13 de dezembro de 2009 / 14° dia de viagem / perdi momentaneamente a conta dos quilômetros percorridos…
A volta ao Lago Llanquihue foi cansativa – 162 quilômetros em dois dias, nove horas de pedal descontadas todas as (muitas) paradas – mas valeu cada pedalada. A região foi colonizada por imigrantes alemães em meados do século XIX e as marcas da colonização estão claramente presentes… Lindas casas de madeira, deliciosas tortas, floreiras nas janelas e em postes nas vilas, gente loira e nomes de pronúncia difícil – para citar os exemplos mais comuns.
Esse roteiro surgiu de improviso, como já escrevi em um post anterior, mas valeu a pena. A informação inicial que consegui em um bike shop era de que o trajeto teria 180 quilômetros, por isso pensei em fazer o máximo possível no primeiro dia, sábado, para deixar uma quilometragem menor no segundo e tempo de sobra para chegarmos a Puerto Montt (20 km de distância de Puerto Varas) para pegarmos o navio até Chaitén.
Comecei forte, no asfalto até Ensenada. A Adri foi de carro e me encontrava a cada dez quilômetros ou um pouco mais. Terminado o asfalto começou um trecho de estrada de terra, na entrada do parque nacional do Vulcão Osorno. A média horária caiu de 28 km/h para 12 km/h. Cruzamos um casal de suíços que dava a volta ao mundo em bicicletas. Parei e conversei (em alemão) com eles, tirei fotos e pegguei seus contatos (http://www.joergersvelotour.ch/ para quem quiser acompanhar o casal Pius e Margrit Jöerger pelo mundo). Fiz algumas paradas rápidas para comer e regular alguma bobagem na bike.
Quando a metade do trajeto se aproximava e compreendi que a quilometragem final total seria mais baixa do que o esperado, disse à Adri que procurasse um lugar para passarmos a noite. O céu ameaçava chuva e algumas gotas já começavam a cair esporadicamente. No quilômetro 85,50, em Puerto Fonck, vi a Land Rover estacionada em uma impressionante casa de madeira. Sua arquitetura chamava menos a atenção que seu estado geral. As madeiras escuras e envelhecidas não tinham pintura alguma. Havia um misto de idade, história, decadência e personalidade na construção. A Adri estava na janela e a primeira coisa que me disse foi: “Você vai enlouquecer com essa casa!”.
A dona era neta de alemães e havia vivido 35 anos na Suíça. Vivia sozinha na mansão que funciona como pousada. Sua filha de 23 anos estava com ela no momento e retirava do forno uma torta de limão perfeita. Ficamos para pernoitar e jantar com elas… Eu só pensava na torta.
Foi uma noite memorável. Jantamos bem, tomamos um bom vinho chileno, fomos bem servidos e acolhidos, mas o principal foi que jantamos na cozinha ao calor de um imenso fogão de ferro a lenha com um cachorro super carinhoso aos nossos pés. Era como estar em casa, mas na casa dos nossos sonhos. Mãe e filha são chilenas e nos possibilitaram um noite chilena típica. Isso não tem preço.
A filha, Isabel, estuda turismo de aventura e nós dois conversamos muito. Ela trabalha no momento como estagiária em uma empresa de rafting em Futaleufú, a única que tem um camping e cabanas na beira do rio e recebe turistas de passagem (as outras duas empresas com estrutura à margem do Futa trabalham apenas com clientes via internet).
Em mais uma dessas coincidências que acontecem na estrada, já estávamos programados para ir para Futaleufú e conhecemos a pessoa certa no lugar certo. Não demoraria muito e nós reencontraríamos Isabel…

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