsa e equivocada liberdade através das redes sociais e do celular.

    Ps: Recentemente lí uma matéria que dizia que o uso excessivo de celular está contribuindo para a nossa perda da visão periférica. aos poucos estamos perdendo a nossa capacidade de ver e sentir as coisas. olha em que pontos chegamos!!!! abs

  4. marcel disse:

    exatamente!! faço coro com o SUS, pra mim, o melhor sistema ja criado mas sempre sabotado! e advinhe por quem?…..

  5. Marcio Mafra disse:

    “Tem um monte de coisas mais importantes que a economia!” – para citar apenas um trecho desse artigo enriquecedor (literalmente!). Tema que costuma tomar horas de nossa vida e, consequentemente, “toneladas” de nossa energia. Pagamos para desperdiçar o bem mais democrático e limitado que temos: o tempo. Trazer o minimalismo do trekking e do bikepacking para o nosso dia a dia é o grande aprendizado que tiramos dessas atividades.

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