MAPEAMENTO CARRETERA AUSTRAL 4

5 de dezembro de 2009

Temuco, Chile

04 de dezembro de 2009 / 7° dia de viagem / 3.154 km rodados

A curta novela do farol do carro teminou logo depois do meio-dia. O dono da pousada onde passamos a noite, Don Enrique, me acompanhou até o eletricista de confiança dele, que trabalha na garagem de casa. Como a garagem estava lotada (com dois carros), ele mexeu no meu carro na rua mesmo. Nada muito profissional e muito menos encorajador. Minha suspeita estava certa. Era o interrruptor mesmo. Só que o eletricista era minucioso e quis entender como funciona o sistema elétrico de um Land Rover por completo. Demorou quatro horas e meia e deixou os faróis acesos, mas todas as luzes do painel apagadas. Paciência. Vida (e viagem) que segue…

Curiosidades: nosso anfitrião, Don Enrique, é dono de uma rádio online de música folclórica chilena e latino-americana. Sua rádio tocava o dia todo na pousada (http://www.mundorural.cl/). A vizinha da frente era irmã de Lucho Gatica, famoso bolerista de Rancágua que hoje vive no México (www.youtube.com/watch?v=5Y8UpoKF5LM).

A rodovia 5, norte-sul chilena, é uma tapetão de asfalto em excelentes condições. Lembra um pouco a Via Dutra, mas quase sem carros. Tipo filme de tragédia… Rodovias normalmente lotadas de repente vazias… Montanhas nevadas de grande porte, geralmente vulcões (San Pedro, Chillán, Callaqui), decoravam o horizonte leste e distraíam a vista da estrada. A outra diversão ficou por conta dos nomes das localidades, entre eles o mais interessante foi PEOR ES NADA (pior é nada)… Deu vontade de conhecer a cidadezinha só para confirmar o título. Entrar e sair correndo, claro.

As coisas mais interessantes do dia estavam relacionadas com nossa alimentação… No café da manhã, fatias de abacate e gelatina, além do universal pão-com-manteiga e café-com-leite. Não me lembro de já ter comido abacate e gelatina como desjejum antes… Almoçamos em um restaurante tradicional de beira de estrada, Juan y Medio, onde pedimos humitas. Prato tradicional chileno (veja um filme ensinando a receita: www.youtube.com/watch?v=ukh15fb_IGg), não é nada mais que uma pamonha salgada suavemente temperada. Como acompanhamento, salada de tomates crus sem casca, cebolas cruas e abacate. “Salada chilena” é o nome do prato… Já o jantar foi bem globalizado…

Chegamos em Temuco com o sol se pondo. Fomos direto a uma hospedaria recomendada pelo guia Chile, da Lonely Planet. Depois do banho saímos a procura de um restaurate no centro da cidade. Encontramos um chinês quase em frente a outro chinês. Optamos pelo chinês mais próximo…

Um grande salão de esquina, com as janelas cobertas por pesadas cortinas com opulentos bandôs lembrando uma boca de cena de teatro… Logo na entrada um aquário tamanho família, dividido em dois por vidro. Dentro, dois enormes peixes “Cui”, chineses, gordos e grandes demais para o casulo de vidro e água. Os bichos não conseguiam nem virar para o outro lado, boiavam em fila indiana. Dava claustrofobia só de olhar. Depos descobri que eles moravam naquele cubículo há três anos e foram importados diretamente da China. Descendentes de piranhas, são peixes de briga e se alguém tirar o vidro de separação o pau come. E pela cara do garçon que me deu a informação, acho que as brigas não são raras… O salão era dividido em três salas menores por repartições de madeira e vidro, como em reparticõs públicas. Todos os espaços eram iguais, o que fazia a separação parecer um pouco inútil, puramente burocrática… O teto tinha um desenho clássico, com lustres de vidro tosco imitando cristal feio. A iluminação vinha de buracos de spots preenchidos por lâmpadas frias… Diferentes jogos de mesa e cadeiras criavam ambientes aleatórios e, em um canto, uma espécie de palanque em forma de piano de calda suportava cinco nichos com sofás. Cada nicho era iluminado por um abajur de metal polido com lâmpadas coloridas, cada uma de uma cor, com detalhes de luzes pequenas que piscavam constantemente. “São naves espaciais,” disse a Adriana, “elas vão abduzir os clientes…”. Eu olhava o teto no momento do comentário e pensava que o ambiente lembrava um pouco o filme “O Baile”, do Ettore Scola, e que aquele salão quem sabe um dia já foi uma pista de dança… Olhando os lustres esqueci o Scola e lembrei do Ed Wood… As caixas de som tocavam Amy Winehouse um pouco mais alto do que se poderia esperar… Duas TV de tela plana presas na mesma parede, lado a lado e separadas por uma parede de vidro (igual aos peixes de briga), tinham o destaque de peças finas de decoração. Uma estava desligada e a outra exibia o Big Brother chileno (Paredón, em que os participantes usam uniformes militares – as mulheres de micro shorts camuflado, óbvio)… Logo abaixo de uma das TV havia uma enorme relógio tipo pedestal, antigo ou (de longe) uma boa imitação de carrilhão. Em frente a ele, fazendo par, do outro lado do salão, um gigantesco aparelho de ar condicionado que mais parecia uma geladeira… Todas as repartições de madeira e vidro tinham floreiras com flores artificiais… E para completar o excesso de informação, no bar da entrada, com a típica parede de espelho repleta de garrafas, havia também duas geladeiras lado a lado, uma Coca-Cola e a vizinha Pepsi.

Pedimos pratos chineses, vinho chileno e sorvetes com nomes em inglês… Viva a globalização! Viva as lojinhas 1,99 que decoram casas, escritórios e… restaurantes!

A temperatura média caiu cerca de 10 graus Centígrados nos últimos 700 quilômetros. Antes suávamos insuportavelmente dentro do carro, agora dirigimos com as janelas quase fechadas de dia e vestimos casacos à noite. A vegetação também mudou, está mais verde e densa.

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