Rodamos ao final 13.872 km de carro, completamos 50 dias de viagem, fizemos menos trekking do que havíamos planejado (parte devido ao mal tempo e parte devido á escassez de informação), mas voltamos com uma experiência única e material para um belo livro… O Guia de Trilhas Carretera Austral, que pretendo lançar em Setembro próximo na Adventure Sports Fair.
É impossível resumir esses cinquenta dias de viagem em um curto post nesse blog, mas fazendo algum esforço… A Carretera Austral é um arranhão em uma imensa área geográfica única no planeta. O sul da Patagônia chilena nada tem à ver com as mesmas latitudes na Argentina e menos ainda com a Terra do Fogo de ambos países.
Geograficamente, essa é a região onde os Andes decrescem de tamanho, suavizam e se aproximam mais do Oceano Pacífico. Também é a região de maior concentração de gelo fora dos árticos, fora dos pólos. O Campo de Hielo Norte o e Campo de Hielo Sur interferem muito no clima, flora e fauna locais. O aumento latitudinal também altera a vida local, inclusive humana, justificando o ditado argentino… Dios nos cría y el viento nos amontona… (Deus nos cria e o vento nos amontoa).
Tudo isso junto: montanhas altas próximas do mar, concentração de gelo glaciar e altas latitudes, isolaram a região por milênios. Foi apenas na década de 70 que o ditador chileno Augusto Pinochet decidiu construir a controversa Carretera Austral, ligando “o Chile” a esse pedaço de terra esquecido pelo diabo (Deus com certeza guarda esse canto de terra bem junto dele).
Ambientalistas modernos usam o exemplo da Carretera Austral como um quadro de horrores, um rasgo egocêntrico no meio da natureza intacta, um crime ambiental sem precedentes. Os patagônicos enxergam o tirânico Pinochet como um semi-deus, o único que voltou os olhos para suas mazelas. Tudo muito parecido com a história da nossa Transamazônica.
Clima rude, solo relativamente pobre ou muito acidentado, pouca diversidade biológica, isolamento geográfico – tudo isso ainda influencia a economia e a disposição da população local. Mas não é uma estrada solitária com poucas ramificações que tranformaria o “ermo” em “cosmopolita”.
O resultado, pelo que vimos e sentimos, é uma vastidão a ser explorada. Para todos os lados que se olha na Patagônia chilena vê-se vales profundos e verdes subindo em direção a alguma geleira, praticamente virgem e intocado, esperando uma equipe de aventureiros (muito) bem dispostos e equipados para desvendar seus mistérios. Não faltam rios, caudalosos e límpidos, que combinam perfeitos com caiaques e balsas de rafting. Muralhas de rocha clamam por escaladores. A própria Carretera Austral é perfeita para cicloturismo e já é uma tradição mundial.
É claro que minha visão é preconceituosa. Enxergo aquilo que meu trabalho e lazer individual me ensinaram: aventura. Mas existe, claro, cultura e folclore, riqueza humana e artística, um estilo de vida chamado de “patagônico” que também está ameaçado de extinção, junto com o Huemul. Esse estilo de vida diverge, contrasta e é muitas vezes antagônico ao estilo “politicamente correto” dos ambientalistas e praticantes conscientes de esportes de aventura. Nele a caça ao puma, por exemplo, que destroça a criação de ovelhas, é parte viva. A construção de cercas e mais cercas também. Assim como o churrasco, o rodeio, o chimarrão (el mate), cavalos e aquela aparência assustada pelo vento que só os patagones conseguem ter.
Ninguém volta incólume da Patagônia, muito menos depois de quase dois meses. Esse é um dos poucos lugares habitados do mundo em que a natureza ainda dita as regras e impões as condições finais, não importa a quem. Ao homem urbanizado moderno isso é um “choque cultural”. Mas na verdade é um chamado ancestral, um eco do inconsciente, uma força que sentimos correr nas veias. O resultado é quase sempre um estado de desconforto que vai além do físico, algo que confrota nossa personalidade e trinca valores. Não há como voltar para casa, para a cidade grande, sem questionar nosso estilo de vida.
Na Patagônia a vida é dura e simples. Mas quando foi mesmo que ela deixou de ser assim?
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