MAPEAMENTO CARRETERA AUSTRAL – considerações finais

20 de janeiro de 2010

São Paulo, Brasil

Rodamos ao final 13.872 km de carro, completamos 50 dias de viagem, fizemos menos trekking do que havíamos planejado (parte devido ao mal tempo e parte devido á escassez de informação), mas voltamos com uma experiência única e material para um belo livro… O Guia de Trilhas Carretera Austral, que pretendo lançar em Setembro próximo na Adventure Sports Fair.

É impossível resumir esses cinquenta dias de viagem em um curto post nesse blog, mas fazendo algum esforço… A Carretera Austral é um arranhão em uma imensa área geográfica única no planeta. O sul da Patagônia chilena nada tem à ver com as mesmas latitudes na Argentina e menos ainda com a Terra do Fogo de ambos países.

Geograficamente, essa é a região onde os Andes decrescem de tamanho, suavizam e se aproximam mais do Oceano Pacífico. Também é a região de maior concentração de gelo fora dos árticos, fora dos pólos. O Campo de Hielo Norte o e Campo de Hielo Sur interferem muito no clima, flora e fauna locais. O aumento latitudinal também altera a vida local, inclusive humana, justificando o ditado argentino… Dios nos cría y el viento nos amontona… (Deus nos cria e o vento nos amontoa).

Tudo isso junto: montanhas altas próximas do mar, concentração de gelo glaciar e altas latitudes, isolaram a região por milênios. Foi apenas na década de 70 que o ditador chileno Augusto Pinochet decidiu construir a controversa Carretera Austral, ligando “o Chile” a esse pedaço de terra esquecido pelo diabo (Deus com certeza guarda esse canto de terra bem junto dele).

Ambientalistas modernos usam o exemplo da Carretera Austral como um quadro de horrores, um rasgo egocêntrico no meio da natureza intacta, um crime ambiental sem precedentes. Os patagônicos enxergam o tirânico Pinochet como um semi-deus, o único que voltou os olhos para suas mazelas. Tudo muito parecido com a história da nossa Transamazônica.

Clima rude, solo relativamente pobre ou muito acidentado, pouca diversidade biológica, isolamento geográfico – tudo isso ainda influencia a economia e a disposição da população local. Mas não é uma estrada solitária com poucas ramificações que tranformaria o “ermo” em “cosmopolita”.

O resultado, pelo que vimos e sentimos, é uma vastidão a ser explorada. Para todos os lados que se olha na Patagônia chilena vê-se vales profundos e verdes subindo em direção a alguma geleira, praticamente virgem e intocado, esperando uma equipe de aventureiros (muito) bem dispostos e equipados para desvendar seus mistérios. Não faltam rios, caudalosos e límpidos, que combinam perfeitos com caiaques e balsas de rafting. Muralhas de rocha clamam por escaladores. A própria Carretera Austral é perfeita para cicloturismo e já é uma tradição mundial.

É claro que minha visão é preconceituosa. Enxergo aquilo que meu trabalho e lazer individual me ensinaram: aventura. Mas existe, claro, cultura e folclore, riqueza humana e artística, um estilo de vida chamado de “patagônico” que também está ameaçado de extinção, junto com o Huemul. Esse estilo de vida diverge, contrasta e é muitas vezes antagônico ao estilo “politicamente correto” dos ambientalistas e praticantes conscientes de esportes de aventura. Nele a caça ao puma, por exemplo, que destroça a criação de ovelhas, é parte viva. A construção de cercas e mais cercas também. Assim como o churrasco, o rodeio, o chimarrão (el mate), cavalos e aquela aparência assustada pelo vento que só os patagones conseguem ter.

Ninguém volta incólume da Patagônia, muito menos depois de quase dois meses. Esse é um dos poucos lugares habitados do mundo em que a natureza ainda dita as regras e impões as condições finais, não importa a quem. Ao homem urbanizado moderno isso é um “choque cultural”. Mas na verdade é um chamado ancestral, um eco do inconsciente, uma força que sentimos correr nas veias. O resultado é quase sempre um estado de desconforto que vai além do físico, algo que confrota nossa personalidade e trinca valores. Não há como voltar para casa, para a cidade grande, sem questionar nosso estilo de vida.

Na Patagônia a vida é dura e simples. Mas quando foi mesmo que ela deixou de ser assim?

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